Um excerto de «O chão dos pardais» de Dulce Maria Cardoso

Transcrevemos, neste e noutros posts próximos, alguns dos excertos da obra de Dulce Maria Cardoso que foram seleccionados para exposição no TAGV:

Estava no quarto do filho, sentada na cama, agarrada à urna que tinha cinzas do filho. O filho tinha voltado ao tamanho em que ela o podia segurar inteiro, em que lhe cabia no colo. Se quisesse podia embalá-lo. Ainda era mãe. Não havia nome para o que se tinha tornado. Nunca haveria. Se houvesse isso quereria dizer que era possível que os filhos morressem, o que não podia acontecer. Nunca. Como os filhos não podem morrer, não pode haver nome para quem perde um filho. Os filhos têm de sobreviver às mães e aos pais que os embalaram como agora a mãe embala a pequena urna. Está muito cansada, mas continua. Não sabe onde pousar a pequena urna que guarda as cinzas do filho. Como a pousar. Como sequer olhar para a pequena urna. A pequena urna cor de vinho é pesada de mais para o tamanho que tem. A tampa também é dourada de mais. Não para o tamanho. Em absoluto. Mas é verdade que a urna tem um aspecto digno. O dono da agência funerária tinha razão.

Dulce Maria Cardoso, O Chão dos Pardais, Porto, Asa, 2009, p. 168.

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