Sábado, 18 de Fevereiro, ao fim da tarde, Teatro da Cerca de S. Bernardo, espectáculo dos Bonecos de Santo Aleixo. Casa cheia, crianças em bom número, em rigor público dos 7 aos 77. O sucesso de sempre, justificadamente. O grande teatro do mundo em formato de bolso, o cristianismo espontâneo de milénios agora em divertimento para miúdos sem catequese, a quarta parede visível em forma de gradeamento que afinal é cordame (e a sabotagem da quarta parede na interpelação a elementos do público), a ilusão cénica com um sorriso mais ou menos rasgado, o cromatismo de que a cultura erudita desconfia, o pé que descamba facilmente na ordinarice «pimba» e que afinal – mais-valia pedagógica da tradição – vem de longe, o robusto primitivismo dos arquétipos e a celebração da pura dépense, enfim, o localismo idiomático, signo maior de um trabalho sobre o património como «reserva natural» do pobre. E ainda, suplemento obrigatório, o deslumbramento com que, findo o espectáculo, somos conduzidos aos bastidores, ou melhor, às traseiras esventradas da cena e da sua impressionante instrumentação low tech. A sensação, tão incorrecta quanto justa, de que se pode produzir um grande espectáculo a partir de «uma coisa de nada».
Livros que vale a pena ler
Tirado daqui.
Paulo Franchetti: o Brasil, Portugal e o Acordo Ortográfico
Paulo Franchetti deu-nos há dias uma longa entrevista, na sua condição de director da Editora da Unicamp, na qual se pronunciava, entre muitas outras coisas, sobre o acordo ortográfico. As suas palavras tiveram grande eco nas duas margens do Atlântico. Franchetti acaba de prestar um depoimento a uma página contra o acordo ortográfico no Facebook. O depoimento clarifica a sua posição nalguns pontos, razão pela qual o reproduzimos aqui, a título de Post Scriptum à entrevista de há dias.
Tenho visto na imprensa portuguesa que muita gente em Portugal ataca o Acordo Ortográfico por acreditar que seja uma manobra imperialista do Brasil para penetrar no mercado português do livro. Quanta ingenuidade! O AO é de fato imperialista, mas por outro motivo. Não é o mercado português do livro que importa ao Brasil. Ele é muito pequeno e saturado e tem pouca ou nenhuma perspectiva de crescimento. Já o do Brasil é imenso, crescente e ainda não atendido. A prova é que não são as editoras brasileiras que se estão estabelecendo em Portugal; são as portuguesas que vêm sofregamente instalar-se aqui. O verdadeiro objetivo do AO parece sempre ter sido um só: o mercado interno brasileiro de livros didáticos e paradidáticos. Portugal entrou no AO como mero argumento: a história da unificação da língua escrita (que o AO na verdade não promove) como passo para a inclusão do português como língua oficial da ONU, as proclamações pouco substanciais que resultaram das tantas reuniões jantantes da lusofonia – tudo isso era cortina de fumaça. O que importava mesmo, desde o princípio, era fazer uma reforma ortográfica no Brasil, para uso e abuso interno. Tanto que o AO foi aprovado e implementado a poder de lei no Brasil, unilateralmente. Desde a implementação, o governo brasileiro não compra um só exemplar de livro que não esteja de acordo com a nova ortografia: esse é o x da questão. O resto é discurso para inglês ver. Tanto que, neste momento, não vejo ninguém preocupado, aqui, com a adesão ou renúncia de Lisboa ao AO. O objetivo já foi atingido – a um custo social enorme para a sociedade brasileira, nunca é demais repetir. Os países africanos dão mostra de terem percebido o engodo. Eles, que poderiam ser um benefício adicional ao AO, do ponto de vista brasileiro. Tomara que se mantenham firmes e não adiram. Agora falta cumprir-se Portugal.
Publicações do Centro de Literatura Portuguesa
Luís Miguel Queirós: «Não seria preferível recomendar um romance extraordinário de há 50 ou 150 anos, do que um livro assim-assim de um ficcionista hoje em voga?»
Luís Miguel Queirós nasceu no Porto, em 1962. Licenciou-se em Relações Internacionais, competência que praticamente não exerceu, e trabalhou depois algum tempo como escriturário numa fábrica de sapatos. Finda essa experiência, iniciou-se nas lides jornalísticas, no desaparecido O Comércio do Porto. Esteve ainda um ano noutro clássico da imprensa portuense, O Primeiro de Janeiro, do qual transitou para o Público, no final de 1989. Embora, enquanto jornalista da secção cultural, escreva necessariamente sobre áreas variadas, a sua atenção principal esteve sempre focada na literatura e, em particular, na poesia. O seu conhecimento exaustivo do corpus da poesia portuguesa, com especial competência na do último século e meio, esteve bem patente sempre que teve de resenhar para o Público as grandes antologias da poesia portuguesa publicadas desde 1989. Leitor doublé de coleccionador, a sua biblioteca de poesia portuguesa do século XX ganhou proporções discrepantes, antes de, como confessa em seguida, se ter decidido a tomar medidas profilácticas no sentido do seu emagrecimento. Tudo isto faz de Luís Miguel Queirós um candidato natural a antologiador da poesia portuguesa, prática a que aliás já se entregou, embora lamentavelmente em regime parcelar ou temático.
Na sequência das entrevistas que vimos fazendo a agentes do mundo do livro, Luís Miguel Queirós surgiu como uma escolha óbvia, no momento de passarmos ao mundo da imprensa e da crítica nela exercida. Agradecemos-lhe a disponibilidade, bem patenteada na franqueza e extensão da conversa.
TP. Como te defines? Jornalista cultural ou crítico literário?
LMQ. Se me ocorresse definir-me, julgo que não recorreria a nenhuma destas expressões. Leitor seria a aposta mais óbvia. Coleccionador de bonequinhos dos gelados Olá, Rajá e Neveiros (e de nenhuns outros) ou fazedor de listas (quaisquer listas) seriam outras possibilidades. São características compulsivas. Pelo contrário, não me exigiria o menor esforço não escrever para jornais, sobretudo se me pagassem para (não) o fazer.
Esperando que, nos tempos que correm, isto não forneça motivo para despedimento com justa causa, confesso que vejo o jornalismo como algo que faço – e que consumo bastante mais do que faço –, e não como algo que me constitua ou defina.
Não se diz, Manuel António…
O dinheiro do Prémio Camões não o dava a ninguém, mas o prémio partilhava-o com toda a gente, com quem quiser. Entrego já a glória daquela merda.
Manuel António Pina em entrevista a Nuno Ramos de Almeida, no i.
A vida material, segundo Marguerite Yourcenar
Matthieu Galey ― Como é que você vivia? Não tinha preocupações materiais?
Marguerite Yourcenar ― Não, nenhumas. Contei tudo isso em Arquivos do Norte. Era um capítulo um pouco embaraçoso, é sempre embaraçoso falar de dinheiro. O meu pai não me tinha deixado nada. Devo explicar que a fortuna legada pela minha mãe tinha sido mal gerida, não pelo meu pai mas por outros. Por isso, com aquilo que me restava, pensei simplesmente: gastemos. Depois há-de se ver. A questão material não se colocava. Gastava livremente, às vezes tinha mais dinheiro, outras vezes menos. E felicito-me por isso. Considero que foi uma sorte ter tido essa liberdade absoluta durante uns tempos. Podia ter corrido mal, se durasse muito mais tempo, porque se torna uma facilidade, mas, como a guerra a interrompeu, foi bom, foi uma experiência que ficou feita, de uma vez por todas.
É um privilégio, mas que se pode obter sem grandes fortunas. Vejo-o frequentemente no seio do que chamamos o povo. Querer assegurar o futuro é um ponto de vista burguês. Na verdade, não asseguramos absolutamente nada, não fazemos ideia do que será o futuro. Vi há pouco tempo o caso de uma família modesta, que corria o risco de perder tudo por causa de uma série de hipotecas e de dívidas, cujos juros não podia pagar. Bom, fiquei impressionada ao ver até que ponto aquele homem e aquela mulher, o pai e a mãe, estavam dispostos a fazer o que quer que fosse, dizendo: «Torno-me empregada de um restaurante; vou trabalhar como jardineiro, ou como pintor da construção, se não conseguir ser jardineiro. E, se não pudermos ficar aqui, vamos para outro lado.» É uma forma de liberdade. Admirava-os, eram livres.
Adriano Scandolara: mais um louco por Joyce
Como é traduzir James Joyce?
Difícil, mas divertido (divertícil, pra ser um joyceano pedante). Digo, não sei o restante da obra de Joyce (imagino que o Ulisses, por exemplo, seja mais difícil e trabalhoso do que divertido), mas o Finnegans Wake é algo tão lúdico que a tradução, para mim, vira menos um ato de erudição e adequação a formas, normas ou outros tipos de expectativas, quanto me parece um ato de associação, algo livre, de conceitos, ideias, imagens e sons. O FW mesmo parece que encoraja isso… aí, na hora de traduzir, eu acabei me orientando menos pelo tanto de sentidos a serem enfiados no texto do que pelo ritmo. É óbvio que eles são importantes também – vide as referências bíblicas nos parágrafos segundo e quinto, ou as referências bélicas no quarto, que não devem ser descartadas pelo tradutor – mas eu não me recrimino de perder alguma referência mais obscura se for para deixar o texto com uma sonoridade melhor. Joyce, apesar de romancista, acredito que se aproxima muito da poesia, no FW, e o resultado é um texto que soa especialmente bonito quando lido, e seria uma pena perder isso na tradução.
Chama-se Adriano Scandolara e venceu há alguns meses o Concurso de Tradução Bloomsday, em boa hora criado pela Ateliê Editorial, a editora paulista que publicou, em cinco volumes, a tradução do Finnegans Wake para português, por Donaldo Schüler, uma obra que é além do mais uma preciosidade tipográfica. O concurso consistia em traduzir o trecho inicial do capítulo I da obra. Vale a pena ler toda a entrevista com o jovem premiado. E ler, já agora, a sua tradução. Porque Blooomsday é quando um homem quiser…
Será a PSP uma escola de crítica literária?
Ou será que, uma vez mais, o preconceito sai derrotado pela realidade?
Vida e destino de um romance

Quando, em outubro de 1960, Vassili Grossman enviou o manuscrito de Vida e Destino para o chefe de redação da revista Znamia, este passou-o de imediato para as mãos do KGB. Ainda que se vivesse então a época do «degelo» kruscheviano e da crítica pública dos crimes brutais e genocidas de Estaline, as consequências não demoraram a fazer-se sentir: o apartamento do escritor judeu ucraniano foi revistado, as cópias, os rascunhos e até as fitas de tinta das máquinas de escrever foram de imediato apreendidos. Grossman viveu a perda do seu romance, resultado de dez anos de intenso trabalho, como uma catástrofe pessoal, irreversível. Morreria três anos mais tarde na obscuridade, sem conseguir recuperar do desgosto e do desânimo. No imenso panorama da sociedade soviética que é este romance, comparado muitas vezes à obra maior de Tolstoi, o escritor retrata de forma realista, mas inegavelmente distante do cânone estético e político oficial, a vida durante a Segunda Guerra Mundial, com particular ênfase na ofensiva alemã, e na defesa e contraofensiva soviéticas, que culminaram com a libertação de Estalinegrado e dos territórios ocupados pelos nazis. Episódios que o autor, aliás, diretamente viveu como correspondente de guerra ao serviço do Exército Vermelho, para o qual se havia voluntariado como soldado raso.
Estabelece-se ali, e terá sido com toda a certeza essa a razão principal da desgraça do romance e do seu criador, uma incómoda analogia entre os processos de controlo político usados pelos sistemas totalitários nazi e soviético, sobressaindo o antissemitismo estrutural que, com diferentes cambiantes, de facto partilhavam. No centro da trama, a vida atribulada de uma família de «classe média», seja lá o que isso pudesse ter significado na era estalinista, dramaticamente dispersa entre a Alemanha e a Sibéria pelas circunstâncias da guerra e das suas sequelas. Após o poeta Lipkine, o físico Sakharov e o escritor Voïnovitch terem conseguido fazer sair da União Soviética um microfilme feito a partir de dois manuscritos entretanto recuperados, o texto será impresso em russo em 1980, numa pequena tiragem da responsabilidade de um editor suíço, antes de começar a ser traduzido em numerosas línguas. Em 1988, no auge da perestroika, foi finalmente editado em Moscovo. No entanto, na Rússia, e ao contrário do que tem acontecido mais a ocidente, o reconhecimento público da dimensão desta obra imensa e de leitura imersiva, bem como o do percurso pessoal e intelectual do próprio Grossman, gradualmente distanciado do regime soviético, têm sido claramente exíguos. Como, citado pela revista francesa Books, escreveu o encenador Lev Dodine no semanário Itogui, tal não pode deixar de acontecer numa sociedade que «emprega o essencial da sua energia a renegar o próprio passado».
Vassili Grossman, Vida e Destino. Trad. de Nina Guerra e Filipe Guerra. Dom Quixote. 856 págs. Publicado também em A Terceira Noite.
André Tavares, da Dafne Editora: «Seremos sempre uma ‘editora de vão de escada’, da nossa escada que é uma escada desenhada por arquitectos»
Com aparição pública datada de 2004, a Dafne Editora é o exemplo de como a opção por uma área de especialização – a arquitectura – pode funcionar como imagem de marca e alavanca de um projecto editorial exigente e em desenvolvimento sustentável. De facto, sem nunca abandonar a sua área de referência (o site apresenta, por baixo do nome da editora, a indicação «Livros de Arquitectura»), a Dafne vem constituindo um catálogo relevante, sabendo alargá-lo para áreas limítrofes – o urbanismo, o design, a museologia, a estética – sem nunca perder o pé ou se lançar em expansões suicidas, num momento em que o mercado se alimenta de produtos «hiper-rotativos» e, por isso, de uma desoladora banalidade. Resistindo às solicitações do fácil e do estridente, a Dafne pratica ainda uma linha gráfica cuja sobriedade, na qual se pode talvez ler o legado da «Escola do Porto», tem um valor que no contexto actual é não só pedagógico como, convenhamos, terapêutico.
Razões mais do que convincentes para, na sequência das entrevistas que vimos fazendo a agentes do mundo do livro, ouvirmos André Tavares, o responsável principal pela editora. Agradecemos a sua disponibilidade.
TP. A Dafne define-se como «editora de arquitectura» mas a verdade é que o seu catálogo se tem vindo a alargar para a Museologia e Estética. Pode definir o projecto editorial da Dafne? Qual é de facto o vosso público-alvo?
AT. Nós não temos como objectivo atingir ninguém, nem imaginamos o leitor como um alvo a abater. Começámos com uma colecção de História da Arquitectura e fomos entendendo que era fundamental abrir o leque de temas para que os livros pudessem chegar a mais leitores. O nosso primeiro livro da colecção Equações foi um texto de artes plásticas, do António Olaio sobre o Marcel Duchamp. Naquela altura escrevemos que queríamos encontrar relações entre a arquitectura e universos paralelos, relações que são constantes e intermináveis. Mas naturalmente acabámos por nos centrar naquilo que sabemos e conhecemos melhor, que são os assuntos da arquitectura.
O ‘livro dos museus’ do João Brigola ou a colecção Imago foram oportunidades que apareceram ao longo do caminho e que nos pareceram muito oportunas, quer pelas condições que tínhamos para editar, no caso de uma parceria com o CHAIA da Universidade de Évora, ou pela hipótese de fazer chegar os livros da Dafne a um público que em geral é completamente surdo em matérias que fujam do mainstream. Creio que ambas as edições correram bem, e esperamos que haja outras hipóteses para acompanhar os nossos livros de arquitectura com outros livros que partilhem afinidades com eles.
«Uma inscrição», de José Ángel Valente
Foi em Roma,
onde havia naquela época
grandes concentrações de capital
e massas operárias com escassas possibilidades de subsistir.Os poetas não registaram o problema,
porque Roma deve ter sido uma alegre cidade
nos tempos de Nero,
Aenobarbo, parricida,
poeta de ínfima qualidade.Alguns homens simples
envenenaram as fontes
e opuseram-se ao regime oficial.Homens acaso como este
que jaz em paz,
trabalhador de humildes mesteres
ou, talvez, mercador. Um dia
foi-lhe comunicada
certa possibilidade de sobreviver.
(Ignora-se se foi sacrificado
por semelhante crime.)
Não obstante, morreu; quer dizer, soube
a verdade. Piedosamente
repito estas palavras
sobre a pedra escritas
com igual vontade:
«Alegre permanece, Tácio,
amigo meu,
ninguém é imortal».
«Una inscripción» integra o primeiro livro do poeta espanhol José Ángel Valente, A modo de esperanza, de 1954. Publico esta tradução em homenagem aos 4 anos do blog Do trapézio, sem rede, de Luís Filipe Parrado. Tanto mais que, ao que julgo, Valente não consta dos autores traduzidos no blog neste período.
Post Scriptum: «Lição de gramática», de Berta Piñan, por Luís Filipe Parrado
A infância, segundo Marguerite Yourcenar
Matthieu Galey ― Há, contudo, um elemento particular na sua infância: foi uma infância sem mãe. Essa falta pesou-lhe?
Marguerite Yourcenar ― Nem um pouco. Nunca, durante a minha infância, me foi mostrado um retrato da minha mãe. Só o vi quando tinha talvez uns trinta e cinco anos. Fui visitar a sua campa pela primeira vez quando já tinha uns cinquenta e cinco. Devo dizer que o meu pai estava sempre rodeado de mulheres. Portanto, devia haver muita gente para me fazer golas de bordado ingês ou para me oferecer bombons.
MG ― É, no entanto, a infância de uma menina solitária.
MY ― Até certo ponto. Ou era-o de forma intermitente, umas vezes solitária, outras rodeada de outras crianças, de pessoas na casa de quem o meu pai passava algumas temporadas. Mas solitária por momentos, apesar de tudo, sim, e penso que o hábito precoce da solidão é um bem infinito. Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. Ensina-nos também a amar mais os seres. Além disso, há um fundo de indiferença na criança que muito raramente é descrito. Não sei se as pessoas se sentem embaraçadas com o sentimento dessa indiferença, mas fico impressionada quando observo as crianças: vivem num mundo muito próprio. Tenho a sensação de que vivia, também eu, no meu mundo. Creio que os escritores, na sua maioria, mesmo os «sérios», que falam da infância, se enganam sempre. Vêem a criança do seu ponto de vista de adultos, ou fazem um esforço enorme para se colocar no lugar do que imaginam ser uma criança. Tudo isto é demasiado sistemático, está demasiado próximo das nossas próprias convenções. Julgo que a criança se orienta na vida de forma muito vaga, com a surpresa do animal jovem que vê ou encontra qualquer coisa pela primeira vez. As pessoas grande que a rodeiam, cuja identidade nem sempre é muito clara – uma dizem-lhe ser, ao que parece, o pai, que se chama «papá» (mas o que é para ela um pai?), outra a mãe, e a terceira a criada, a cozinheira ou o carteiro – são todas «pessoas grandes», que têm uma certa importância mas, ao mesmo tempo, não estão muito ligadas à criança nem à sua vida própria, aliás impenetrável para aquelas pessoas. Ninguém quer ver essas relações. Pretende-se que as crianças detestem os pais ou que os adorem. Na verdade, em nenhuma época eu «adorei» o meu pai, e parece-me que só bem tarde é que o amei verdadeiramente.
Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos. Conversas com Matthieu Galey, Lisboa, Relógio d’Água, 2011, pp. 23-24.
Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo
[Texto lido no passado dia 11 de Fevereiro de 2012 no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira, aquando da cerimónia de assinatura do contrato de doação do espólio de Carlos de Oliveira ao museu]
É-me muito difícil dispensar uma nota pessoal no dia de hoje, atendendo ao motivo que aqui nos traz. Porque há, desde logo, uma pessoa que hoje aqui não pode estar, uma pessoa que contudo, para todos os que nalgum ponto do seu interesse pela obra de Carlos de Oliveira se cruzaram alguma vez com ela, está e estará sempre connosco quando falamos de Carlos de Oliveira: Ângela de Oliveira, renomeada como Gelnaa ou Anne Gall no interior dessa mesma obra e personagem maior dela, ou melhor, da sua própria edificação. Várias das pessoas que aqui estão hoje, e seguramente que muitas outras, sabem que para Ângela a questão do destino a dar ao espólio de Carlos de Oliveira foi uma obsessão alimentada desde o dia seguinte ao dia 1 de Julho de 1981. Ou melhor: uma missão a que se votou sem desfalecimentos, apesar das dificuldades que o mundo ergue, hoje e sempre, no caminho de quem busca preservar a memória daqueles que desejaram confundir o seu destino com o das palavras da tribo.
O que anda a ler?
Danilo Silva, barman, 31 anos, Guimarães.
Preferências: Fafá de Belém, Ivete Sangalo, Timão, Presidente Lula.
Leituras:
1) Em Portugal não se come mal, de Miguel Esteves Cardoso, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008.
2) A mensagem da Irmã Lúcia. Aprender a rezar com a última vidente, de Paulo Aido, Lisboa, Prime Books, 2007.
3) As minhas montanhas. As regras de ouro do sucesso, de Roberto Leal, Lisboa, Livros d’Hoje, 2011.
Oficina do Cego: «Vivemos como as vacas no campo, ruminando cuidadosamente os nossos projectos, pouco preocupados com os ontens e os amanhãs patrimoniais»
Fundada em Lisboa, em 2009, a Oficina do Cego, «associação sem fins lucrativos que desenvolve trabalho no domínio das artes gráficas», afirmou-se rapidamente como um colectivo empenhado na prática e na pedagogia da impressão e auto-edição. Combinando técnicas de hoje com técnicas de ontem, recuperando artes gráficas que o progresso e o fetichismo das tecnologias de impressão deitaram supostamente para o caixote do lixo da História e cruzando-as com sensibilidades gráficas muito diversas, a Oficina do Cego ofereceu um modelo de relação com a História, o património, a criação e o mercado no qual não custa ver uma lição alternativa ao actual pensamento único (bem patente no facto de o colectivo se ter recusado a individualizar os seus membros nesta entrevista). Em todo o caso, trate-se de técnicas d’antanho ou de hoje, a Oficina do Cego é uma aula viva do culto da materialidade dos suportes tipográficos tradicionais – papéis, cartolinas – e da sensorialidade das inscrições que neles a criatividade gráfica produz. De fanzines a jornais, cartazes, flyers ou livros, a civilização do impresso mostra, mais uma vez, a vitalidade das suas formas e o potencial do seu legado, nesta Oficina de gente que vê bem ao longe.
Uma vez que este blog decidiu ouvir um número alargado de agentes do livro, em Portugal e no estrangeiro, pareceu-nos que a Oficina do Cego deveria ter uma palavra a dizer. Não apenas pelo seu trabalho no domínio do livro, escasso mas precioso, mas pelo que este colectivo representa neste momento nas artes gráficas em Portugal. Resta-nos agradecer a todos os membros do colectivo o empenho colocado nas respostas que nos enviaram.
TP. Podem descrever a Oficina do Cego? O que é, quantas pessoas congrega, quais os seus objectivos?
OC. A Oficina do Cego é uma associação sem fins lucrativos, formada no final de 2009. No princípio éramos quase uma dúzia, ligados à ilustração, à edição de fanzines, à impressão, à poesia, ao design gráfico, à escrita sobre ilustração e banda desenhada.
Actualmente, a associação tem quarenta e sete associados.
Quando fixámos os nossos objectivos adaptámos, com bastante liberdade e fantasia, as linhas de um regulamento encontrado, por acaso, na internet (o regulamento da Associação Ateísta Portuguesa). Trocámos “ateísmo” por ”grafismo” e ficámos com a primeira tábua: A divulgação do grafismo como mundividência estética, filosófica e socialmente válida. Daí decorrem as seguintes, um tanto mais prosaicas: A produção de documentos gráficos, de abordagens autorais e artísticas multi-disciplinares e com múltiplas abordagens no domínio das técnicas de impressão e da edição de pequena tiragem; A formação teórica e técnica dos associados e outros em projectos inseridos nas actividades da associação; O intercâmbio com entidades e pessoas afins… Etc.
Duarte Belo no TAGV
Herberto Helder por Tomás Taveira
Desde o 1º ano da escola, que o «antigo» me fascinava. O primeiro trabalho que fiz foi sobre as cidades, ditas de colonização, no Egipto Antigo – as cidades que foram feitas para albergar os escravos, que iriam construir as pirâmides. A minha ligação à história vem desde o início. … Como é que eu chego à história depois de uma maneira mais evoluída e antes de 1967? Por um lado, tive uma influência brutal do Herberto Helder, convivi com ele em Santarém; estava na tropa, e ele cuidava de uma biblioteca itinerante da Gulbenkian. Foi-me apresentado pelo Fernando Assis Pacheco, que teve também uma grande influência na minha evolução cultural. O Assis Pacheco tinha uma biblioteca incomensurável, que era do pai. Quase toda a literatura americana que li, foi-me emprestada por ele; estamos a falar de 1960/1962. Lia um livro por dia; se não lesse, ele levava-o, era um louco, fantástico. O Herberto, por outro lado, disse-me uma coisa interessantíssima que tenho aqui transcrita: «A arquitectura não é uma coisa natural, é uma coisa que vem do pensamento, tem de ser adaptada à história e ao local». Disse-me isto no primeiro dia que o conheci. E tal ficou registado no meu cérebro, é uma das chaves da minha evolução.
Tomás Taveira, in Jorge Figueira, Reescrever o Pós-Moderno, Porto, Dafne Editora, 2011, pp. 141-142.
Última hora: João Botelho no «Páginas Tantas» a 12 de Março
Como se pode ler em post anterior neste blog, a sessão do Páginas Tantas com João Botelho estava agendada para 5 de Março.
Informamos que por razões que se prendem com compromissos de rodagem do próximo projecto do cineasta, a sessão teve de ser transferida para a segunda-feira seguinte, 12 de Março, pela mesma hora. Em breve informaremos sobre o programa das festas no TAGV em torno da obra de João Botelho.
Tàpies sobre João Cabral
Foi muito interessante conhecer João [João Cabral de Melo Neto, 1920-1999], porque isso se deu em um momento em que havia muita discussão em torno de poesia e arte. Questionava-se muito se os poetas e os pintores deviam fazer um trabalho social e político. As opiniões de Cabral eram muito acertadas. [...] Para mim, ele era alguém um pouco mais velho que, naquela época, foi como um modelo, um exemplo muito interessante dentro dessas polêmicas.
João Cabral foi de grande ajuda para os jovens. Ele chegou a me apresentar, junto com outros artistas [Joan Ponç, 1927-1984, e Modest Cuixart, 1925-2007], em uma exposição no Instituto Francês de Barcelona [1949]. Escreveu um texto muito bonito do qual sempre me lembro. Mas foi importante sobretudo porque nos dava a oportunidade de ir à sua casa para, em plena ditadura [o franquismo, desde 1939], discutir diversos temas, inclusive a situação política da Espanha.
Tirado daqui.
Paulo Franchetti, director da editora da Unicamp: «O acordo ortográfico é um aleijão»
Paulo Franchetti é crítico literário, escritor e professor titular do Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Publicou, no Brasil, entre outros livros, os ensaios Alguns aspectos da teoria da poesia concreta (1989), Nostalgia, exílio e melancolia – leituras de Camilo Pessanha (2001), Estudos de literatura brasileira e portuguesa (2007), e organizou o volume Haikai – antologia e história (1990). Preparou edições comentadas de Coração, Cabeça e Estômago (2003) e, para a Ateliê Editorial, O Primo Basílio (1998), Iracema (2007), A cidade e as serras (2007), Dom Casmurro (2008), Clepsidra (2009) e O cortiço (2012, no prelo). Publicou ainda, em Portugal, a edição crítica da Clepsydra, de Camilo Pessanha (1995); a antologia As aves que aqui gorjeiam – a poesia do Romantismo ao Simbolismo (2005) e o ensaio O essencial sobre Camilo Pessanha (2008). É também autor da novela O sangue dos dias transparentes (2003), da coletânea de haicais Oeste/Nishi (2008), do livro de sátiras Escarnho (2009) e do livro de poemas Memória futura (2010).
Desde 2002, dirige a Editora da Unicamp, tendo neste período conseguido 6 prémios Jabuti e colocado, no ranking de 2010, a Unicamp no 5º lugar das melhores editoras do Brasil, apenas com a Editora da UFMG melhor colocada, em 4º, de entre as editoras universitárias. De notar que, de acordo com esse ranking, entre as 19 melhores editoras do Brasil, 4 são universitárias, ou seja, um pouco mais de 20%. Situação rara, em muitos países, a começar por Portugal, e uma razão mais para ouvirmos Paulo Franchetti, que junta às suas facetas de professor, orientalista, crítico, poeta, ficcionista e editor (e motoqueiro…) a de conhecedor profundo da literatura portuguesa, sobretudo das obras de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Camilo Pessanha (cuja edição fixou, laminando uma série de lendas de longo curso sobre o poeta e a obra) e Fernando Pessoa.
Agradecemos a Paulo Franchetti a disponibilidade revelada e o empenho colocado na resposta, desassombrada como sempre, às nossas perguntas.
TP: Pode dar-nos algumas informações prévias sobre a Editora da Unicamp? Qual é o seu orçamento anual? Quantos funcionários trabalham na editora e nas livrarias do campus? Quantos livros publica a editora em média por ano?
PF. A Editora recebe um apoio de cerca de R$ 300.000,00 por ano. Isso constitui o seu fundo editorial e se destina a cobrir principalmente a tradução e a impressão de obras que, apesar de importantes para o público universitário, não produzem retorno de vendas, por se dirigirem a um público muito restrito. Anualmente, com base em projetos específicos e planilhas de custos, a reitoria pode suplementar esse valor. O faturamento bruto da Editora da Unicamp gira em torno de R$ 1.500.000,00.
Na Editora trabalham 25 funcionários, e nas duas livrarias, 4. Desses, apenas 8 são funcionários públicos; os demais são contratados pela Fundação e têm seus salários e direitos pagos com o resultado da venda de livros. De modo que a Editora da Unicamp funciona mais ou menos como uma pequena empresa.
O número relativamente elevado de funcionários se deve a uma estratégia definida pela direção: fazemos internamente a revisão e a diagramação da maior parte dos livros, tendo para isso quatro revisoras contratadas em período integral e duas diagramadoras. Quando há excesso de trabalho, alguns serviços de revisão e diagramação são terceirizados. Os funcionários, então, promovem leitura aleatória do trabalho realizado, para controle de qualidade. Isso tem garantido à Editora um excelente nível de correção nas suas publicações, muito acima do padrão nacional.
A Editora publica em média 40 títulos novos por ano e 6 em segunda edição. Desse total, todos os anos são feitas cerca de 24 reimpressões. De modo que a Editora põe na praça, anualmente, cerca de 70 tiragens.
Sessão 2 de «Páginas Tantas»: Duarte Belo
Como vimos anunciando neste blog, terá hoje lugar, pelas 18.30h, no TAGV, a segunda sessão do Páginas Tantas. Será nosso convidado o fotógrafo Duarte Belo. O painel será constituído por Ana Maria Machado e Osvaldo Manuel Silvestre.
Duarte Belo nasceu em Lisboa, em 1968. Licenciatura em Arquitetura (1991). De uma obra fotográfica documental extensa são de destacar as obras Portugal — O Sabor da Terra, em catorze volumes (1997), onde se faz uma aproximação à fixação do tempo longo em Portugal, e Portugal Património, em dez volumes (2007-2008), um inventário do património cultural e natural, em sítio, de todo o espaço português. De outros trabalhos editados em livro, mais específicos, poderíamos destacar Orlando Ribeiro — Seguido de uma viagem breve à Serra da Estrela (1999); Ruy Belo — Coisas de Silêncio (2000); O Vento Sobre a Terra — apontamentos de viagens (2002); À Superfície do Tempo — Viagem à Amazónia (2002); Território em Espera (2005); Geografia do Caos (2005); Terras Templárias de Idanha (2006); Olívia e Joaquim – Doces de Santa Clara em Vila do Conde (2007); Fogo Frio – O Vulcão dos Capelinhos (2008); Comboios de Livros (2009); desenha, produz e fotografa as ilustrações do conto O Príncipe-Urso Doce de Laranja (2009); Cidade do Mais Antigo Nome (2010); O Núcleo da Claridade – entre as palavras de Ruy Belo (2011).
Além da exposição fotográfica Palavra, Lugar, que anunciámos anteriormente, também os livros de Duarte Belo serão objecto de exposição.
Livros a apresentar na sessão 2 de «Páginas Tantas»
Ficção:
• António Lobo Antunes, Comissão das Lágrimas, Lisboa, Dom Quixote, 2011. ISBN: 9789722047951.
• Philip Roth, Némesis, Lisboa, Dom Quixote, 2011. ISBN: 9789722048040.
Poesia:
• Ruy Belo, Na Margem da Alegria. Poemas Escolhidos por Manuel Gusmão, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011. ISBN: 978-972-37-1598-9
Fotografia:
• Duarte Belo, O Núcleo da Claridade. Entre as Palavras de Ruy Belo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011. ISBN: 978-972-37-1557-6
Entrevista:
• Jorge Figueira, Reescrever o Pós-Moderno, Porto, Dafne Editora, 2011. ISBN: 978-989-8217-17-2
• Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos. Conversas com Matthieu Galey, Lisboa, Relógio d’Água, 2011. ISBN: 978-989-641-240-1
Livro infantil:
• Isabel Minhós Martins e Yara Kono, Como é que uma galinha…, Lisboa, Planeta Tangerina, 2011. ISBN978-989-8145-34-5.
A volúpia do gerente
Espero por quem não vem
Os casais entram
agarram-se aos jornais
A poesia automática não sai
Os homens conversam
O gerente chega
e atira-se, com volúpia,
à caixa registadora.
António Pedro Ribeiro, Café Paraíso, Porto, Bairro dos Livros, 2011.
«Páginas Tantas», sessão 2: a exposição de Duarte Belo
© Duarte Belo
Como informámos antes, inaugurar-se-á na próxima segunda-feira, dia 6 de Fevereiro, uma exposição de Duarte Belo, próximo convidado do Páginas Tantas, que ficará no TAGV cerca de um mês. Reproduzimos aqui um dos dois painéis concebidos pelo fotógrafo. A exposição intitular-se-á Palavra, lugar, e pode ser visitada online. Transcrevemos em seguida o texto que Duarte Belo concebeu para a acompanhar:
A par de um levantamento fotográfico de todo o território português, foram sendo feitas fotografias, sem um propósito definido, de situações e lugares de trabalho, de todo um universo de fazeres, por vezes singulares, que sustentam as imagens, os discursos e os diálogos sobre as paisagens. É uma fracção desse mundo que aqui está em confronto próximo com os territórios mais afastados registados, ora sob um sol intenso, ora em fuga do tempo agreste dos invernos nevados das terras altas. Palavra é uma síntese possível da génese de um processo de comunicação pela imagem fotográfica e o relato do habitar os espaços de ausências humanas. Lugar é a construção de um novo espaço, entre o real e o imaginário, entre a maior cidade e o mais longínquo deserto.
Na sala de aula: Joaquim Manuel Magalhães (II)
Passo agora a transcrever o poema da sala de aula, inicialmente editado em Segredos, Sebes, Aluviões, tal como Joaquim Manuel Magalhães o recupera em Um Toldo Vermelho (Relógio d’Água, 2010, p. 154), obra na qual inclui o que considera recuperável da sua produção poética:
Num acanhado apontamento
pergunta a tabuada.A reza de números, a regente
indaga de seguida
numa página coçada
gramática.O arroubo, o ilógico
elemento decorado,
um pronome pessoal que laço
a um colega miudinho,
ígneo arrojo.
Não vale a pena fingir que se pode ler este poema sem a leitura contrastiva que a sua história solicita. É certo que se o leitor agora chegado à poesia de JMM ler Um Toldo Vermelho como a Obra, dispensará provavelmente tudo aquilo que, lá para trás, faz antes desta obra uma súmula. Nesta versão, a Obra não seria mais do que um privilégio do amnésico. Contudo, o problema maior da súmula da Obra a que o autor deu o nome, também ele «em versão curta» e por isso falsamente amnésica, Um Toldo Vermelho (título que recupera e ao mesmo tempo corta Uma luz com um toldo vermelho, livro de 1990), reside no envio para a memória que cada poema sobrevivente à poda produzida pelo autor põe, como que necessariamente, em marcha.
Em memória de Safo
Do autor de A casa do pó, Fernando Campos, e da mesma editora Objetiva, chancela Alfaguara, saiu, no final de 2011, A rocha branca, cujo título evoca o lugar do suicídio por amor de Safo de Mitilene, famosa poetisa da Antiguidade (sécs.VII-VI a.C.).
A mesma busca do rigor possível, de fidelidade ao estilo da época, ou, aqui, ao estilo a que as traduções portuguesas do grego nos habituaram, a mesma atração pela história que se oferece à ficção “fundamentada” (14).
Romancear Safo exige articulações várias entre o conhecimento da Antiguidade e dos seus autores, os silêncios da história pessoal e o estado fragmentário da sua poesia, mas Fernando Campos é cauteloso e probo, como atesta o prefácio com que brinda os ignaros leitores não versados em matérias antigas. Em diálogos vivos e impressivos, enternece-se no desenho de Safo, poetisa, mestra educadora, mulher, mãe e amante, e retrata-a em toda a sua elegância, beleza, sensibilidade, cultura e integridade irradiadoras, percorrendo com devoção serena, num ritmo por vezes demasiado arrastado, as várias fases da sua vida.
O que anda a ler?
Benedita Redol, operadora de Call Center, Sta Maria da Feira, 28 anos.
Preferências: Abbas Kiarostami, Académica de Coimbra, Intimissimi, Kindle.
Leituras:
1) Manuel Gusmão, A Terceira Mão, Lisboa, Caminho, 2008.
2) Manuel Gusmão, Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem, Coimbra, Angelus Novus, 2009.
3) Manuel Gusmão, Tatuagem & Palimpsesto. Da Poesia de alguns Poetas e Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.
«Páginas Tantas», sessão 2 com Duarte Belo
© Duarte Belo
A propósito da segunda sessão do Páginas Tantas, que terá como convidado Duarte Belo, chamamos a atenção para a exposição de fotografias do autor que o TAGV exibirá, a partir do dia 6 de Fevereiro. Reproduzimos uma das fotos da exposição.
Abadia
Na abadia franciscana de Monteveglio
há um sistema inovador
de chamar os frades para as confissões:
com um simples toque numa campainha eléctrica
pode solicitar-se frei Gregorio
com dois toques + pausa + um toque
convoca-se o frei Stefano
mas com um toque + pausa + dois toques + pausa
quem acudirá será frei Domenico.
O método parece funcionar
e bem:
com uma pausa + três toques + silêncio
+ 1 toque demorado (à volta de quinze segundos)
eu próprio pedi que Frei Giovanni della Annunziata
ali me confessasse.
Desgraçadamente Giovanni della Anunziata
responde a toques + silêncios + pausas
mas não conhece a minha linguagem
feita de palavras que se chamam umas
às outras
e que frequentemente me chamam a mim.
Américo Rodrigues, Acidente Poético Fatal, Guarda, Luzlinar, 2011.
Averno: «Nos últimos anos a poesia, e a literatura, perderam terreno. Isso não é uma catástrofe. A poesia dá-se bem em condições adversas»
Nascida em 2002, e com 59 títulos editados desde então, a Averno conquistou com esse escasso catálogo uma reputação assinalável na «linha da frente» da edição portuguesa de poesia. Elegendo algumas (poucas) referências entre os poetas portugueses de períodos anteriores, de António Manuel Couto Viana e António Barahona a João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães, a Averno distinguiu-se sobretudo por apostar num conjunto de poetas da nova geração: Rui Pires Cabral, Manuel de Freitas, José Miguel Silva, Vítor Nogueira e, mais recentemente, Miguel Martins, Renata Correia Botelho ou Diogo Vaz Pinto. Não descurando a edição de poetas em tradução, a editora singularizou-se, logo no seu início, pela edição da antologia Poetas sem Qualidades, responsável por um longo e polémico debate na cena poética e crítica portuguesa, e pela edição de uma revista de poesia e crítica, Telhados de Vidro, hoje no seu nº 15. Seguindo uma velha e sempre actual lição, a Averno tornou os seus livros reconhecíveis pelas opções gráficas assumidas, as quais, após algumas hesitações iniciais, estabilizaram, em grande medida por influência de Olímpio Ferreira, nas capas em kraft, na avareza no uso da cor e nos formatos «de bolso». Tudo a contra-corrente de um mercado cada vez mais rendido a cores, brilhos e relevos sem pertinência ou sentido. Não surpreende que a Averno se tenha tornado numa espécie de exemplo a seguir por todas as pequenas e dinâmicas editoras que vão preenchendo o espaço que as editoras tradicionais ocuparam, até há pouco, na edição de poesia.
Razões mais do que suficientes para irmos ouvir Inês Dias e Manuel de Freitas, o duo que assume a condução editorial da Averno. Agradecemos a ambos a disponibilidade revelada.
TP. Quantas pessoas constituem a Averno?
A. A Averno é constituída apenas por duas pessoas, no que respeita a decisões editoriais: Inês Dias e Manuel de Freitas. Porém, e desde o primeiro momento, tivemos o privilégio de contar com o apoio gráfico do Olímpio Ferreira, que soube dar um rosto sóbrio e original à editora. Após a morte do Olímpio, que por pouco não foi o fim de tudo no plano editorial, continuámos graças ao entusiasmo e à disponibilidade de pessoas como Pedro Serpa, Inês Mateus ou Diogo Vaz Pinto. De Braga, com enorme zelo, a Carla Gaspar vai-nos actualizando o blog. E há também os autores, os ilustradores, os impressores. O que, em rigor, nos permitiria dizer que a Averno é constituída por vinte ou mais pessoas essenciais para a feitura dos livros.
O que anda a ler?
Daniel Morgado, psicoterapeuta, 54 anos, Coimbra.
Preferências: Eduardo Sá, Nuno Crato, Philip Glass, leitão à Bairrada, República Dominicana.
Leituras:
1) Uma aventura na Quinta das Lágrimas, de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, Lisboa, Caminho, 1999.
2) Veronyka decide morrer, de Paulo Coelho, Lisboa, Pergaminho, 2009.
3) Porque é que os homens querem sexo e as mulheres precisam de amor, de Allan e Barbara Pease, Lisboa, Bizâncio, 2009.
[Começamos hoje a publicar as indicações de leitura que nos chegam dos nossos leitores, de acordo com as normas enunciadas aqui]
«Páginas Tantas», sessão 2 com Duarte Belo
© Duarte Belo [óculos de mergulho de Ruy Belo]
No próximo dia 6 de Fevereiro, segunda-feira, pelas 18.30h, terá lugar no Teatro Académico de Gil Vicente a segunda sessão do Páginas Tantas. O convidado será Duarte Belo, autor de uma vasta e importante obra na fotografia portuguesa contemporânea. Chamamos a atenção para a exposição de fotografias de Duarte Belo que o TAGV exibirá, a partir do dia 6 de Fevereiro e durante um mês.
Esperança e compromisso
Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco assinam o diálogo Do eu solitário ao nós solidário que se anuncia uma conversa sobre “Deus, o Homem e o Mundo”, publicada pela Verso de Kapa, em Outubro de 2011.
Um leigo, jornalista, faz perguntas e um franciscano capuchinho responde. “Sem rede ou preconceitos” face a uma ortodoxia, ou a uma tradição, que em vários momentos se derroga tanto nas revisões teológicas, por exemplo, do conceito de pecado original, como no apelo à urgência da “revolução revolucionária dos não violentos” (17) para vencer os Cains que continuam a matar os Abéis. Estas duas figuras são, de resto, uma das pedras de toque do livro que associa o episódio veterotestamentário com o pecado social do querer ser deus, a sede devastadora de poder pelo poder, representada por Caim, e com a consequente descriação do mundo ilustrada pelo poema do teólogo protestante alemão Jörg Zink (73). Continuar a ler
Publicações do Centro de Literatura Portuguesa
António Apolinário Lourenço, Mensagem, de Fernando Pessoa, Coimbra, 2011. ISBN 978-972-40-4676-1 | 144 págs. À venda na rede Almedina.
A mais recente co-edição do Centro de Literatura Portuguesa e da Almedina é o volume inaugural da colecção Ler Melhor, com coordenação de José Augusto Cardoso Bernardes.
O que anda a ler?
Tantas Páginas convida os seus leitores a partilharem indicações de leitura, em rubrica que, com o título acima, abrirá em breve.
Para tal, os nossos leitores têm apenas que nos enviar os seguintes dados: foto, nome próprio, profissão, idade, local de residência e ainda quatro ou cinco preferências, nas áreas mais variadas (da moda aos automóveis, à gastronomia, à música, ao cinema, às viagens, etc.). Em seguida, deverão indicar, da forma mais completa possível, a referência bibliográfica de 3 livros que andem a ler ou que tenham lido ultimamente. Os livros poderão versar sobre qualquer tema ou área e ser escritos em qualquer idioma. Não deverão ser enviados comentários adicionais a cada título.
Quem quiser participar deverá enviar os seus dados para o nosso endereço de e-mail: tantaspaginas@gmail.com
Ficamos, pois, a aguardar a vossa participação. Começaremos a publicar as indicações logo que elas nos cheguem.
Bruaá: «Nós somos o caracol na beira da estrada que vê passar a corrida das grandes editoras»
Fundada em 2008 e com sede na Figueira da Foz, um saudável gesto de rebeldia face à macrocefalia lisboeta, a Bruaá Editora afirmou-se desde o início como um projecto marcante na área do livro infantil, assinalando, a par de alguns outros selos editoriais, a chegada da idade maior a esse segmento do mercado do livro em Portugal. Com uma produção ainda limitada em títulos, a Bruaá destacou-se pela escolha criteriosa dos livros, revelando autores de literatura infantil tão fundamentais como Shel Silverstein (autor aliás emblemático de uma simbiose profunda entre texto e ilustração) ou obras nas quais a questão da ilustração é indissociável da própria materialidade oficinal do objecto-livro, como nos casos de O livro negro das cores, de Menena Cottin e Rosana Faría, ou Na noite escura, de Bruno Munari. Com uma actividade repartida pela edição e pelo design, a Bruaá lançou-se mais recentemente na aventura de produzir os seus próprios títulos, combinando textos de referência – de Charles Cros e Daniil Harms – com ilustrações de autores portugueses e com formatos pensados para cada caso. Razões mais do que suficientes para ouvirmos Cláudia Lopes e Miguel Gouveia, o duo que vai justificando o bruaá que se ouve em torno dos livros da editora. Agradecemos a ambos a disponibilidade com que acederam ao nosso pedido de entrevista.
TP. Como descreveriam o vosso projecto editorial?
B. É um projecto independente, trabalhado por dois aprendizes do ofício, que se baseia fundamentalmente na edição de livros ditos infanto-juvenis e que tenta construir um catálogo diverso e com propostas alternativas que obedecem mais a um gosto pessoal do que a critérios puramente comerciais.
TP. Como definiriam o público-alvo da Bruaá?
B. Esse é um exercício bastante difícil. Sabemos que o que editamos se insere dentro do chamado âmbito infanto-juvenil, mas também sabemos que o adulto nunca sai de cena, nunca deixando a criança e o livro verdadeiramente a sós. A criança é sempre o último recipiente de um ciclo de criação, distribuição e escolha adulto. Adultos esses que, para além de carregarem um imaginário infantil e à medida que as propostas editoriais vão elevando as fasquia da qualidade e experimentação, acabam também eles por se tornarem no recipiente final. É de desconfiar quando alguém diz que escreve ou publica para idades entre x e y. Por isso, o nosso único alvo é a qualidade que procuramos num texto, numa ilustração e no design. O resto acontecerá algures entre os 8 os 80.
Literatura, arte e mercado
O mapa e o território, do controverso Michel Houellebecq, foi publicado pela Editora Objectiva (Alfaguara), no final de 2011, numa tradução de Pedro Tamen.
O prémio Goncourt que lhe foi atribuído foi só mais um episódio da tumultuosa receção de um autor que surpreende fiéis e detratores com um romance que se afasta da agressividade provocadora de Partículas elementares e de Plataforma, para oferecer uma obra em que melancolia, humor, ironia e derisão se combinam no retrato do meio artístico-literário da França do século XXI.
Jed Martin, um artista plástico, notabiliza-se pelas fotografias dos mapas Michelin, derivando posteriormente para a pintura figurativa de profissionais famosos, entre os quais o próprio Houllebecq a quem pede um texto para o catálogo da exposição de retratos. Neste processo de auto-ficção intensificam-se os traços comuns entre as duas personagens e Jed Martin surge como um alter-ego do autor, partilhando com ele autismo, misantropia, solidão.
Mas a migração das figuras reais não se circunscreve à representação do escritor: artistas, críticos, jornalistas do milieu (Jean-Pierre Pernaut, Pierre Bellemare, Patrick Le Lay, Michel Drucker, Frédéric Beigbeder, Julien Lepers, Alain Gilot-Pétré, Claire Chaza) dão corpo à visão sociológica da arte no tempo presente, à sua relação com o mercado dominado por chineses e russos, Abramovich incluído, e com o “segmento de população estúpida-rica cuja freguesia” se demanda. Neste plano cumpre ainda referir o exercício da ekfrasis em que se exercita tanto o narrador quanto Houllebecq-personagem, a propósito, por exemplo do quadro da série profissões em que contracenam Bill Gates e Steve Jobs, e a discussão sobre os limites da representação de seres humanos ou de “objectos de fabricação humana” na arte e na literatura.
Na sala de aula: Joaquim Manuel Magalhães (I)
O poema, encimado pelo número 41 (o livro, no total, tem 51 poemas), integra o volume Segredos, Sebes, Aluviões, que Joaquim Manuel Magalhães publicou na colecção Forma, da Editorial Presença, em 1985. Ou integrava, já que é um dos muitos poemas profundamente refundidos na versão, aparentemente final, da obra poética do autor editada na Relógio d’Água em 2010 com o título Um Toldo Vermelho, versão essa na qual o volume de 1985 perde o plural, intitulando-se agora Segredo, Sebe, Aluvião. Em todo o caso o poema publicado no livro de 1985 persiste, sendo a questão filológica, em rigor, improcedente para os fins que aqui se perseguem. Deixo para depois uma breve análise da versão de 2010 e passo à transcrição do poema:
Sentava-me num banco corrido,
o livro fechado nos joelhos.
A D. Lídia vinha com um xaile
e perguntava-me a tabuada.
A água das regas corria numa vala.Depois da reza dos números,
voltava-se para um outro aluno
e ensinava-lhe gramática.
Eu ouvia e o êxtase
cerrava-se numa tosca cantilena
daqueles sons mal decorados.Teriam sido os pronomes pessoais
ditos pelo rapazinho que esqueci
o meu primeiro poema?
«Páginas Tantas», sessão 2, com Duarte Belo
© Duarte Belo [máquina de escrever de Ruy Belo]
No próximo dia 6 de Fevereiro, segunda-feira, pelas 18.30h, terá lugar no Teatro Académico de Gil Vicente a segunda sessão do Páginas Tantas. O convidado será Duarte Belo, autor de uma vasta e importante obra na fotografia portuguesa contemporânea. Chamamos a atenção para a exposição de fotografias de Duarte Belo que o TAGV exibirá, durante algumas semanas.
Changuito: «Há editores maravilhosos, uns assim já para o assado, e outros militantemente merdosos»
Fica no nº 11 da Rua Cecílio de Sousa, em Lisboa, e está aberta de segunda a sábado, das 10h às 19.45h. Para quem quiser ir de metro, a estação mais próxima é a do Rato (linha amarela). Se preferir o autocarro, pode apanhar o 758, que passa no Príncipe Real, embora o 773 e o 790 também possam deixá-lo lá perto. Também se pode ir a pé, ou de trotinete, e chega-se mais depressa. Chama-se Poesia Incompleta e é a única livraria (apenas de) poesia do país, sendo pouco certo que tenha congéneres para lá de Badajoz. O seu sócio principal, patrão, empregado, moço de fretes e fumador com estilo ostenta o nome de guerra Changuito e além de ser uma pessoa com boas ideias é ainda um livreiro de boas práticas. Propusemos-lhe entrevista e não se fez rogado exprimindo-se, de preferência, em verso livre.
Agradecemos a Changuito a disponibilidade manifestada. Pela nossa parte, estaremos sempre disponíveis para publicitar quem assim exerce na área da «formação cívica».
PT. Como é que lhe surgiu esta ideia, a priori um tanto louca, de uma livraria exclusivamente dedicada à poesia? Inspirou-se nalgum caso que tenha conhecido no estrangeiro?
C. A ideia surgiu da necessidade, enquanto leitor, de encontrar livros que não encontrava noutros lugares. Loucura parecia-me não o fazer. A poesia, creio que só suplantada pelo teatro, é o que dizem ser menos vendável, mas, que diabo, há sempre gente que se vai interessando. E, felizmente, não falo só de pessoas dos meios literário-académicos. Ouço e leio, muitas vezes, que só no meio há leitores. Tenho encontrado casos vários que contrariam esta ideia. Leitores que estão a começar bibliotecas, gente que constantemente está a fazer dezoito anos e que tem margem de encantamento; outros, que estarão a meio da sua vida, e se acostumaram a ler poesia, a viver com ela nos intervalos da prosa; felizmente, outros ainda, com setenta, oitenta ou noventa anos que continuam procurando aquele livro que tiveram e já não têm, ou que procuram poetas novos.
Sabia da existência de algumas, mas não conhecia fisicamente nenhuma.
O cinema, segundo Eduardo Lourenço
Eu não sou da geração que nasceu com o cinema, mas quase. Nasci em 1923, num momento em que o cinema já tinha uma expressão muito importante (que era ainda o cinema mudo) e mesmo na aldeia quase incógnita onde eu nasci, vi pela primeira vez o cinema, teria talvez sete anos. É claro que as primeiras coisas que se veem deste género são uma espécie de revelação opaca. Eu não sabia bem o que estava a ver. Estava numa espécie de adega do senhor mais importante da minha terra. Tinham estendido um lençol no fundo da parede e de uma cabine manhosa, atrás do espectador, saía uma espécie de foco que projetava nesse lençol umas imagens que contavam, nada mais, nada menos, que a vida de Cristo. Mas a projeção devia ser de tal natureza – a não ser que fosse do próprio tecido do lençol – que eu só via riscos que atravessavam o personagem e atravessavam os diversos personagens da gesta evangélica. Então, eu tirei dali a conclusão de que durante toda a vida de Cristo tinha chovido sempre. Este foi o meu primeiro contacto com esse mundo, que mais tarde se tornaria o mundo mágico, realmente mágico, do cinema.
Eduardo Lourenço, «Imagens da América», in Asas sobre a América / Wings over America. Um Encontro Transatlântico entre Irmãos em Universo, Coorenação de Filipa Melo, Coimbra, Almedina, 2011, p. 19.
Sessão 1 de «Páginas Tantas» com Dulce Maria Cardoso (só mais estas)
Sessão 1 de «Páginas Tantas» com Dulce Maria Cardoso (9/01/2012)
Publicações do Centro de Literatura Portuguesa
Textos de Luís Mourão, Nuno Júdice, Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra (2011). ISBN 9789729126260 | 85 págs. À venda na rede Almedina.
A mais recente publicação do Centro de Literatura Portuguesa
Ler e dançar com Russell Edson no Gato Vadio (Porto)
Vasco Santos, da Fenda: «O actual panorama editorial é a miséria»
Tudo começou em Coimbra no final dos anos 70 com uma revista de nome estranho mas excitante: Fenda. Magazine Frenética. Chegaram depois os anos 80 e com eles João Bicker tomou conta do grafismo da editora e Júlio Henriques trouxe a referência situacionista que marcaria a Revista Pravda. No final da década Vasco Santos, o pai e gestor da criatura, mudou-se para Lisboa, ao contrário de João Bicker ou de Júlio Henriques, que optaram pela província. A Fenda acumulou então títulos e distinção, quer entre o público refractário, quer entre os apreciadores de clássicos bem encadernados. Tornou-se uma marca de água, e de felicidade, para os amantes dos livros que acrescentam ao mundo. Fomos por isso ouvir Vasco Santos e inteirar-nos do estado da Fenda. Agradecemos-lhe a disponibilidade manifestada para nos responder.
Com esta entrevista, Tantas Páginas inicia uma série de entrevistas a pessoas ligadas ao mundo do livro, num momento em que a própria expressão «mundo do livro» vai ganhando conotações algo nostálgicas.
PT. O que se passa com a Fenda? Está (en)cerrada?
V.S. Não passa nada. Fenda infinda. Estamos há trinta e três anos em crise. Estamos bem.
PT. Como definiria o público leitor da Fenda? E acha que ele cresceu ou encolheu ao longo destes anos todos?
V.S. O público da Fenda é o dos leitores trágicos, pouco eficientes, sonhadores. Ao longo destes anos encolheu, perdeu massa muscular e cabelo.
PT. Quando lançou a editora, em Coimbra, alguma vez pensou vir a ser um editor profissional, ou foi desde o início claro para si que a Fenda seria o seu «violon d’Ingres»?
V.S. Sim. Tive o sonho romântico de ser editor. E fui. E de súbito é noite.
A autora com a edição nas mãos
A foto aparece no blog da Tea for One com a seguinte legenda: «Inês Dias com o pleno da edição de ‘Em caso de tempestade este jardim será encerrado’ (foto de Marta Chaves)». Inês ri mas percebemos que o volume ainda pesa e não dá muito jeito a transportar; e o autor do post e editor, Miguel Martins, ri-se manifestamente com a legenda que escreveu para a foto que Marta Chaves tirou, enquanto (de certeza) esta dizia a Inês para se rir para o passarinho.
Eis, pois, a diferença empírica entre um livro de poesia e um romance: a edição do romance não caberia num pacote transportável pelo autor. Seria caso para perguntar, entretanto, o que justifica, na era do digital, esta insistência na edição do «livro de poesia». O romance, é sabido, está a acompanhar a grande migração do livro para o e-book, seguido de perto pelo ensaio. O livro infantil será a próxima vítima, seguramente, já que a interactividade activada pela ilustração e pela relação entre esta e o texto só ganhará com a passagem a uma plataforma que permita inflacionar a dimensão lúdica do objecto. O iPad é um instrumento decisivo nesta migração, já que tudo aquilo que se dizia serem os trunfos do formato «códice» – saltos para a frente e para trás na leitura, anotações, etc. – é permitido pelo tablet, que ainda introduz novas e impressionantes valências na área do «manuseio» da obra. E contudo, na remota aldeia da poesia um punhado de gauleses resiste até ao fim…
John Cage, Augusto de Campos e Paulo Franchetti sobre o Nada
Aqui.
Na sala de aula
Na sala de aula (1985) é o título de um pequeno livro de Antonio Candido, mestre e decano dos estudos literários brasileiros. De intenção assumidamente didáctica, o livrinho, despretensiosamente subintitulado «Caderno de análise literária», é um manual de análise de poemas sem um real equivalente em Portugal, o que só se pode lamentar.
«Na sala de aula» será o título de uma rubrica na qual se explorará, num corpus alargado de textos extraídos das literaturas de língua portuguesa, a representação da cena primitiva do encontro com o texto literário na sala de aula, esse local tão amado como mal amado, tão desmitificado como resistente à desmitificação. Estará em pauta uma certa arqueologia do ensino da literatura, sem contudo se aspirar à produção de uma narrativa de fundação ou legitimação. Os exemplos serão apresentados sem curar da sua cronologia (tanto mais que o corpus se encontra ainda em formação) ou do seu lugar numa das muitas histórias que a partir deles se poderiam contar. Confiar-se-á antes no poder iluminador da justaposição descontínua de episódios de uma história cuja longa duração será revisitada no seu momento moderno. Sem nostalgia mas também sem renunciar ao poder formativo do encontro com o texto literário, nesse local tão incompreendido mas onde, por um raro privilégio, o mundo se interrompe para que, por intermédio da voz de um outro (poeta, ficcionista, dramaturgo), a nossa voz se afine e afirme: a sala de aula.
Antiguidades de hoje (I)
Forasteiro em Lisboa
No Rossio o Prior de Santa Iria
Vendo um palácio, disse ao Canongia:
«Que será isto aqui?»
― Dona Maria…
Onde se representam as tragédias.
Vai correndo a cidade, e sempre atento
Pergunta noutro sítio:
«Isto é convento?»
― Não! isto é o teatro de São Bento,
Onde se representam as comédias.
João de Deus, Campo de Flores, 1893.
Também estamos…
…no Facebook: aqui.
Notas sobre Luís Quintais (I)
Não sei se esta é a melhor porta de entrada na poesia de Luís Quintais, mas em todo o caso é a que proponho. Refiro-me ao poema «Nuvens», do livro Duelo, de 2004, um dos dois livros que, no início da década anterior, colocaram Quintais na linha da frente da poesia portuguesa actual, sendo o outro Angst, de 2002. Transcrevo o poema:
Nuvens
A metafísica será talvez
uma indisposição que se quer passageira.Porém, eu continuo a inquietar-me
com as nuvens que são arrastadas,violentamente arrastadas, na direcção sudeste,
filtrando a luz do sol em obsessiva correria.
O poema concentra toda a arte de Quintais: o teor alusivo e elusivo; a composição irónica na passagem de um enunciado genérico e abstracto a um pormenor descritivo que não parece corroborar o enunciado mas se justapõe a ele e nos desafia ao estabelecimento dessa relação, ou melhor, ao sentido dessa relação; o estranho impacto emotivo de certas imagens; e ainda, e crescentemente nos últimos livros, embora em rigor desde o início, a sombra do poeta norte-americano Wallace Stevens. James Merrill dizia, de Stevens, que a sua poesia era uma «filosofia involuntária», uma especulação verbal sobre a realidade e sobre a natureza da relação da linguagem, e da linguagem do verso, com ela. Quintais é um poeta dessa família, embora a sua condição pós-metafísica se denuncie naquela qualificação segundo a qual «A metafísica será talvez / uma indisposição que se quer passageira». A crítica, estranhamente, tende a ler estes versos como sintoma de gravitas, descurando a ironia, mais drummondiana que pessoana, desta «indisposição passageira», que é também um envio para os neo-positivistas vienenses, e ainda para o primeiro Wittgenstein, segundo os quais a metafísica era não tanto uma indisposição mas consequência de uma «má colocação» ou, se se preferir, de uma «má posição» durante, digamos, o almoço… O importante não é tanto o «talvez» que introduz a indisposição, mas sim o «Porém» que, no início do terceiro verso, contesta o prestígio pós-metafísico da dúvida introduzida pelo «talvez»: «Porém, eu continuo a inquietar-me», que é como quem diz, nem a destruição nem a desconstrução da metafísica nos dispensam da inquietação propriamente metafísica, pela razão simples de que não podemos «continuar», ainda que no sentido da insistência de um Beckett, para quem só nos restava justamente «continuar», mesmo que sem a caução de um sentido, transcendental ou não, ou seja, não podemos viver sem a inquietação da metafísica.
Os nossos convidados até Julho
O TAGV criou na sua programação um espaço intitulado «Fórum. Debate e Espaço Público», que integra de momento o Páginas Tantas e uma outra iniciativa, de responsabilidade do centro de Documentação 25 de Abril, da Universidade de Coimbra, intitulada «O segundo século XX». Pode ver neste flyer a programação de ambas as iniciativas até Julho.
Littell, Estaline e Mandelstam
Um apontamento de leitura de Rui Bebiano sobre O Epigrama de Estaline, de Robert Littell (Ed. Civilização), um dos livros dos quais se irá falar na sessão desta segunda-feira. Por aqui.
Livros a apresentar na primeira sessão do «Páginas Tantas»
Ficção:
• Fernando Campos, A rocha branca. Carnaxide, Editora Objectiva (Alfaguara), 2011. ISBN 978-989-672-111-4
• Michel Houellebecq, O mapa e o território, Tradução de Pedro Tamen, Carnaxide, Editora Objectiva (Alfaguara), 2911. ISBN 978-989-672-103-9
• Robert Littell, O Epigrama de Estaline, Porto, Civilização, 2011. ISBN 978-972-26-3321-5
Poesia:
• Manuel António Pina, Como se desenha uma casa, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011. ISBN978-972-37-1616-0
Ensaio:
• Frei Fernando Ventura e Joaquim Franco, Do eu solitário ao nós solidário, Lisboa, Verso de Kapa, 2011. ISBN 978-989-8406-20-0
• Jorge Seabra, África Nossa. O Império Colonial na Ficção Cinematográfica Portuguesa 1945-1974, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2011. ISBN 978-989-26-0104-5
Biografia:
• Ricardo Alexandre, João Aguardela. Esta Vida de Marinheiro, Vila do Conde, Quidnovi, 2011. ISBN 978-989-554-870-5
Design:
• Victor Palla, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Coleção design de comunicação / communication design, 2011. ISBN 978-972-27-1970-4
Literatura infantil / ilustração:
• Danil Harms, Esqueci-me como se chama, Ilustrações de Gonçalo Viana, Figueira da Foz, Bruaá, 2011. ISBN 978-989-8166-13-5
• Kazumi Yumoto e Komako Sakai, O Urso e o Gato Selvagem, Figueira da Foz, Bruaá, 2011. ISBN 978-989-8166-08-1
Um outro excerto de «O Retorno» de Dulce Maria Cardoso
É hoje. Hoje é o dia da independência de Angola. Angola acabou, a nossa Angola acabou. Não sei para que estou a olhar para a televisão, não sei por que estou aqui.
Os homens têm os fumos por cima dos casacos, uma ideia do Pacaça que diz, estou de luto, hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado, vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa para sempre e que também nunca faltará aos nossos filhos a terra onde os fizemos nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode morrer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra, hoje morreram os meus mortos e os meus filhos perderam a terra onde os fiz nascer, os meus desterrados como eu. O Pacaça cala-se e começa a falar o Sr. Belchior, estou de luto pela terra onde fui gente, antes de ir para lá era uma barriga inchada de fome e uma cabeça cheia de piolhos.
Dulce Maria Cardoso, O Retorno, Lisboa, Tinta-da-China, 2011, p. 154.
Um excerto de «O Retorno» de Dulce Maria Cardoso
Sundu ia maié, sundu ia maié, puta que a pariu. Vou dar pontapés em todas as portas até chegar ao pátio do recreio, a puta da professora mandou-me para a rua com uma falta a vermelho mas eu vingo-me, quero lá saber que as contínuas refilem, ó menino isto aqui não é a selva, não é como lá donde vens, aqui há regras, sundu ia maié, estamos a avisar-te menino, abro o peito e dou um pontapé noutra porta, conhecem-me de algum lado, olho as velhas bem de frente para lhes mostrar que não tenho medo, abro as narinas como o Pacaça diz que todos os animais fazem antes de atacar, as velhas recuam com as batas cinzentas e as varizes enfiadas nas meias elásticas, lá podias andar montado nos leões mas aqui tens de ter modos, as velhas refilam mas nem tentam impedir-me, têm medo de mim, passo pela cantina e dou um murro no carro dos tabuleiros, só me falta bater com a mão no peito para verem que acompanhava mais com os macacos do que com os leões, as velhas até saltam com o estrondo que o carro dos tabuleiros fez, se querem dizer mal dos retornados vou dar-lhes razões.
A puta da professora, um dos retornados que responda, como se não tivéssemos nome, como se já não nos bastasse ter-nos arrumado numa fila só para retornados. A puta a justificar-se, os retornados estão mais atrasados, sim, sim, devemos estar, devemos ter ficado estúpidos como os pretos, e os de cá devem ter aprendido muito depois da merda da revolução, se for como em tudo o resto devem ter tido umas lindas aulas.
Dulce Maria Cardoso, O Retorno, Lisboa, Tinta-da-China, 2011, pp. 139-140.
Um outro excerto de «O chão dos pardais» de Dulce Maria Cardoso
― Cuidado – disse a Clara apontando para a faca -, faz mal.
Apesar do sorriso, a voz de Elisaveta foi tão fria quanto a lâmina da faca onde Clara passava o indicador direito. Talvez tenha sido por isso que Clara passou o dedo com mais força. Sentia Elisaveta cada vez mais distante. E tinha sido culpa dela. Clara sabia que ajudar era o mesmo que querer negociar, trocar, permutar. E isso era verdade em qualquer língua porque era verdade no entendimento de qualquer humano. Quero ajudar-te queria dizer estou disposto a dar-te uma coisa de que posso prescindir e a receber em troca uma coisa que me faz falta. Chamava-se ajuda porque uma das partes estava impedida de negociar. Precisar de ajuda queria dizer, em qualquer língua, não poder recusar o que é oferecido e ter de dar o que é pedido.
Dulce Maria Cardoso, O Chão dos Pardais, Porto, Asa, 2009, p. 101.
Um excerto de «O chão dos pardais» de Dulce Maria Cardoso
Transcrevemos, neste e noutros posts próximos, alguns dos excertos da obra de Dulce Maria Cardoso que foram seleccionados para exposição no TAGV:
Estava no quarto do filho, sentada na cama, agarrada à urna que tinha cinzas do filho. O filho tinha voltado ao tamanho em que ela o podia segurar inteiro, em que lhe cabia no colo. Se quisesse podia embalá-lo. Ainda era mãe. Não havia nome para o que se tinha tornado. Nunca haveria. Se houvesse isso quereria dizer que era possível que os filhos morressem, o que não podia acontecer. Nunca. Como os filhos não podem morrer, não pode haver nome para quem perde um filho. Os filhos têm de sobreviver às mães e aos pais que os embalaram como agora a mãe embala a pequena urna. Está muito cansada, mas continua. Não sabe onde pousar a pequena urna que guarda as cinzas do filho. Como a pousar. Como sequer olhar para a pequena urna. A pequena urna cor de vinho é pesada de mais para o tamanho que tem. A tampa também é dourada de mais. Não para o tamanho. Em absoluto. Mas é verdade que a urna tem um aspecto digno. O dono da agência funerária tinha razão.
Dulce Maria Cardoso, O Chão dos Pardais, Porto, Asa, 2009, p. 168.
















































