Vasco Santos, da Fenda: «O actual panorama editorial é a miséria»

Tudo começou em Coimbra no final dos anos 70 com uma revista de nome estranho mas excitante: Fenda. Magazine Frenética. Chegaram depois os anos 80 e com eles João Bicker tomou conta do grafismo da editora e Júlio Henriques trouxe a referência situacionista que marcaria a Revista Pravda. No final da década Vasco Santos, o pai e gestor da criatura, mudou-se para Lisboa, ao contrário de João Bicker ou de Júlio Henriques, que optaram pela província. A Fenda acumulou então títulos e distinção, quer entre o público refractário, quer entre os apreciadores de clássicos bem encadernados. Tornou-se uma marca de água, e de felicidade, para os amantes dos livros que acrescentam ao mundo. Fomos por isso ouvir Vasco Santos e inteirar-nos do estado da Fenda. Agradecemos-lhe a disponibilidade manifestada para nos responder.

Com esta entrevista, Tantas Páginas inicia uma série de entrevistas a pessoas ligadas ao mundo do livro, num momento em que a própria expressão «mundo do livro» vai ganhando conotações algo nostálgicas.

PT. O que se passa com a Fenda? Está (en)cerrada?

V.S. Não passa nada. Fenda infinda. Estamos há trinta e três anos em crise. Estamos bem.

PT. Como definiria o público leitor da Fenda? E acha que ele cresceu ou encolheu ao longo destes anos todos?

V.S. O público da Fenda é o dos leitores trágicos, pouco eficientes, sonhadores. Ao longo destes anos encolheu, perdeu massa muscular e cabelo.

PT. Quando lançou a editora, em Coimbra, alguma vez pensou vir a ser um editor profissional, ou foi desde o início claro para si que a Fenda seria o seu «violon d’Ingres»?

V.S. Sim. Tive o sonho romântico de ser editor. E fui. E de súbito é noite.

PT. Nessa altura, quais eram os modelos de editor que elegia para aquilo que queria fazer com a Fenda?

V.S. Tinha vários. Na região: a & etc. e, antes, a Portugália, a Ulisseia, a Afrodite. E claro o Gaston, o Feltrinelli, o Ricci, o Calasso.

PT. A Fenda começou por eleger as suas figuras ente os teóricos do pós-estruturalismo, desde logo Barthes, para os «substituir» mais tarde, a partir dos anos 80, pelos situacionistas e libertários de vária proveniência. Se tivesse de escolher para uma Fenda «por vir»uma referência, entre o pensamento de hoje, ou o de sempre, qual seria ela?

V.S. A resposta é a infelicidade da pergunta, como afirmou Blanchot. Vou ali para o Kafka e para o Guy Debord.

PT. A Fenda sempre praticou uma política editorial singular, na qual os autores da tradição contestatária, mesmo dentro do marxismo, conviviam com os clássicos, ou um certo tipo de clássicos. No seu espírito não existiu nunca aí uma contradição?

V.S. Tem razão. A Fenda está atravessada por (belas) contradições. Gostamos de Séneca, Artaud ou Michaux no mesmo dia.

PT. A Fenda começou por publicar livrinhos dentro de uma tradição gráfica e tipográfica «alternativa» mas a certa altura editou livros de tipografia clássica e mesmo «de coleccionador». Na sua mente, a Fenda que sonhou seria uma editora mais próxima dos modelos de edição alternativa ou do luxo gráfico de certas editoras europeias de referência (a Franco Maria Ricci, por exemplo, ou a Siruela)?

V.S. O problema é que não sou filho da Duquesa d’Alba e não tenho um palácio em Milão. O nosso luxo foi sempre o mesmo: a coragem.

PT. A colaboração de João Bicker com a Fenda é um caso singular no panorama editorial português. Pode descrever e definir o papel dele na editora?

V.S. O papel do João Bicker tem sido fundamental. É a pele da editora. E a pele é o que temos de mais profundo. Estamos casados há muitos anos, o que é uma singularidade, para rapazes que não são loiros.

PT. Tem um iPad? E um Kindle? Como vê o futuro do livro em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?

V.S. Não. Mas tenho um arado. E um alambique móvel. A megamáquina já destruiu o livro em papel.

PT. Como vê fenómenos como a «associação» entre a Assírio & Alvim e a Porto Editora, a crise de editoras de perfil mais literário e exigente, ou a deslocação da edição de novos poetas para micro-editoras como a Mariposa Azual, a Averno, a Língua Morta ou a Tea for One?

V.S. Sempre fomos uma terra de fenómenos. Agora estamos todos no entroncamento. À espera.

PT. Como vê o actual panorama do mercado livreiro, da distribuição ao circuito de venda?

V.S. O actual panorama é a miséria.

PT. Como vê a situação da crítica de livros na imprensa hoje, e sobretudo que análise faz da evolução da situação desde os tempos iniciais da Fenda até aos dias de hoje?

V.S. Actualmente a literatura não interessa a ninguém. Nos anos setenta e oitenta ainda interessava. Os críticos (com uma ou outra excepção) não existem. Os intelectuais foram substituídos pelos economistas, contabilistas & contrabandistas. O capitalismo está bem.

PT. Das editoras surgidas na última década, há alguma cujo projecto lhe agrade particularmente?

V.S. Ando sem óculos. Gosto de livros da Averno, da Angelus Novus, da Orfeu Negro por exemplo. Da Bruaá.

PT. Pode eleger o top ten dos livros que mais gosto lhe deu editar até hoje?

V.S. Aqui vai um:

1. Fenda, Magazine Frenética e Revista Pravda (esta com Júlio Henriques)
2. Da miséria no meio estudantil e de alguns meios para a resolver
3. Alguns dos nossos melhores poetas são fascistas, Martin Kayman
4. Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo, Guy Debord
5. De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu, Jorge Sousa Braga
6. Beijinhos, Manuel da Silva Ramos e Alface
7. Ideias lebres, Ernesto Sampaio
8. A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer, Stig Dagerman
9. Novas impressões de África, Raymond Roussel
10. Obra quase incompleta, Alberto Pimenta
Ah… também publiquei o João Vário, o João Damasceno e o Giorgio Baffo. E o Manifesto de Unabomber

PT. Que livros, dos que tem «em carteira», lhe custaria realmente não vir a editar?

V.S. Vou editar os livros que penso editar. Mesmo sem carteira.

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