O cinema, segundo Eduardo Lourenço

Eu não sou da geração que nasceu com o cinema, mas quase. Nasci em 1923, num momento em que o cinema já tinha uma expressão muito importante (que era ainda o cinema mudo) e mesmo na aldeia quase incógnita onde eu nasci, vi pela primeira vez o cinema, teria talvez sete anos. É claro que as primeiras coisas que se veem deste género são uma espécie de revelação opaca. Eu não sabia bem o que estava a ver. Estava numa espécie de adega do senhor mais importante da minha terra. Tinham estendido um lençol no fundo da parede e de uma cabine manhosa, atrás do espectador, saía uma espécie de foco que projetava nesse lençol umas imagens que contavam, nada mais, nada menos, que a vida de Cristo. Mas a projeção devia ser de tal natureza – a não ser que fosse do próprio tecido do lençol – que eu só via riscos que atravessavam o personagem e atravessavam os diversos personagens da gesta evangélica. Então, eu tirei dali a conclusão de que durante toda a vida de Cristo tinha chovido sempre. Este foi o meu primeiro contacto com esse mundo, que mais tarde se tornaria o mundo mágico, realmente mágico, do cinema.

Eduardo Lourenço, «Imagens da América», in Asas sobre a América / Wings over America. Um Encontro Transatlântico entre Irmãos em Universo, Coorenação de Filipa Melo, Coimbra, Almedina, 2011, p. 19.

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