Um outro excerto de «O chão dos pardais» de Dulce Maria Cardoso

― Cuidado – disse a Clara apontando para a faca -, faz mal.

Apesar do sorriso, a voz de Elisaveta foi tão fria quanto a lâmina da faca onde Clara passava o indicador direito. Talvez tenha sido por isso que Clara passou o dedo com mais força. Sentia Elisaveta cada vez mais distante. E tinha sido culpa dela. Clara sabia que ajudar era o mesmo que querer negociar, trocar, permutar. E isso era verdade em qualquer língua porque era verdade no entendimento de qualquer humano. Quero ajudar-te queria dizer estou disposto a dar-te uma coisa de que posso prescindir e a receber em troca uma coisa que me faz falta. Chamava-se ajuda porque uma das partes estava impedida de negociar. Precisar de ajuda queria dizer, em qualquer língua, não poder recusar o que é oferecido e ter de dar o que é pedido.

Dulce Maria Cardoso, O Chão dos Pardais, Porto, Asa, 2009, p. 101.

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