Bruaá: «Nós somos o caracol na beira da estrada que vê passar a corrida das grandes editoras»

Fundada em 2008 e com sede na Figueira da Foz, um saudável gesto de rebeldia face à macrocefalia lisboeta, a Bruaá Editora afirmou-se desde o início como um projecto marcante na área do livro infantil, assinalando, a par de alguns outros selos editoriais, a chegada da idade maior a esse segmento do mercado do livro em Portugal. Com uma produção ainda limitada em títulos, a Bruaá destacou-se pela escolha criteriosa dos livros, revelando autores de literatura infantil tão fundamentais como Shel Silverstein (autor aliás emblemático de uma simbiose profunda entre texto e ilustração) ou obras nas quais a questão da ilustração é indissociável da própria materialidade oficinal do objecto-livro, como nos casos de O livro negro das cores, de Menena Cottin e Rosana Faría, ou Na noite escura, de Bruno Munari. Com uma actividade repartida pela edição e pelo design, a Bruaá lançou-se mais recentemente na aventura de produzir os seus próprios títulos, combinando textos de referência – de Charles Cros e Daniil Harms – com ilustrações de autores portugueses e com formatos pensados para cada caso. Razões mais do que suficientes para ouvirmos Cláudia Lopes e Miguel Gouveia, o duo que vai justificando o bruaá que se ouve em torno dos livros da editora. Agradecemos a ambos a disponibilidade com que acederam ao nosso pedido de entrevista.

TP. Como descreveriam o vosso projecto editorial?

B. É um projecto independente, trabalhado por dois aprendizes do ofício, que se baseia fundamentalmente na edição de livros ditos infanto-juvenis e que tenta construir um catálogo diverso e com propostas alternativas que obedecem mais a um gosto pessoal do que a critérios puramente comerciais.

TP. Como definiriam o público-alvo da Bruaá?

B. Esse é um exercício bastante difícil. Sabemos que o que editamos se insere dentro do chamado âmbito infanto-juvenil, mas também sabemos que o adulto nunca sai de cena, nunca deixando a criança e o livro verdadeiramente a sós. A criança é sempre o último recipiente de um ciclo de criação, distribuição e escolha adulto. Adultos esses que, para além de carregarem um imaginário infantil e à medida que as propostas editoriais vão elevando as fasquia da qualidade e experimentação, acabam também eles por se tornarem no recipiente final. É de desconfiar quando alguém diz que escreve ou publica para idades entre x e y. Por isso, o nosso único alvo é a qualidade que procuramos num texto, numa ilustração e no design. O resto acontecerá algures entre os 8 os 80.

TP. O facto de a vossa empresa oferecer serviços de design, além da parte editorial, evidencia a centralidade das preocupações com o grafismo no vosso trabalho. Consideram-se mais editores ou mais designers gráficos?

B. Desde o início que o projecto se baseou na mescla dos saberes das duas pessoas que compõe a Bruaá. Sendo que apenas uma delas é designer (a Cláudia), a oferta de serviços de design aconteceu de forma natural, estabelecendo-se num percurso paralelo ao da edição, embora com inevitáveis pontos de contacto e contaminação.

TP. A reconfiguração do «livro infantil» a que editoras como a Bruaá vêm procedendo produz ou não uma alteração do comportamento visado por parte dos leitores/utilizadores? Ou seja, livros tão ostensivamente cuidados e de produção tão exigente não pedem cuidado e respeito da parte de quem os manuseia?

B. Pensamos que sim. A partir do momento em que conseguimos aceder a livros que contribuem para o enriquecimento da nossa percepção deste objecto e das suas potencialidades, seja ao nível de formatos menos convencionais, combinação de diferentes tipos de papel, ilustração, etc., estamos a contribuir para um reconfigurar da relação entre leitor e livro, a abrir mais portas para a sua apreciação e, em última análise, em tempos de senis profecias de extinção do livro, para a sua celebração.

TP. Conseguem distinguir, na produção da Bruaá, a parte de «livro infantil» e a de «livro ilustrado»? Aceitam a distinção? Podemos apoiar nela uma distinção etária dos públicos-alvo da editora?

B. É um pouco difícil… A ser feita uma distinção, pensamos que ela deve ser feita debaixo do grande chapéu do «livro infantil» onde se encontram os diferentes géneros de livros com imagens: Livros ilustrados, livros de actividades, livro-objecto, livros animados (pop-up), etc. No nosso caso, a maioria (se é que pode aplicar o termo num catálogo de 13 títulos) dos nossos livros apresenta as características do chamado “álbum”, onde a imagem é preponderante face ao texto e a narração é feita de forma articulada entre texto e ilustração, enquanto que no “livro ilustrado” é o texto que predomina e cujo sentido é independente da ilustração que o acompanha. Nesta categoria podemos talvez incluir apenas o livro de contos do Daniil Harms.

Quanto à distinção etária queremos acreditar que, independentemente das características específicas de cada livro, estamos a caminhar para um futuro em que propostas cada vez mais imaginativas e desafiadoras dos preconceitos face ao livro infantil, atenuarão distinções etárias, unindo adultos e crianças em volta de um objecto de qualidade.

TP. Será que podemos introduzir aqui ainda uma outra categoria, a da «literatura infantil»? A Bruaá tem mais a ver com uma ideia lata de «livro infantil» do que com uma, mais restrita, de «literatura infantil», ou não?

B. Talvez com uma ideia lata de «livro infantil»… Para responder à pergunta, seria necessário que existissem definições muito claras desses dois conceitos. No entanto, tanto a definição de «literatura infantil» como a de «livro infantil» dá pano para mangas e, como alguém disse, todos sabem o que são até ao momento em que se lhes pede uma definição. Nada é o que parece ser nesta galáxia, daí ser um campo de estudo fascinante, muito longe da visão simplista e paternalista que tantas vezes se tem.

TP. Dos livros mais recentes da Bruaá, aqueles que surgem nitidamente como projectos próprios da editora, por recurso a ilustradores portugueses (mas com texto de autores estrangeiros), já conseguiram «exportar» algum? No futuro, qual será a percentagem destes projectos no volume total de edição?

B. Por enquanto não houve exportações. Para que isso acontecesse seria necessária uma maior oferta de originais e uma presença mais assídua em feiras internacionais, coisa que não temos tido capacidade para fazer. No entanto, gostaríamos de trabalhar mais nesse sentido.

TP. Por que razão não editam ainda livros destes com texto de autores portugueses?

B. Apesar de algumas propostas mais tentadoras, e não estamos a falar das propostas que tivemos de apresentadores de televisão e demais gentes famosas, até agora não recebemos nenhum texto que nos arrebatasse ao ponto de o querermos imediatamente editar. Existem aí umas coisas em lume brando… Por outro lado, e como não temos possibilidades para editar tudo o que desejaríamos, essas propostas têm que ganhar o seu espaço nesta considerável, prioritária e ansiosa lista de espera de livros e autores que gostaríamos de editar.

TP. O nicho do «livro infantil» vem-se tornando dominante no mercado generalista, sobretudo no de perfil de «grande superfície» ou «grande rede», como é facilmente constatável numa visita a um hipermercado ou a uma FNAC. Desse ponto de vista, o risco num ramo de edição como o vosso não é consideravelmente atenuado pela dinâmica do mercado actual nessa área?

B. Existe uma dinâmica, mas é uma dinâmica ruidosa levada a cabo pela ditadura das novidades e pelo tal prazo de iogurte das mesmas em que só certas editoras conseguem participar. Nessa corrida não entramos. Nós somos o caracol na berma da estrada que os vê passar. É claro que no meio de quem assiste à corrida, há sempre alguém que repara em caracóis. E felizes da vida por haver quem pegue em nós. Não temos pressa de chegar a lado algum. Para além disso, o espírito das pequenas editoras nunca deve ser procurar o confortável, mas sim ser a pedra na engrenagem. Cabe-nos ir ao encontro do risco, porque não vão ser as grandes editoras que o farão. E se ninguém o fizer, continuaremos privados de obras e autores fundamentais.

TP. Nos últimos anos têm surgido livrarias que se dedicam apenas ao livro infantil, o que parece evidenciar a força deste segmento. Como vêem este fenómeno?

B. É um fenómeno natural que resulta deste crescente interesse no livro infanto-juvenil. Para além disso, são locais essenciais para quem procura aprofundar o seu conhecimento nesta área, tanto pela variedade de oferta, como pelo atendimento especializado.

TP. Qual a vossa opinião quanto ao acompanhamento que a imprensa de referência faz do livro infantil?

B. Muito deficiente. Embora isso aconteça no livro em geral. Os caracteres reservados para a crítica estão em constante contagem decrescente. Para além das publicações especializadas, com os seus cantinhos para o livro infantil, sobram-nos alguns blogues, esses sim, espaços de verdadeiro serviço público.

TP. Têm iPad? E Kindle? Como vêem o futuro do livro infantil em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata? Estão preparados para o e-book?

B. Não temos. No entanto, estamos conscientes das suas potencialidades e temos estado atentos ao que se passa. Muita coisa vai mudar, é certo, mas nada nos faz temer pelo futuro do livro, muito menos pelo infantil. Pelo contrário, este asséptico assalto digital só fará que daqui a uns tempos se assista a uma maior valorização do livro que se toca, cheira e que, no final de contas, se manteve igual a si próprio, ou seja, perfeito e insubstituível.

TP. No panorama português, para que outras editoras olham como «parceiras» da Bruaá na defesa da edição do livro infantil e do livro ilustrado de qualidade?

B. Orfeu Mini, Planeta Tangerina, Kalandraka, e outras mais recentes como a Bags of Books, Pato Lógico, Gato na Lua, etc.

TP. Que balanço fazem do Plano Nacional de Leitura na vossa área?

B. A nossa entrada no PNL, depois de alguns desencontros, dá-se no ano passado. O balanço é positivo. Embora tímidas, notam-se algumas vendas à conta dessa inclusão e, acima de tudo, sentimos que aumentam as possibilidades de podermos chegar a leitores que porventura ainda não nos conheçam.

TP. Podem eleger os três livros que mais gosto vos deu editar até ao momento?

B. Com o ritmo avassalador de 3 livros por ano, é fácil perceber que, pelo tempo que passamos com cada um, facilmente nos afeiçoamos a todos eles. No entanto, podemos escolher A árvore generosa, por ter inaugurado a aventura e porque era exactamente com ele que queríamos começar, Na noite escura porque era uma antiga paixão e da lavra de um autor fundamental para nós: o Bruno Munari. Por último, O arenque fumado por ter sido o primeiro original da casa.

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