Notas sobre Luís Quintais (II)

É difícil resistir a citar aqui alguns versos de um poema de Angst, «Uma inocência», em que, a partir de uma imagem central de aves devorando lixo em sacos de plástico negro, Quintais resume tudo isto em modo cáustico:

O que faz a poesia?
Remir por certo tipo de palavras

certo tipo de coisas certo tipo
de asas flap flap flap certo tipo
de razões desesperadas.

A poesia faz «certo tipo de» coisas: note-se a linguagem antifundacional, que se abstém de dar nomes a «coisas» e «razões», recuando ante a vastidão de tais «coisas» e «razões» e, ao mesmo tempo, não contribuindo com mais uma acha para a fogueira desmesurada de versões mais ou menos legiferadoras da Poesia no concerto das linguagens e modos de fazer mundos.

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Paulo Varela Gomes sobre a arquitectura pós-moderna

Jorge Figueira ― Depois houve as Amoreiras e o Tomás Taveira. Há dois artigos sobre as Amoreiras em 1987 e, em 1989, já passado algum tempo, sobre o BNU. «O efeito Amoreiras» é escrito só por ti, e o que te pergunto é: tinhas alguma expectativa que aquela via fosse possível?

Paulo Varela Gomes ― Não, nisso enganei-me redondamente. Isto é, quando sinto culpa – e de vez em quando sinto culpa de coisas que escrevi -, essa é certamente a culpa maior que sinto. Porque sei que tive alguma influência, embora não muita, e que essa influência foi perniciosa. Embora ela se tivesse exercido mesmo que eu não existisse.

Naturalmente, teria havido outra pessoa qualquer a fazer o mesmo. Mas a cópia de pequenas Amoreiras, ou de pequenas coisinhas das Amoreiras por todo o país, é dos aspectos mais trágicos que aconteceram na paisagem construída. Não é portuguesa, é mundial, como toda a gente sabe, e às vezes em escala absolutamente catastrófica, como é o caso da Índia ou de certos países do Terceiro Mundo.

É uma absoluta catástrofe o que aconteceu à arquitectura a partir dos anos oitenta. São quilómetros e quilómetros quadrados de edifícios horríveis… E vai passar à história da arquitectura mundial como um dos piores períodos. Mesmo que se ache mal a arquitectura do século XIX, aquilo era arquitectura, no sentido em que não vinha só de fora para dentro, vinha de dentro para fora… Isto não; são horríveis edifícios de habitação ou de escritórios, sem qualquer interesse, quase todos, muito mal feitos, com umas placas de decoração em cima. E no entanto tenho alguma culpa directa na divulgação disso em Portugal, porque disse bem, nomeadamente, nessa história do ‘efeito Amoreiras’. Em nome de quê? Em nome da popularidade da arquitectura, acho eu. Em nome do facto de que se democratizava o que era da classe alta, e que a paisagem ficaria mais divertida, mais animada. Que a arquitectura deixava de ser uma coisa de elite.

Jorge Figueira, Reescrever o Pós-Moderno, Porto, Dafne Editora, 2011, p. 170.

«A arte de profanar: A poesia submersa de Roberto Piva», por Renan Alves de Souza

Publicado originalmente em 1963, com o trabalho fotográfico de Wesley Duke Lee, Paranóia, de Roberto Piva (1937 – 2010), na altura de sua publicação, foi recebido com resistência, frieza e indiferença pela crítica. Apenas na antologia 26 poetas de Hoje, de Heloísa Buarque de Holanda, o poeta teve alguma repercussão, ao apresentar a poesia marginal como novidade. Piva reagiu violentamente contra o que seria o objecto da poesia concreta, a modernização brasileira, mantendo-se em “seu mundo delirante” e assumindo a sina de poeta maldito, individualista e com espírito anárquico. O escatológico, o pornográfico, o grotesco, o sublime, e o maravilhoso são temas recorrentes que permeiam a sua poesia, e que reforçam a comparação com Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, ao evocar o mal e a “destruição de tudo que é frágil”. O próprio poeta assume a impiedade em versos como “eu não sou piedoso, eu nunca poderei ser piedoso” e a todo tempo manifesta sua agressividade contra tudo e contra todos sob a luz de uma figura errante e solitária e ao mesmo tempo o mais frágil e desamparado dos seres: “no exílio onde padeço angústia os muros invadem minha memória”.

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Jean Giraud / Moebius (1938-2012)

Paisagens neuronais, o étnico sobreposto ao trash (metal), rochedos megalíticos em levitação, o arcaísmo do fóssil em versão protésica e maquínica, o delírio morfo(zoo)lógico, a miúda nitidez das trips. E, antes, Blueberry, a dura lição do filho pródigo, o primo americano que gostaríamos de ter, o sangue, a sujidade e a infâmia dos combates pela história. A heteronímia explicada às massas?

Sessão 3 de «Páginas Tantas»: João Botelho

Como vimos anunciando neste blog, terá hoje lugar pelas 18h 30m, no Teatro Académico de Gil Vicente, a terceira sessão do Páginas Tantas, iniciativa conjunta do TAGV e do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra. Será nosso convidado o cineasta João Botelho. O painel será constituído por Osvaldo Manuel Silvestre e Ricardo Namora.

João Botelho (1949, Lamego). Estudou Engenharia Mecânica na Universidade de Coimbra e, em seguida, na Universidade do Porto. Foi dirigente do CITAC e integrou a direcção de Cineclubes em Coimbra e no Porto. A partir de 1970 foi ilustrador de livros infantis e designer gráfico (A Regra do Jogo, Afrontamento, Centelha). Fez crítica de cinema na Gazeta da Semana e na revista M, de que foi fundador. Estudou na Escola de Cinema do Conservatório Nacional. Inicia-se na realização com duas curta-metragens para a RTP, em 1976, e o documentário (longa-metragem) «Os Bonecos de Santo Aleixo», em 1977, para a cooperativa Paz dos Reis. Conversa Acabada, de 1980, é a sua primeira longa-metragem de ficção, a que se seguiria, em 1985, Um Adeus Português e, em 1987, Tempos Difíceis, a partir de Dickens. Autor de obra vasta e consagrada, as suas últimas longas-metragens foram A Corte do Norte (2008) e Filme do Desassossego (2010).

Recordamos que após a sessão, pelas 21h 30m, será exibido no TAGV, em cópia de 35 mm, o filme Tempos Difíceis. No final da projecção haverá um debate com João Botelho e Sérgio Dias Branco, coordenador da área de cinema da licenciatura em Estudos Artísticos da FLUC.

Poderá também ser visitada no TAGV uma exposição do trabalho de João Botelho como artista gráfico. Livros com capas suas e, nalguns casos, com capa e paginação ou capa e ilustração suas, das várias editoras para as quais trabalhou, poderão ser vistos no foyer do teatro até 2 de Abril próximo.

Livros a apresentar na sessão 3 de «Páginas Tantas»

Poesia

• Roberto Piva, Paranóia, Prefácio de Davi Arrigucci Jr, São Paulo, Editora IMS, 2009. ISBN: 9788586707407

• Joana Matos Frias, Luís Miguel Queirós, Rosa Maria Martelo (orgs.), Poemas com Cinema, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010. ISBN: 978-972-37-1507-1.

• Rui Caeiro, Chama-lhe o que quiseres, Lisboa, Oficina do Cego, 2010.

• Manuel de Freitas, Isilda ou a mudez dos códigos de barras, Lisboa, Oficina do Cego, 2010.

Biografia

• Teixeira de Pascoaes, O Penitente (Camilo Castelo Branco), Lisboa, Assírio & Alvim, 2002 [1942]. ISBN: 972-37-0675-X.

Ensaio

• Leonor Areal, Cinema Português. Um País Imaginado, Coimbra, Edições 70, 20112 vols.

Prosa

• Pedro Monteiro e Rodrigo Monteiro; Tiago Albuquerque (ilustrações), Novíssimo Livro de Leitura – 1ª à 4ª Classes e Classe Operária, Coimbra, Lápis de Memórias, 2011. ISBN: 978-989-97200-3-9.

Tomás Martins, director da Ateliê Editorial: «A onda do livro digital irá impactar o mercado do livro, mas a forma com que se dará esse impacto é difícil saber»

Com pouco mais de década e meia de vida, a Ateliê Editorial, com sede em S. Paulo, conseguiu uma sólida reputação de editora de catálogo exigente e de factura (e manufactura) cuidada e, não raro, memorável. Muitos são os livros da Ateliê que se tornam «clássicos» instantâneos mal saem das tipografias, tal a sua singularidade de objectos cartonados, a que se acrescenta a grande exigência na selecção de textos e tradutores ou nos trabalhos de composição e revisão de texto. Por todas essas obras, refira-se a emblemática edição do Finnegans Wake, de James Joyce, em cinco volumes traduzidos por Donaldo Schüler sob o título Finnicius Revém, edição ampla e justamente premiada no Brasil e pedra de toque do catálogo da editora fundada por Plinio Martins Filho. Editora centrada nas áreas da literatura, da comunicação, das artes, da arquitectura e das artes do livro, a Ateliê Editorial é uma das editoras mais premiadas do Brasil, o que, se atendermos à sua dimensão – uma dimensão média no mundo editorial brasileiro -, é algo bem revelador da qualidade do seu trabalho e do grau de reconhecimento interpares que sempre suscitou.

Por se tratar de uma editora cujo trabalho comporta toda uma pedagogia implícita do livro e do seu papel numa sociedade esclarecida, achámos que, na sequência das entrevistas que vimos fazendo a vários agentes do mundo do livro, urgia ouvir o responsável actual pela editora, Tomás Martins. Agradecemos a sua colaboração e a disponibilidade prontamente revelada.

TP. Pode descrever-nos o seu percurso profissional? Sempre sonhou ser editor?

TM. Meu percurso profissional foi bastante natural, na verdade. Sendo filho de Plinio Martins, desde novo comecei a me envolver com os trabalhos da editora: aprender a diagramar um livro, fazer capas emendar, revisar textos… Dessa forma, pode-se dizer que cresci dentro do mundo editorial e quando chegou o momento de começar a trabalhar já estava “encaminhado”. Mesmo tendo me formado em arquitetura, sempre trabalhei com design gráfico ou edição de livros.

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«Fury», by João Botelho


Tem já algum tempo mas vale sempre a pena ver: a fúria justiceira de João Botelho contra o bota-abaixo sistemático em relação ao cinema português (continua aqui). Quase sempre vindo de gente que ou não conhece os filmes que cá se fazem, ou acha que há apenas uma forma de os fazer: a que os Multiplexes impõem, entre as pipocas e a Coca-Cola, com o resultado desastroso que se sabe para o próprio cinema americano.

Recordamos que na próxima segunda-feira, pelas 18.30 h, João Botelho será o convidado da sessão 3 do «Páginas Tantas».

Michel Giacometti e os GNR, segundo João Aguardela

Paula Guerra ― Se eu lhe pedir dois nomes de músicos de referência, que marcam o panorama musical, quais é que me diz?

João Aguardela ― Dois? Se calhar vou dar-te o nome de um não-músico, que é o Michel Giacometti. Realmente, tudo o que foi acontecendo no meu percurso foi acontecendo de uma forma mais ou menos natural, as coisas foram levando umas às outras. Exceto talvez isto, que foi quando eu tive contacto pela primeira vez com as recolhas que o Michel Giacometti tinha feito. O conhecimento que eu tinha da música portuguesa era intuído. Era em segunda mão, era pelos ranchos folclóricos, pelo fado, pelos grupos de música popular portuguesa. Portanto, sempre em segunda mão. E por outro lado, pela intuição que eu tinha do que era a música portuguesa. E quando eu tropecei, literalmente… estou a falar dum disco do Michel Giacometti com recolhas do Alentejo, que estava à venda na Feira da Ladra. Eu tropecei no disco, achei a capa engraçada e comprei o disco por causa da capa, mais nada. Quando ouvi o disco tive o flash da minha vida. Finalmente tive acesso directo às fontes, àquelas pessoas que cantam porque sim, ou tocam porque sim, porque aquilo faz parte da vida delas. E que, por outro lado, são depositárias de uma tradição ininterrupta que já vinha de há muitos anos atrás. Tenho de citar o Giacometti, porque foi ele que recolheu essa música e foi ele que me proporcionou o contacto com essa música. Aí sim, em termos criativos, teve muita importância naquilo que eu acabei por fazer a seguir. Outra, mais para trás: tenho de dizer os GNR. Porque os GNR, com os seus dois álbuns essenciais, que são o Defeitos Especiais e Os Homens Não Se Querem Bonitos, que é onde está aquele tal equilíbrio entre a identidade deles e aquilo que eles ouviam e de que gostavam e o que se passava lá fora. São dois discos tão bem equilibrados que eu acho que são absolutamente paradigmáticos do que poderia ser, ainda hoje, uma Pop portuguesa. Não quer dizer que copiássemos todos os GNR até à exaustão, mas está ali uma pista muito importante, pelo menos para mim foi importantíssima, de como se pode conceber uma Pop, e chamar-lhe portuguesa com propriedade. Os GNR e o Michel Giacometti.

Ricardo Alexandre, João Aguardela. Esta Vida de Marinheiro, Vila do Conde, Quidnovi, 2011, pp. 175-176.

O que anda a ler?

Pedro Leone, artesão urbano, 29 anos, Montemor-o-Velho.

Preferências: teatro e performance, Body Art, broa, azeitonas e vinho tinto.

Leituras:

1) Hans-Thies Lehmann, Teatro pós-dramático, São Paulo, Cosac Naify, 2007.

2) Fernando Matos Oliveira, Teatralidades. 12 Percursos pelo Território do Espectáculo, Coimbra, Angelus Novus, 2003.

3) Jorge Silva Melo, Século Passado, Lisboa, Livros Cotovia, 2007.

João Botelho: programa das festas

Como informámos já, em virtude de compromissos de rodagem a sessão do «Páginas Tantas» com João Botelho teve de ser adiada para o próximo dia 12 de Março, segunda-feira, pelas 18.30 h, no Teatro Académico de Gil Vicente. Contudo, já na próxima quinta-feira, dia 8 de Março, inaugurará no TAGV a exposição dedicada à obra de designer gráfico e ilustrador do nosso convidado.

No domínio do cinema, informamos que no dia 12, pelas 21.30 h, após a conversa com João Botelho, exibir-se-á no TAGV, em cópia de 35 mm, o filme Tempos Difíceis (1987), filme com o qual se assinalará também o «ano Dickens». O filme será comentado, no final, pelo realizador e por Sérgio Dias Branco.

Entretanto, nesta próxima quarta-feira, na Casa das Caldeiras, será exibido o filme O Fatalista (2005), pelas 18.30 h. Seguir-se-á um debate, no qual intervirão Marta Anacleto e Osvaldo Manuel Silvestre.

Na quarta-feira seguinte, dia 14 de Março, haverá sessão dupla na Casa das Caldeiras, com Quem és tu? (2001), pelas 18.30 h, e A Corte do Norte (2008), pelas 21.30 h.

«Poesia Dita», em 1966, e «espectacularizada» em 1969

O documento (que poderá ver melhor clicando na imagem) consta do recente livro de Duarte Belo, O Núcleo da Claridade. Entre as palavras de Ruy Belo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, p. 135. Reproduzo-o aqui a título de contribuição para o estudo desse continente submerso da história da poesia na modernidade: o da sua leitura pública. Em voz alta, claro. Pois como dizia Changuito, na entrevista que há pouco deu a este blog,

há muita gente que ilumina o que lê, que me parece ser a principal função de quem o faz publicamente. Alguns casos: Richard Burton lendo Gerard Manley Hopkins e John Donne; Chico Anysio lendo Ascenso Ferreira. Autores como Mário Cesariny, Dylan Thomas, Jorge Luis Borges, Gertrude Stein, León Felipe, Allen Ginsberg, Antonio Cicero, Sylvia Plath, Herberto Helder, entre outros, lendo-se trazem claridade ao meu entendimento. Muito frequentemente ouço e volto a ouvir Galáxias, de Haroldo de Campos, o livro milagre do qual ele gravou, creio, 16 faixas/poemas. Mas, creio, a memória mais antiga de ouvir alguém que não me era próximo a dizer-se terá sido, aos dezoito ou dezanove anos, João Cabral de Melo Neto. A poesia dele pareceu-me imediatamente mais compreensível.

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Série Negra, versão João B.

Era assim, a Série Negra d’A Regra do Jogo, em 1979 e 1980: centrada nos clássicos do mundo do crime… As capas, resolutamente cinéfilas, são de João Botelho, aliás João B., e não andam longe dos efeitos gráficos de «Conversa Acabada», o primeiro filme do cineasta, com data de 1981. Estes e muitos outros livros «desenhados» por João Botelho estarão expostos no TAGV a partir do próximo dia 8 de Março.

Recordamos que, conforme informámos anteriormente, a sessão do Páginas Tantas com João Botelho, que estava inicialmente marcada para hoje, foi adiada para a próxima segunda-feira, dia 12, por inadiáveis compromissos de rodagem do cineasta.

América ameaçada

Último volume da tetralogia iniciada com Todo o Mundo Indignação e Humilhação, Némesis prolonga os romances anteriores, sublinhando os sentidos de fortuna, injustiça e consequente raiva, que agora pontificam numa história de afinidades várias com Pastoral americana.

Em 1944, em plena Guerra mundial, o judeu Bucky Cantor, diretor do recinto de jogos do seu bairro em Newark, assiste ao maior e mais devastador surto de pólio com consequências mortais entre os seus jovens. A impossibilidade de compreender as causas da epidemia provocam na comunidade uma onda de medo, histeria e de acusações que agudizam o anti-semitismo. Continuar a ler

Cantar em inglês ou cantar em português, segundo João Aguardela

Paula Guerra ― Os projectos novos que surgem não têm essa especificidade, essa identidade. Falta essa referência.

João Aguardela ― Pois, não têm, e nem sequer os posso culpar por isso, porque nem sequer têm referências para a ter. Por exemplo, se eu tivesse agora vinte anos e fosse um consumidor cultural normal, de ir aos bares do costume, os bares que estão abertos em Lisboa, ver um filme, ir ao cinema ver os filmes que estão em cartaz, ver a televisão que temos e ouvir a rádio que temos, obviamente que tinha pouquíssimas referências do que é que podia ser a música portuguesa. Eu penso que é isso que se passa. Por um lado, ninguém tem vontade de viver outras experiências. E por outro lado, o que se passa é que as pessoas não têm pura e simplesmente referências para fazer outra coisa. E, nesse sentido, acho que é o típico fenómeno de aculturação. Tens uma cultura dominante, que é a cultura anglo-americana, e que nos esmagou, ao longo destes últimos anos que têm vindo a decorrer. Por exemplo, existe uma discussão muito interessante à volta de cantar em inglês ou cantar em português. Acho que é uma discussão interessante. Começo já por dizer que para mim é igual, é indiferente. Nem sequer acho que o problema esteja aí. Mas é um exemplo engraçado. Um dos argumentos utilizados para os músicos portugueses cantarem em inglês é a liberdade de expressão. Tens gente, que escreve nos jornais há muitos anos, que defende essa posição. A música portuguesa tem de ser como a música lá de fora, e quando os músicos portugueses decidem cantar em inglês, é uma questão de liberdade de expressão, é uma expressão de liberdade artística. Mas isso é falso. Seria uma questão artística se esses mesmos músicos tivessem liberdade de escolha. O problema é que já não têm. Portanto, aí, o argumento cai por terra. Se eu conhecesse as raízes da música portuguesa, e depois decidisse ir fazer trash metal cantado em inglês, sim senhor, foi uma escolha minha. Agora, se eu toda a minha vida só conheci aquela realidade, que neste exemplo é o trash metal, não tenho grandes hipóteses de exercer uma escolha realmente livre. E é isso que eu penso que se passa hoje em dia.

Ricardo Alexandre, João Aguardela. Esta Vida de Marinheiro, Vila do Conde, Quidnovi, 2011, pp. 171-172.

Um acontecimento: Clarice Lispector por Carlos Mendes de Sousa, em edição do Instituto Moreira Salles

A primeira edição da obra – Clarice Lispector: Figuras da Escrita -, pelo CEHUM, data de 2000. Agora, mais de uma década volvida, uma década na qual a obra foi crescendo em relevância, tornando-se uma peça central do corpus crítico sobre Clarice, o grande livro de Carlos Mendes de Sousa (vencedor do Grande Prémio de Ensaio da APE) acaba de ser editado no Brasil, sob a prestigiosa chancela do Instituto Moreira Salles. O lançamento será no próximo dia 8, na sede do IMS no Rio de Janeiro, com a presença do autor, que antes do lançamento dará uma aula, nesse mesmo dia, no curso Clarice Lispector: uma aprendizagem, sobre «Ler e reler Clarice». Reproduzimos acima página da Folha de S. Paulo sobre a obra, edição de 25 de Fevereiro último. O assunto foi capa do caderno cultural do jornal.

Caso para dizer: a justiça por vezes tarda, mas chega. Alegremo-nos, pois.

O estudo, segundo Marguerite Yourcenar

E os seus estudantes, o que é que lhe ensinaram?

― Que muito poucos estão preparados para o estudo, que a maioria dos seres se deixa ficar quieta num certo statu quo, e quão curto é o despertar. Às vezes podemos chegar ao momento desse despertar e provocar qualquer coisa, fazer durar o fenómeno, mas ele, por si próprio, a maior parte das vezes não dura. A maioria dos seres inteligentes e brilhantes aos dezoito ou aos vinte anos iludem-nos sobre o que virão a ser um dia. A sua capacidade de entusiasmo foi curta, ou a vida venceu-os brutalmente.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos. Conversas com Matthieu Galey, Lisboa, Relógio d’Água, 2011, pp. 110-111.

Estilhaços da memória

A abertura do romance contém todo um programa narrativo:

Nada. A não ser, de tempos a tempos, um arrepio das árvores e cada folha uma boca, numa linguagem sem relação com as outras. Ao princípio faziam cerimónia, hesitavam, pediam desculpa. E, a seguir, palavras que se destinavam a ela e de que ela se negava a entender o sentido.

– Há quantos anos me atormentam vocês? Não tenho satisfações a dar-vos! Larguem-me! – isto em criança, em África, e depois em Lisboa. (11)

São estas as palavras que ouvimos ao longo do romance, torrenciais, sofridas, desconexas. Assim são as vozes que perseguem Cristina, internada numa Clínica psiquiátrica em Portugal.

Regressara de Angola em criança, mas as árvores que se agitam no interior de si (87, 110, passim) e “as bocas das folhas que não se calarão nunca” (99) juntam-se ao coro de vozes que nem sempre entende e identifica. Vozes que a perturbam e lhe ditam a história que escreve, e que nós lemos. São histórias que conta, no dizer da mãe, convencida de que ela era os outros ou a imitá-los somente (161).

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Capas desenhadas por João Botelho em exposição no TAGV

Um das capas de João Botelho, aliás João B., para as edições A Regra do Jogo, corria o ano de 1976. Este livro e muitos outros, d’A Regra do Jogo, da Afrontamento, da Centelha, dos Livros Cotovia ou da Cinemateca Portuguesa, serão objecto da exposição que, no TAGV, acompanhará a sessão do «Páginas Tantas» com João Botelho, no próximo dia 12 de Março.

Surpresas infantis

O álbum ilustrado Como é que uma galinha…, com texto de Isabel Minhós Martins e ilustrações da brasileira Yara Kono, é mais uma publicação do Planeta Tangerina (2011).

Mantendo a imagem de marca da editora e da coleção, insiste numa paleta cromática reduzida e de cores planas e pouco vibrantes. Na capa, a disposição sempre diferente de título, autores e editora e, no verso, a singularidade do código de barras, desta feita, enquadrado num vaso de flores.

Construída em torno da pergunta “como é que uma galinha”, a história traça o itinerário de uma descoberta partilhada entre as personagens retratadas e os pequenos leitores de idade pré-escolar. Ao mesmo tempo, tanto no corpo do texto, como nas guardas, abre-se espaço a outras histórias com galinhas.

Numa abordagem realista explora-se a surpresa admirada entre a insignificância da galinha, disforicamente tratada, e a dádiva assombrosa do ovo. Um tratamento que é compensado pela fantasia animada da fauna e articulado com um quotidiano alimentar de ordem aleatória.

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Os Bonecos de Santo Aleixo ou «nós, o Povo» e o Estado

Sábado, 18 de Fevereiro, ao fim da tarde, Teatro da Cerca de S. Bernardo, espectáculo dos Bonecos de Santo Aleixo. Casa cheia, crianças em bom número, em rigor público dos 7 aos 77. O sucesso de sempre, justificadamente. O grande teatro do mundo em formato de bolso, o cristianismo espontâneo de milénios agora em divertimento para miúdos sem catequese, a quarta parede visível em forma de gradeamento que afinal é cordame (e a sabotagem da quarta parede na interpelação a elementos do público), a ilusão cénica com um sorriso mais ou menos rasgado, o cromatismo de que a cultura erudita desconfia, o pé que descamba facilmente na ordinarice «pimba» e que afinal – mais-valia pedagógica da tradição – vem de longe, o robusto primitivismo dos arquétipos e a celebração da pura dépense, enfim, o localismo idiomático, signo maior de um trabalho sobre o património como «reserva natural» do pobre. E ainda, suplemento obrigatório, o deslumbramento com que, findo o espectáculo, somos conduzidos aos bastidores, ou melhor, às traseiras esventradas da cena e da sua impressionante instrumentação low tech. A sensação, tão incorrecta quanto justa, de que se pode produzir um grande espectáculo a partir de «uma coisa de nada».

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Paulo Franchetti: o Brasil, Portugal e o Acordo Ortográfico

Paulo Franchetti deu-nos há dias uma longa entrevista, na sua condição de director da Editora da Unicamp, na qual se pronunciava, entre muitas outras coisas, sobre o acordo ortográfico. As suas palavras tiveram grande eco nas duas margens do Atlântico. Franchetti acaba de prestar um depoimento a uma página contra o acordo ortográfico no Facebook. O depoimento clarifica a sua posição nalguns pontos, razão pela qual o reproduzimos aqui, a título de Post Scriptum à entrevista de há dias.

Tenho visto na imprensa portuguesa que muita gente em Portugal ataca o Acordo Ortográfico por acreditar que seja uma manobra imperialista do Brasil para penetrar no mercado português do livro. Quanta ingenuidade! O AO é de fato imperialista, mas por outro motivo. Não é o mercado português do livro que importa ao Brasil. Ele é muito pequeno e saturado e tem pouca ou nenhuma perspectiva de crescimento. Já o do Brasil é imenso, crescente e ainda não atendido. A prova é que não são as editoras brasileiras que se estão estabelecendo em Portugal; são as portuguesas que vêm sofregamente instalar-se aqui. O verdadeiro objetivo do AO parece sempre ter sido um só: o mercado interno brasileiro de livros didáticos e paradidáticos. Portugal entrou no AO como mero argumento: a história da unificação da língua escrita (que o AO na verdade não promove) como passo para a inclusão do português como língua oficial da ONU, as proclamações pouco substanciais que resultaram das tantas reuniões jantantes da lusofonia – tudo isso era cortina de fumaça. O que importava mesmo, desde o princípio, era fazer uma reforma ortográfica no Brasil, para uso e abuso interno. Tanto que o AO foi aprovado e implementado a poder de lei no Brasil, unilateralmente. Desde a implementação, o governo brasileiro não compra um só exemplar de livro que não esteja de acordo com a nova ortografia: esse é o x da questão. O resto é discurso para inglês ver. Tanto que, neste momento, não vejo ninguém preocupado, aqui, com a adesão ou renúncia de Lisboa ao AO. O objetivo já foi atingido – a um custo social enorme para a sociedade brasileira, nunca é demais repetir. Os países africanos dão mostra de terem percebido o engodo. Eles, que poderiam ser um benefício adicional ao AO, do ponto de vista brasileiro. Tomara que se mantenham firmes e não adiram. Agora falta cumprir-se Portugal.

Luís Miguel Queirós: «Não seria preferível recomendar um romance extraordinário de há 50 ou 150 anos, do que um livro assim-assim de um ficcionista hoje em voga?»

Luís Miguel Queirós nasceu no Porto, em 1962. Licenciou-se em Relações Internacionais, competência que praticamente não exerceu, e trabalhou depois algum tempo como escriturário numa fábrica de sapatos. Finda essa experiência, iniciou-se nas lides jornalísticas, no desaparecido O Comércio do Porto. Esteve ainda um ano noutro clássico da imprensa portuense, O Primeiro de Janeiro, do qual transitou para o Público, no final de 1989. Embora, enquanto jornalista da secção cultural, escreva necessariamente sobre áreas variadas, a sua atenção principal esteve sempre focada na literatura e, em particular, na poesia. O seu conhecimento exaustivo do corpus da poesia portuguesa, com especial competência na do último século e meio, esteve bem patente sempre que teve de resenhar para o Público as grandes antologias da poesia portuguesa publicadas desde 1989. Leitor doublé de coleccionador, a sua biblioteca de poesia portuguesa do século XX ganhou proporções discrepantes, antes de, como confessa em seguida, se ter decidido a tomar medidas profilácticas no sentido do seu emagrecimento. Tudo isto faz de Luís Miguel Queirós um candidato natural a antologiador da poesia portuguesa, prática a que aliás já se entregou, embora lamentavelmente em regime parcelar ou temático.

Na sequência das entrevistas que vimos fazendo a agentes do mundo do livro, Luís Miguel Queirós surgiu como uma escolha óbvia, no momento de passarmos ao mundo da imprensa e da crítica nela exercida. Agradecemos-lhe a disponibilidade, bem patenteada na franqueza e extensão da conversa.

TP. Como te defines? Jornalista cultural ou crítico literário?

LMQ. Se me ocorresse definir-me, julgo que não recorreria a nenhuma destas expressões. Leitor seria a aposta mais óbvia. Coleccionador de bonequinhos dos gelados Olá, Rajá e Neveiros (e de nenhuns outros) ou fazedor de listas (quaisquer listas) seriam outras possibilidades. São características compulsivas. Pelo contrário, não me exigiria o menor esforço não escrever para jornais, sobretudo se me pagassem para (não) o fazer.

 

Esperando que, nos tempos que correm, isto não forneça motivo para despedimento com justa causa, confesso que vejo o jornalismo como algo que faço – e que consumo bastante mais do que faço –, e não como algo que me constitua ou defina.

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A vida material, segundo Marguerite Yourcenar

Matthieu Galey ― Como é que você vivia? Não tinha preocupações materiais?

Marguerite Yourcenar ― Não, nenhumas. Contei tudo isso em Arquivos do Norte. Era um capítulo um pouco embaraçoso, é sempre embaraçoso falar de dinheiro. O meu pai não me tinha deixado nada. Devo explicar que a fortuna legada pela minha mãe tinha sido mal gerida, não pelo meu pai mas por outros. Por isso, com aquilo que me restava, pensei simplesmente: gastemos. Depois há-de se ver. A questão material não se colocava. Gastava livremente, às vezes tinha mais dinheiro, outras vezes menos. E felicito-me por isso. Considero que foi uma sorte ter tido essa liberdade absoluta durante uns tempos. Podia ter corrido mal, se durasse muito mais tempo, porque se torna uma facilidade, mas, como a guerra a interrompeu, foi bom, foi uma experiência que ficou feita, de uma vez por todas.

É um privilégio, mas que se pode obter sem grandes fortunas. Vejo-o frequentemente no seio do que chamamos o povo. Querer assegurar o futuro é um ponto de vista burguês. Na verdade, não asseguramos absolutamente nada, não fazemos ideia do que será o futuro. Vi há pouco tempo o caso de uma família modesta, que corria o risco de perder tudo por causa de uma série de hipotecas e de dívidas, cujos juros não podia pagar. Bom, fiquei impressionada ao ver até que ponto aquele homem e aquela mulher, o pai e a mãe, estavam dispostos a fazer o que quer que fosse, dizendo: «Torno-me empregada de um restaurante; vou trabalhar como jardineiro, ou como pintor da construção, se não conseguir ser jardineiro. E, se não pudermos ficar aqui, vamos para outro lado.» É uma forma de liberdade. Admirava-os, eram livres.

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Adriano Scandolara: mais um louco por Joyce

Como é traduzir James Joyce?

Difícil, mas divertido (divertícil, pra ser um joyceano pedante). Digo, não sei o restante da obra de Joyce (imagino que o Ulisses, por exemplo, seja mais difícil e trabalhoso do que divertido), mas o Finnegans Wake é algo tão lúdico que a tradução, para mim, vira menos um ato de erudição e adequação a formas, normas ou outros tipos de expectativas, quanto me parece um ato de associação, algo livre, de conceitos, ideias, imagens e sons. O FW mesmo parece que encoraja isso… aí, na hora de traduzir, eu acabei me orientando menos pelo tanto de sentidos a serem enfiados no texto do que pelo ritmo. É óbvio que eles são importantes também – vide as referências bíblicas nos parágrafos segundo e quinto, ou as referências bélicas no quarto, que não devem ser descartadas pelo tradutor – mas eu não me recrimino de perder alguma referência mais obscura se for para deixar o texto com uma sonoridade melhor. Joyce, apesar de romancista, acredito que se aproxima muito da poesia, no FW, e o resultado é um texto que soa especialmente bonito quando lido, e seria uma pena perder isso na tradução.

Chama-se Adriano Scandolara e venceu há alguns meses o Concurso de Tradução Bloomsday, em boa hora criado pela Ateliê Editorial, a editora paulista que publicou, em cinco volumes, a tradução do Finnegans Wake para português, por Donaldo Schüler, uma obra que é além do mais uma preciosidade tipográfica. O concurso consistia em traduzir o trecho inicial do capítulo I da obra. Vale a pena ler toda a entrevista com o jovem premiado. E ler, já agora, a sua tradução. Porque Blooomsday é quando um homem quiser…

Vida e destino de um romance

Vassili Grossman

Quando, em outubro de 1960, Vassili Grossman enviou o manuscrito de Vida e Destino para o chefe de redação da revista Znamia, este passou-o de imediato para as mãos do KGB. Ainda que se vivesse então a época do «degelo» kruscheviano e da crítica pública dos crimes brutais e genocidas de Estaline, as consequências não demoraram a fazer-se sentir: o apartamento do escritor judeu ucraniano foi revistado, as cópias, os rascunhos e até as fitas de tinta das máquinas de escrever foram de imediato apreendidos. Grossman viveu a perda do seu romance, resultado de dez anos de intenso trabalho, como uma catástrofe pessoal, irreversível. Morreria três anos mais tarde na obscuridade, sem conseguir recuperar do desgosto e do desânimo. No imenso panorama da sociedade soviética que é este romance, comparado muitas vezes à obra maior de Tolstoi, o escritor retrata de forma realista, mas inegavelmente distante do cânone estético e político oficial, a vida durante a Segunda Guerra Mundial, com particular ênfase na ofensiva alemã, e na defesa e contraofensiva soviéticas, que culminaram com a libertação de Estalinegrado e dos territórios ocupados pelos nazis. Episódios que o autor, aliás, diretamente viveu como correspondente de guerra ao serviço do Exército Vermelho, para o qual se havia voluntariado como soldado raso.

Estabelece-se ali, e terá sido com toda a certeza essa a razão principal da desgraça do romance e do seu criador, uma incómoda analogia entre os processos de controlo político usados pelos sistemas totalitários nazi e soviético, sobressaindo o antissemitismo estrutural que, com diferentes cambiantes, de facto partilhavam. No centro da trama, a vida atribulada de uma família de «classe média», seja lá o que isso pudesse ter significado na era estalinista, dramaticamente dispersa entre a Alemanha e a Sibéria pelas circunstâncias da guerra e das suas sequelas. Após o poeta Lipkine, o físico Sakharov e o escritor Voïnovitch terem conseguido fazer sair da União Soviética um microfilme feito a partir de dois manuscritos entretanto recuperados, o texto será impresso em russo em 1980, numa pequena tiragem da responsabilidade de um editor suíço, antes de começar a ser traduzido em numerosas línguas. Em 1988, no auge da perestroika, foi finalmente editado em Moscovo. No entanto, na Rússia, e ao contrário do que tem acontecido mais a ocidente, o reconhecimento público da dimensão desta obra imensa e de leitura imersiva, bem como o do percurso pessoal e intelectual do próprio Grossman, gradualmente distanciado do regime soviético, têm sido claramente exíguos. Como, citado pela revista francesa Books, escreveu o encenador Lev Dodine no semanário Itogui, tal não pode deixar de acontecer numa sociedade que «emprega o essencial da sua energia a renegar o próprio passado».

Vassili Grossman, Vida e Destino. Trad. de Nina Guerra e Filipe Guerra. Dom Quixote. 856 págs. Publicado também em A Terceira Noite.

André Tavares, da Dafne Editora: «Seremos sempre uma ‘editora de vão de escada’, da nossa escada que é uma escada desenhada por arquitectos»

Com aparição pública datada de 2004, a Dafne Editora é o exemplo de como a opção por uma área de especialização – a arquitectura – pode funcionar como imagem de marca e alavanca de um projecto editorial exigente e em desenvolvimento sustentável. De facto, sem nunca abandonar a sua área de referência (o site apresenta, por baixo do nome da editora, a indicação «Livros de Arquitectura»), a Dafne vem constituindo um catálogo relevante, sabendo alargá-lo para áreas limítrofes – o urbanismo, o design, a museologia, a estética – sem nunca perder o pé ou se lançar em expansões suicidas, num momento em que o mercado se alimenta de produtos «hiper-rotativos» e, por isso, de uma desoladora banalidade. Resistindo às solicitações do fácil e do estridente, a Dafne pratica ainda uma linha gráfica cuja sobriedade, na qual se pode talvez ler o legado da «Escola do Porto», tem um valor que no contexto actual é não só pedagógico como, convenhamos, terapêutico.

Razões mais do que convincentes para, na sequência das entrevistas que vimos fazendo a agentes do mundo do livro, ouvirmos André Tavares, o responsável principal pela editora. Agradecemos a sua disponibilidade.

TP. A Dafne define-se como «editora de arquitectura» mas a verdade é que o seu catálogo se tem vindo a alargar para a Museologia e Estética. Pode definir o projecto editorial da Dafne? Qual é de facto o vosso público-alvo?

AT. Nós não temos como objectivo atingir ninguém, nem imaginamos o leitor como um alvo a abater. Começámos com uma colecção de História da Arquitectura e fomos entendendo que era fundamental abrir o leque de temas para que os livros pudessem chegar a mais leitores. O nosso primeiro livro da colecção Equações foi um texto de artes plásticas, do António Olaio sobre o Marcel Duchamp. Naquela altura escrevemos que queríamos encontrar relações entre a arquitectura e universos paralelos, relações que são constantes e intermináveis. Mas naturalmente acabámos por nos centrar naquilo que sabemos e conhecemos melhor, que são os assuntos da arquitectura.

O ‘livro dos museus’ do João Brigola ou a colecção Imago foram oportunidades que apareceram ao longo do caminho e que nos pareceram muito oportunas, quer pelas condições que tínhamos para editar, no caso de uma parceria com o CHAIA da Universidade de Évora, ou pela hipótese de fazer chegar os livros da Dafne a um público que em geral é completamente surdo em matérias que fujam do mainstream. Creio que ambas as edições correram bem, e esperamos que haja outras hipóteses para acompanhar os nossos livros de arquitectura com outros livros que partilhem afinidades com eles.

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«Uma inscrição», de José Ángel Valente

Foi em Roma,
onde havia naquela época
grandes concentrações de capital
e massas operárias com escassas possibilidades de subsistir.

Os poetas não registaram o problema,
porque Roma deve ter sido uma alegre cidade
nos tempos de Nero,
Aenobarbo, parricida,
poeta de ínfima qualidade.

Alguns homens simples
envenenaram as fontes
e opuseram-se ao regime oficial.

Homens acaso como este
que jaz em paz,
trabalhador de humildes mesteres
ou, talvez, mercador. Um dia
foi-lhe comunicada
certa possibilidade de sobreviver.
(Ignora-se se foi sacrificado
por semelhante crime.)
Não obstante, morreu; quer dizer, soube
a verdade. Piedosamente
repito estas palavras
sobre a pedra escritas
com igual vontade:
«Alegre permanece, Tácio,
amigo meu,
ninguém é imortal».

«Una inscripción» integra o primeiro livro do poeta espanhol José Ángel ValenteA modo de esperanza, de 1954. Publico esta tradução em homenagem aos 4 anos do blog Do trapézio, sem rede, de Luís Filipe Parrado. Tanto mais que, ao que julgo, Valente não consta dos autores traduzidos no blog neste período.

Post Scriptum: «Lição de gramática», de Berta Piñan, por Luís Filipe Parrado

A infância, segundo Marguerite Yourcenar

Matthieu Galey ― Há, contudo, um elemento particular na sua infância: foi uma infância sem mãe. Essa falta pesou-lhe?

Marguerite Yourcenar ― Nem um pouco. Nunca, durante a minha infância, me foi mostrado um retrato da minha mãe. Só o vi quando tinha talvez uns trinta e cinco anos. Fui visitar a sua campa pela primeira vez quando já tinha uns cinquenta e cinco. Devo dizer que o meu pai estava sempre rodeado de mulheres. Portanto, devia haver muita gente para me fazer golas de bordado ingês ou para me oferecer bombons.

MG ― É, no entanto, a infância de uma menina solitária.

MY ― Até certo ponto. Ou era-o de forma intermitente, umas vezes solitária, outras rodeada de outras crianças, de pessoas na casa de quem o meu pai passava algumas temporadas. Mas solitária por momentos, apesar de tudo, sim, e penso que o hábito precoce da solidão é um bem infinito. Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. Ensina-nos também a amar mais os seres. Além disso, há um fundo de indiferença na criança que muito raramente é descrito. Não sei se as pessoas se sentem embaraçadas com o sentimento dessa indiferença, mas fico impressionada quando observo as crianças: vivem num mundo muito próprio. Tenho a sensação de que vivia, também eu, no meu mundo. Creio que os escritores, na sua maioria, mesmo os «sérios», que falam da infância, se enganam sempre. Vêem a criança do seu ponto de vista de adultos, ou fazem um esforço enorme para se colocar no lugar do que imaginam ser uma criança. Tudo isto é demasiado sistemático, está demasiado próximo das nossas próprias convenções. Julgo que a criança se orienta na vida de forma muito vaga, com a surpresa do animal jovem que vê ou encontra qualquer coisa pela primeira vez. As pessoas grande que a rodeiam, cuja identidade nem sempre é muito clara – uma dizem-lhe ser, ao que parece, o pai, que se chama «papá» (mas o que é para ela um pai?), outra a mãe, e a terceira a criada, a cozinheira ou o carteiro – são todas «pessoas grandes», que têm uma certa importância mas, ao mesmo tempo, não estão muito ligadas à criança nem à sua vida própria, aliás impenetrável para aquelas pessoas. Ninguém quer ver essas relações. Pretende-se que as crianças detestem os pais ou que os adorem. Na verdade, em nenhuma época eu «adorei» o meu pai, e parece-me que só bem tarde é que o amei verdadeiramente.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos. Conversas com Matthieu Galey, Lisboa, Relógio d’Água, 2011, pp. 23-24.

Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo

[Texto lido no passado dia 11 de Fevereiro de 2012 no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira, aquando da cerimónia de assinatura do contrato de doação do espólio de Carlos de Oliveira ao museu]

É-me muito difícil dispensar uma nota pessoal no dia de hoje, atendendo ao motivo que aqui nos traz. Porque há, desde logo, uma pessoa que hoje aqui não pode estar, uma pessoa que contudo, para todos os que nalgum ponto do seu interesse pela obra de Carlos de Oliveira se cruzaram alguma vez com ela, está e estará sempre connosco quando falamos de Carlos de Oliveira: Ângela de Oliveira, renomeada como Gelnaa ou Anne Gall no interior dessa mesma obra e personagem maior dela, ou melhor, da sua própria edificação. Várias das pessoas que aqui estão hoje, e seguramente que muitas outras, sabem que para Ângela a questão do destino a dar ao espólio de Carlos de Oliveira foi uma obsessão alimentada desde o dia seguinte ao dia 1 de Julho de 1981. Ou melhor: uma missão a que se votou sem desfalecimentos, apesar das dificuldades que o mundo ergue, hoje e sempre, no caminho de quem busca preservar a memória daqueles que desejaram confundir o seu destino com o das palavras da tribo.

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O que anda a ler?

Danilo Silva, barman, 31 anos, Guimarães.

Preferências: Fafá de Belém, Ivete Sangalo, Timão, Presidente Lula.

Leituras:

1) Em Portugal não se come mal, de Miguel Esteves Cardoso, Lisboa, Assírio & Alvim, 2008.
2) A mensagem da Irmã Lúcia. Aprender a rezar com a última vidente, de Paulo Aido, Lisboa, Prime Books, 2007.
3) As minhas montanhas. As regras de ouro do sucesso, de Roberto Leal, Lisboa, Livros d’Hoje, 2011.

Oficina do Cego: «Vivemos como as vacas no campo, ruminando cuidadosamente os nossos projectos, pouco preocupados com os ontens e os amanhãs patrimoniais»

Fundada em Lisboa, em 2009, a Oficina do Cego, «associação sem fins lucrativos que desenvolve trabalho no domínio das artes gráficas», afirmou-se rapidamente como um colectivo empenhado na prática e na pedagogia da impressão e auto-edição. Combinando técnicas de hoje com técnicas de ontem, recuperando artes gráficas que o progresso e o fetichismo das tecnologias de impressão deitaram supostamente para o caixote do lixo da História e cruzando-as com sensibilidades gráficas muito diversas, a Oficina do Cego ofereceu um modelo de relação com a História, o património, a criação e o mercado no qual não custa ver uma lição alternativa ao actual pensamento único (bem patente no facto de o colectivo se ter recusado a individualizar os seus membros nesta entrevista). Em todo o caso, trate-se de técnicas d’antanho ou de hoje, a Oficina do Cego é uma aula viva do culto da materialidade dos suportes tipográficos tradicionais – papéis, cartolinas – e da sensorialidade das inscrições que neles a criatividade gráfica produz. De fanzines a jornais, cartazes, flyers ou livros, a civilização do impresso mostra, mais uma vez, a vitalidade das suas formas e o potencial do seu legado, nesta Oficina de gente que vê bem ao longe.

Uma vez que este blog decidiu ouvir um número alargado de agentes do livro, em Portugal e no estrangeiro, pareceu-nos que a Oficina do Cego deveria ter uma palavra a dizer. Não apenas pelo seu trabalho no domínio do livro, escasso mas precioso, mas pelo que este colectivo representa neste momento nas artes gráficas em Portugal. Resta-nos agradecer a todos os membros do colectivo o empenho colocado nas respostas que nos enviaram.

TP. Podem descrever a Oficina do Cego? O que é, quantas pessoas congrega, quais os seus objectivos?

OC. A Oficina do Cego é uma associação sem fins lucrativos, formada no final de 2009. No princípio éramos quase uma dúzia, ligados à ilustração, à edição de fanzines, à impressão, à poesia, ao design gráfico, à escrita sobre ilustração e banda desenhada.

Actualmente, a associação tem quarenta e sete associados.

Quando fixámos os nossos objectivos adaptámos, com bastante liberdade e fantasia, as linhas de um regulamento encontrado, por acaso, na internet (o regulamento da Associação Ateísta Portuguesa). Trocámos “ateísmo” por ”grafismo” e ficámos com a primeira tábua: A divulgação do grafismo como mundividência estética, filosófica e socialmente válida. Daí decorrem as seguintes, um tanto mais prosaicas: A produção de documentos gráficos, de abordagens autorais e artísticas multi-disciplinares e com múltiplas abordagens no domínio das técnicas de impressão e da edição de pequena tiragem; A formação teórica e técnica dos associados e outros em projectos inseridos nas actividades da associação; O intercâmbio com entidades e pessoas afins… Etc.

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Herberto Helder por Tomás Taveira

Desde o 1º ano da escola, que o «antigo» me fascinava. O primeiro trabalho que fiz foi sobre as cidades, ditas de colonização, no Egipto Antigo – as cidades que foram feitas para albergar os escravos, que iriam construir as pirâmides. A minha ligação à história vem desde o início. … Como é que eu chego à história depois de uma maneira mais evoluída e antes de 1967? Por um lado, tive uma influência brutal do Herberto Helder, convivi com ele em Santarém; estava na tropa, e ele cuidava de uma biblioteca itinerante da Gulbenkian. Foi-me apresentado pelo Fernando Assis Pacheco, que teve também uma grande influência na minha evolução cultural. O Assis Pacheco tinha uma biblioteca incomensurável, que era do pai. Quase toda a literatura americana que li, foi-me emprestada por ele; estamos a falar de 1960/1962. Lia um livro por dia; se não lesse, ele levava-o, era um louco, fantástico. O Herberto, por outro lado, disse-me uma coisa interessantíssima que tenho aqui transcrita: «A arquitectura não é uma coisa natural, é uma coisa que vem do pensamento, tem de ser adaptada à história e ao local». Disse-me isto no primeiro dia que o conheci. E tal ficou registado no meu cérebro, é uma das chaves da minha evolução.

Tomás Taveira, in Jorge Figueira, Reescrever o Pós-Moderno, Porto, Dafne Editora, 2011, pp. 141-142.

Última hora: João Botelho no «Páginas Tantas» a 12 de Março

Como se pode ler em post anterior neste blog, a sessão do Páginas Tantas com João Botelho estava agendada para 5 de Março.

Informamos que por razões que se prendem com compromissos de rodagem do próximo projecto do cineasta, a sessão teve de ser transferida para a segunda-feira seguinte, 12 de Março, pela mesma hora. Em breve informaremos sobre o programa das festas no TAGV em torno da obra de João Botelho.

Tàpies sobre João Cabral

Foi muito interessante conhecer João [João Cabral de Melo Neto, 1920-1999], porque isso se deu em um momento em que havia muita discussão em torno de poesia e arte. Questionava-se muito se os poetas e os pintores deviam fazer um trabalho social e político. As opiniões de Cabral eram muito acertadas. [...] Para mim, ele era alguém um pouco mais velho que, naquela época, foi como um modelo, um exemplo muito interessante dentro dessas polêmicas.

João Cabral foi de grande ajuda para os jovens. Ele chegou a me apresentar, junto com outros artistas [Joan Ponç, 1927-1984, e Modest Cuixart, 1925-2007], em uma exposição no Instituto Francês de Barcelona [1949]. Escreveu um texto muito bonito do qual sempre me lembro. Mas foi importante sobretudo porque nos dava a oportunidade de ir à sua casa para, em plena ditadura [o franquismo, desde 1939], discutir diversos temas, inclusive a situação política da Espanha.

Tirado daqui.

Paulo Franchetti, director da editora da Unicamp: «O acordo ortográfico é um aleijão»

Paulo Franchetti é crítico literário, escritor e professor titular do Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Publicou, no Brasil, entre outros livros, os ensaios Alguns aspectos da teoria da poesia concreta (1989), Nostalgia, exílio e melancolia – leituras de Camilo Pessanha (2001), Estudos de literatura brasileira e portuguesa (2007), e organizou o volume Haikai – antologia e história (1990). Preparou edições comentadas de Coração, Cabeça e Estômago (2003) e, para a Ateliê Editorial, O Primo Basílio (1998), Iracema (2007), A cidade e as serras (2007), Dom Casmurro (2008), Clepsidra (2009) e O cortiço (2012, no prelo). Publicou ainda, em Portugal, a edição crítica da Clepsydra, de Camilo Pessanha (1995); a antologia As aves que aqui gorjeiam – a poesia do Romantismo ao Simbolismo (2005) e o ensaio O essencial sobre Camilo Pessanha (2008). É também autor da novela O sangue dos dias transparentes (2003), da coletânea de haicais Oeste/Nishi (2008), do livro de sátiras Escarnho (2009) e do livro de poemas Memória futura (2010).

Desde 2002, dirige a Editora da Unicamp, tendo neste período conseguido 6 prémios Jabuti e colocado, no ranking de 2010, a Unicamp no 5º lugar das melhores editoras do Brasil, apenas com a Editora da UFMG melhor colocada, em 4º, de entre as editoras universitárias. De notar que, de acordo com esse ranking, entre as 19 melhores editoras do Brasil, 4 são universitárias, ou seja, um pouco mais de 20%. Situação rara, em muitos países, a começar por Portugal, e uma razão mais para ouvirmos Paulo Franchetti, que junta às suas facetas de professor, orientalista, crítico, poeta, ficcionista e editor (e motoqueiro…) a de conhecedor profundo da literatura portuguesa, sobretudo das obras de Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Camilo Pessanha (cuja edição fixou, laminando uma série de lendas de longo curso sobre o poeta e a obra) e Fernando Pessoa.

Agradecemos a Paulo Franchetti a disponibilidade revelada e o empenho colocado na resposta, desassombrada como sempre, às nossas perguntas.

TP: Pode dar-nos algumas informações prévias sobre a Editora da Unicamp? Qual é o seu orçamento anual? Quantos funcionários trabalham na editora e nas livrarias do campus? Quantos livros publica a editora em média por ano?

PF. A Editora recebe um apoio de cerca de R$ 300.000,00 por ano. Isso constitui o seu fundo editorial e se destina a cobrir principalmente a tradução e a impressão de obras que, apesar de importantes para o público universitário, não produzem retorno de vendas, por se dirigirem a um público muito restrito. Anualmente, com base em projetos específicos e planilhas de custos, a reitoria pode suplementar esse valor. O faturamento bruto da Editora da Unicamp gira em torno de R$ 1.500.000,00.

Na Editora trabalham 25 funcionários, e nas duas livrarias, 4. Desses, apenas 8 são funcionários públicos; os demais são contratados pela Fundação e têm seus salários e direitos pagos com o resultado da venda de livros. De modo que a Editora da Unicamp funciona mais ou menos como uma pequena empresa.

O número relativamente elevado de funcionários se deve a uma estratégia definida pela direção: fazemos internamente a revisão e a diagramação da maior parte dos livros, tendo para isso quatro revisoras contratadas em período integral e duas diagramadoras. Quando há excesso de trabalho, alguns serviços de revisão e diagramação são terceirizados. Os funcionários, então, promovem leitura aleatória do trabalho realizado, para controle de qualidade. Isso tem garantido à Editora um excelente nível de correção nas suas publicações, muito acima do padrão nacional.

A Editora publica em média 40 títulos novos por ano e 6 em segunda edição. Desse total, todos os anos são feitas cerca de 24 reimpressões. De modo que a Editora põe na praça, anualmente, cerca de 70 tiragens.

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Sessão 2 de «Páginas Tantas»: Duarte Belo


© Duarte Belo

Como vimos anunciando neste blog, terá hoje lugar, pelas 18.30h, no TAGV, a segunda sessão do Páginas Tantas. Será nosso convidado o fotógrafo Duarte Belo. O painel será constituído por Ana Maria Machado e Osvaldo Manuel Silvestre.

Duarte Belo nasceu em Lisboa, em 1968. Licenciatura em Arquitetura (1991). De uma obra fotográfica documental extensa são de destacar as obras Portugal — O Sabor da Terra, em catorze volumes (1997), onde se faz uma aproximação à fixação do tempo longo em Portugal, e Portugal Património, em dez volumes (2007-2008), um inventário do património cultural e natural, em sítio, de todo o espaço português. De outros trabalhos editados em livro, mais específicos, poderíamos destacar Orlando Ribeiro — Seguido de uma viagem breve à Serra da Estrela (1999); Ruy Belo — Coisas de Silêncio (2000); O Vento Sobre a Terra — apontamentos de viagens (2002); À Superfície do Tempo — Viagem à Amazónia (2002); Território em Espera (2005); Geografia do Caos (2005); Terras Templárias de Idanha (2006); Olívia e Joaquim – Doces de Santa Clara em Vila do Conde (2007); Fogo Frio – O Vulcão dos Capelinhos (2008); Comboios de Livros (2009); desenha, produz e fotografa as ilustrações do conto O Príncipe-Urso Doce de Laranja (2009); Cidade do Mais Antigo Nome (2010); O Núcleo da Claridade – entre as palavras de Ruy Belo (2011).

Além da exposição fotográfica Palavra, Lugar, que anunciámos anteriormente, também os livros de Duarte Belo serão objecto de exposição.

Livros a apresentar na sessão 2 de «Páginas Tantas»

Ficção:
• António Lobo Antunes, Comissão das Lágrimas, Lisboa, Dom Quixote, 2011. ISBN: 9789722047951.
• Philip Roth, Némesis, Lisboa, Dom Quixote, 2011. ISBN: 9789722048040.

Poesia:
• Ruy Belo, Na Margem da Alegria. Poemas Escolhidos por Manuel Gusmão, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011. ISBN: 978-972-37-1598-9

Fotografia:
• Duarte Belo, O Núcleo da Claridade. Entre as Palavras de Ruy Belo, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011. ISBN: 978-972-37-1557-6

Entrevista:
• Jorge Figueira, Reescrever o Pós-Moderno, Porto, Dafne Editora, 2011. ISBN: 978-989-8217-17-2
• Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos. Conversas com Matthieu Galey, Lisboa, Relógio d’Água, 2011. ISBN: 978-989-641-240-1

Livro infantil:
• Isabel Minhós Martins e Yara Kono, Como é que uma galinha…, Lisboa, Planeta Tangerina, 2011. ISBN978-989-8145-34-5.

«Páginas Tantas», sessão 2: a exposição de Duarte Belo

© Duarte Belo

Como informámos antes, inaugurar-se-á na próxima segunda-feira, dia 6 de Fevereiro, uma exposição de Duarte Belo, próximo convidado do Páginas Tantas, que ficará no TAGV cerca de um mês. Reproduzimos aqui um dos dois painéis concebidos pelo fotógrafo. A exposição intitular-se-á Palavra, lugar, e pode ser visitada online. Transcrevemos em seguida o texto que Duarte Belo concebeu para a acompanhar:

A par de um levantamento fotográfico de todo o território português, foram sendo feitas fotografias, sem um propósito definido, de situações e lugares de trabalho, de todo um universo de fazeres, por vezes singulares, que sustentam as imagens, os discursos e os diálogos sobre as paisagens. É uma fracção desse mundo que aqui está em confronto próximo com os territórios mais afastados registados, ora sob um sol intenso, ora em fuga do tempo agreste dos invernos nevados das terras altas. Palavra é uma síntese possível da génese de um processo de comunicação pela imagem fotográfica e o relato do habitar os espaços de ausências humanas. Lugar é a construção de um novo espaço, entre o real e o imaginário, entre a maior cidade e o mais longínquo deserto.

Na sala de aula: Joaquim Manuel Magalhães (II)

Passo agora a transcrever o poema da sala de aula, inicialmente editado em Segredos, Sebes, Aluviões, tal como Joaquim Manuel Magalhães o recupera em Um Toldo Vermelho (Relógio d’Água, 2010, p. 154), obra na qual inclui o que considera recuperável da sua produção poética:

Num acanhado apontamento
pergunta a tabuada.

A reza de números, a regente
indaga de seguida
numa página coçada
gramática.

O arroubo, o ilógico
elemento decorado,
um pronome pessoal que laço
a um colega miudinho,
ígneo arrojo.

Não vale a pena fingir que se pode ler este poema sem a leitura contrastiva que a sua história solicita. É certo que se o leitor agora chegado à poesia de JMM ler Um Toldo Vermelho como a Obra, dispensará provavelmente tudo aquilo que, lá para trás, faz antes desta obra uma súmula. Nesta versão, a Obra não seria mais do que um privilégio do amnésico. Contudo, o problema maior da súmula da Obra a que o autor deu o nome, também ele «em versão curta» e por isso falsamente amnésica, Um Toldo Vermelho (título que recupera e ao mesmo tempo corta Uma luz com um toldo vermelho, livro de 1990), reside no envio para a memória que cada poema sobrevivente à poda produzida pelo autor põe, como que necessariamente, em marcha.

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Em memória de Safo

Do autor de A casa do pó, Fernando Campos, e da mesma editora Objetiva, chancela Alfaguara, saiu, no final de 2011, A rocha branca, cujo título evoca o lugar do suicídio por amor de Safo de Mitilene, famosa poetisa  da Antiguidade (sécs.VII-VI a.C.).

A mesma busca do rigor possível, de fidelidade ao estilo da época, ou, aqui, ao estilo a que as traduções portuguesas do grego nos habituaram, a mesma atração pela história que se oferece à ficção “fundamentada” (14).

Romancear Safo exige articulações várias entre o conhecimento da Antiguidade e dos seus autores,  os silêncios da história pessoal e o estado fragmentário da sua poesia, mas Fernando Campos é cauteloso e probo, como atesta o prefácio com que brinda os ignaros leitores não versados em matérias antigas. Em diálogos vivos e impressivos, enternece-se no desenho de Safo, poetisa, mestra educadora, mulher, mãe e amante, e retrata-a em toda a sua elegância, beleza, sensibilidade, cultura e integridade irradiadoras, percorrendo com devoção serena, num ritmo por vezes demasiado arrastado, as várias fases da sua vida.

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O que anda a ler?

Benedita Redol, operadora de Call Center, Sta Maria da Feira, 28 anos.

Preferências: Abbas Kiarostami, Académica de Coimbra, Intimissimi, Kindle.

Leituras:

1) Manuel Gusmão, A Terceira Mão, Lisboa, Caminho, 2008.
2) Manuel Gusmão, Finisterra. O Trabalho do Fim: reCitar a Origem, Coimbra, Angelus Novus, 2009.
3) Manuel Gusmão, Tatuagem & Palimpsesto. Da Poesia de alguns Poetas e Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.

Abadia

Na abadia franciscana de Monteveglio
há um sistema inovador
de chamar os frades para as confissões:
com um simples toque numa campainha eléctrica
pode solicitar-se frei Gregorio
com dois toques + pausa + um toque
convoca-se o frei Stefano
mas com um toque + pausa + dois toques + pausa
quem acudirá será frei Domenico.
O método parece funcionar
e bem:
com uma pausa + três toques + silêncio
+ 1 toque demorado (à volta de quinze segundos)
eu próprio pedi que Frei Giovanni della Annunziata
ali me confessasse.
Desgraçadamente Giovanni della Anunziata
responde a toques + silêncios + pausas
mas não conhece a minha linguagem
feita de palavras que se chamam umas
às outras
e que frequentemente me chamam a mim.

Américo Rodrigues, Acidente Poético Fatal, Guarda, Luzlinar, 2011.

Averno: «Nos últimos anos a poesia, e a literatura, perderam terreno. Isso não é uma catástrofe. A poesia dá-se bem em condições adversas»

Nascida em 2002, e com 59 títulos editados desde então, a Averno conquistou com esse escasso catálogo uma reputação assinalável na «linha da frente» da edição portuguesa de poesia. Elegendo algumas (poucas) referências entre os poetas portugueses de períodos anteriores, de António Manuel Couto Viana e António Barahona a João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães, a Averno distinguiu-se sobretudo por apostar num conjunto de poetas da nova geração: Rui Pires Cabral, Manuel de Freitas, José Miguel Silva, Vítor Nogueira e, mais recentemente, Miguel Martins, Renata Correia Botelho ou Diogo Vaz Pinto. Não descurando a edição de poetas em tradução, a editora singularizou-se, logo no seu início, pela edição da antologia Poetas sem Qualidades, responsável por um longo e polémico debate na cena poética e crítica portuguesa, e pela edição de uma revista de poesia e crítica, Telhados de Vidro, hoje no seu nº 15. Seguindo uma velha e sempre actual lição, a Averno tornou os seus livros reconhecíveis pelas opções gráficas assumidas, as quais, após algumas hesitações iniciais, estabilizaram, em grande medida por influência de Olímpio Ferreira, nas capas em kraft, na avareza no uso da cor e nos formatos «de bolso». Tudo a contra-corrente de um mercado cada vez mais rendido a cores, brilhos e relevos sem pertinência ou sentido. Não surpreende que a Averno se tenha tornado numa espécie de exemplo a seguir por todas as pequenas e dinâmicas editoras que vão preenchendo o espaço que as editoras tradicionais ocuparam, até há pouco, na edição de poesia.

Razões mais do que suficientes para irmos ouvir Inês Dias e Manuel de Freitas, o duo que assume a condução editorial da Averno. Agradecemos a ambos a disponibilidade revelada.

TP. Quantas pessoas constituem a Averno?

A. A Averno é constituída apenas por duas pessoas, no que respeita a decisões editoriais: Inês Dias e Manuel de Freitas. Porém, e desde o primeiro momento, tivemos o privilégio de contar com o apoio gráfico do Olímpio Ferreira, que soube dar um rosto sóbrio e original à editora. Após a morte do Olímpio, que por pouco não foi o fim de tudo no plano editorial, continuámos graças ao entusiasmo e à disponibilidade de pessoas como Pedro Serpa, Inês Mateus ou Diogo Vaz Pinto. De Braga, com enorme zelo, a Carla Gaspar vai-nos actualizando o blog. E há também os autores, os ilustradores, os impressores. O que, em rigor, nos permitiria dizer que a Averno é constituída por vinte ou mais pessoas essenciais para a feitura dos livros.

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O que anda a ler?

Daniel Morgado, psicoterapeuta, 54 anos, Coimbra.

Preferências: Eduardo Sá, Nuno Crato, Philip Glass, leitão à Bairrada, República Dominicana.

Leituras:

1) Uma aventura na Quinta das Lágrimas, de Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, Lisboa, Caminho, 1999.
2) Veronyka decide morrer, de Paulo Coelho, Lisboa, Pergaminho, 2009.
3) Porque é que os homens querem sexo e as mulheres precisam de amor, de Allan e Barbara Pease, Lisboa, Bizâncio, 2009.

[Começamos hoje a publicar as indicações de leitura que nos chegam dos nossos leitores, de acordo com as normas enunciadas aqui]

«Páginas Tantas», sessão 2 com Duarte Belo

© Duarte Belo [óculos de mergulho de Ruy Belo]

No próximo dia 6 de Fevereiro, segunda-feira, pelas 18.30h, terá lugar no Teatro Académico de Gil Vicente a segunda sessão do Páginas Tantas. O convidado será Duarte Belo, autor de uma vasta e importante obra na fotografia portuguesa contemporânea. Chamamos a atenção para a exposição de fotografias de Duarte Belo que o TAGV exibirá, a partir do dia 6 de Fevereiro e durante um mês.