Notas sobre Luís Quintais (I)

Não sei se esta é a melhor porta de entrada na poesia de Luís Quintais, mas em todo o caso é a que proponho. Refiro-me ao poema «Nuvens», do livro Duelo, de 2004, um dos dois livros que, no início da década anterior, colocaram Quintais na linha da frente da poesia portuguesa actual, sendo o outro Angst, de 2002. Transcrevo o poema:

Nuvens

A metafísica será talvez
uma indisposição que se quer passageira.

Porém, eu continuo a inquietar-me
com as nuvens que são arrastadas,

violentamente arrastadas, na direcção sudeste,
filtrando a luz do sol em obsessiva correria.

O poema concentra toda a arte de Quintais: o teor alusivo e elusivo; a composição irónica na passagem de um enunciado genérico e abstracto a um pormenor descritivo que não parece corroborar o enunciado mas se justapõe a ele e nos desafia ao estabelecimento dessa relação, ou melhor, ao sentido dessa relação; o estranho impacto emotivo de certas imagens; e ainda, e crescentemente nos últimos livros, embora em rigor desde o início, a sombra do poeta norte-americano Wallace Stevens. James Merrill dizia, de Stevens, que a sua poesia era uma «filosofia involuntária», uma especulação verbal sobre a realidade e sobre a natureza da relação da linguagem, e da linguagem do verso, com ela. Quintais é um poeta dessa família, embora a sua condição pós-metafísica se denuncie naquela qualificação segundo a qual «A metafísica será talvez / uma indisposição que se quer passageira». A crítica, estranhamente, tende a ler estes versos como sintoma de gravitas, descurando a ironia, mais drummondiana que pessoana, desta «indisposição passageira», que é também um envio para os neo-positivistas vienenses, e ainda para o primeiro Wittgenstein, segundo os quais a metafísica era não tanto uma indisposição mas consequência de uma «má colocação» ou, se se preferir, de uma «má posição» durante, digamos, o almoço… O importante não é tanto o «talvez» que introduz a indisposição, mas sim o «Porém» que, no início do terceiro verso, contesta o prestígio pós-metafísico da dúvida introduzida pelo «talvez»: «Porém, eu continuo a inquietar-me», que é como quem diz, nem a destruição nem a desconstrução da metafísica nos dispensam da inquietação propriamente metafísica, pela razão simples de que não podemos «continuar», ainda que no sentido da insistência de um Beckett, para quem só nos restava justamente «continuar», mesmo que sem a caução de um sentido, transcendental ou não, ou seja, não podemos viver sem a inquietação da metafísica.

Mas Quintais é um poeta, espécie mais rara e digna de preservação do que os metafísicos, e por isso a forma como o diz é por uma imagem. Uma imagem, note-se, inteiramente comum e co-extensiva ao nosso aparelho perceptivo desde que para o mundo abrimos os olhos: as nuvens no céu. Permitam-me que regresse ao poema para reapresentar estas nuvens: «Porém, eu continuo a inquietar-me / com as nuvens que são arrastadas, // violentamente arrastadas, na direcção sudeste, / filtrando a luz do sol em obsessiva correria». Porque se inquieta o poeta com as nuvens arrastadas pelo vento, no céu? Porque há-de o espectáculo do mundo inquietar? E ainda, e talvez sobretudo, porque me hei-de eu, esse eu que eu também sou quando digo «eu continuo», ao ler o verso do poema, inquietar-me por procuração de um tal Luís Quintais que se calhar nunca vou sequer conhecer ou que morrerá antes de eu nascer? Será mesmo a poesia um discurso estritamente pessoal e intransmissível ou terá a linguagem da poesia o dom, estranho e poderoso, de permitir que o «eu» do verso seja ocupado por todo aquele que o ler, conseguindo assim ela tornar-se uma entidade social, e socialmente construída, de acordo com certas convenções (as da poética, desde logo), dentro de uma comunidade linguística? Responder a isto implica, mais uma vez, separar as águas entre poesia e filosofia, recusando a oferta que a segunda fez desde sempre à primeira, de modo a domesticá-la: a ideia e preceito segundo o qual a poesia é, também ela, representação do mundo ou mimese. Mas se a poesia lírica é, como é, um género fundacional com uma história milenar que vai de Safo até Sam the Kid, ela não é nem um discurso mimético nem um documento social. E este «eu» que reencontramos no poema de Quintais não é, por isso, uma persona mais do moderno sujeito burguês ou uma fase mais da via sacra secular da «perda do Ser». Este «eu», que somos todos nós, leitores do poema de Quintais, é a marca da alienação com que nos relacionamos com a linguagem, alienação sem a qual não conseguimos dizer «eu». Antes e depois de toda a metafísica e de toda a destruição da metafísica, permanece a gramática, como dizia Nietzsche. O poeta é aquele que enfrenta e assume a experiência da alienação na linguagem, aceitando dizer a radicalidade do «eu» em acordo com a gramática (acordo no qual cabem figuras do desacordo tradicionalmente hipervalorizadas pela poética, como o «desvio»), já que sem ela nenhum sujeito, nenhum «eu» é possível. Esta banalidade, este trauma, a banalidade deste trauma, são admiravelmente tematizados no poema de Quintais, que parece dizer-nos que as nuvens correm obsessivamente no céu ante a nossa inquietação, não a do mundo que corre, agora e sempre, indiferente à nossa inquietação. Tal como a experiência da radical alienação do eu na linguagem, essa experiência a que chamamos poesia, assim o mundo nos aliena e subtrai qualquer vestígio de sentido. Restam imagens, no caso, de «nuvens» correndo pelo céu, «filtrando a luz do sol». Resta, aparentemente, a materialidade da linguagem e das imagens. Mas as imagens são aqui mais do que isso, porque, como vimos, são também uma ocorrência do simbólico, do que só se pode dizer naquilo que na imagem é uma negociação do que fica para lá do verbal, e de facto fica sempre aí, nesse para-lá de que a poesia não desiste mesmo que não o consiga de facto dizer, optando antes por dar a ver o indizível. Se o mundo é coisa opaca, as nuvens no céu são, como diria Eliot, o correlato objectivo dessa opacidade inumana. E, ponto decisivo, são perturbadoras, como o mundo o é na sua opacidade. O mundo passa, com a metafísica e a sua «indisposição passageira». E comove-nos enquanto passa, mesmo que essa comoção seja sem qualquer tipo de consolo.

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