Averno: «Nos últimos anos a poesia, e a literatura, perderam terreno. Isso não é uma catástrofe. A poesia dá-se bem em condições adversas»

Nascida em 2002, e com 59 títulos editados desde então, a Averno conquistou com esse escasso catálogo uma reputação assinalável na «linha da frente» da edição portuguesa de poesia. Elegendo algumas (poucas) referências entre os poetas portugueses de períodos anteriores, de António Manuel Couto Viana e António Barahona a João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães, a Averno distinguiu-se sobretudo por apostar num conjunto de poetas da nova geração: Rui Pires Cabral, Manuel de Freitas, José Miguel Silva, Vítor Nogueira e, mais recentemente, Miguel Martins, Renata Correia Botelho ou Diogo Vaz Pinto. Não descurando a edição de poetas em tradução, a editora singularizou-se, logo no seu início, pela edição da antologia Poetas sem Qualidades, responsável por um longo e polémico debate na cena poética e crítica portuguesa, e pela edição de uma revista de poesia e crítica, Telhados de Vidro, hoje no seu nº 15. Seguindo uma velha e sempre actual lição, a Averno tornou os seus livros reconhecíveis pelas opções gráficas assumidas, as quais, após algumas hesitações iniciais, estabilizaram, em grande medida por influência de Olímpio Ferreira, nas capas em kraft, na avareza no uso da cor e nos formatos «de bolso». Tudo a contra-corrente de um mercado cada vez mais rendido a cores, brilhos e relevos sem pertinência ou sentido. Não surpreende que a Averno se tenha tornado numa espécie de exemplo a seguir por todas as pequenas e dinâmicas editoras que vão preenchendo o espaço que as editoras tradicionais ocuparam, até há pouco, na edição de poesia.

Razões mais do que suficientes para irmos ouvir Inês Dias e Manuel de Freitas, o duo que assume a condução editorial da Averno. Agradecemos a ambos a disponibilidade revelada.

TP. Quantas pessoas constituem a Averno?

A. A Averno é constituída apenas por duas pessoas, no que respeita a decisões editoriais: Inês Dias e Manuel de Freitas. Porém, e desde o primeiro momento, tivemos o privilégio de contar com o apoio gráfico do Olímpio Ferreira, que soube dar um rosto sóbrio e original à editora. Após a morte do Olímpio, que por pouco não foi o fim de tudo no plano editorial, continuámos graças ao entusiasmo e à disponibilidade de pessoas como Pedro Serpa, Inês Mateus ou Diogo Vaz Pinto. De Braga, com enorme zelo, a Carla Gaspar vai-nos actualizando o blog. E há também os autores, os ilustradores, os impressores. O que, em rigor, nos permitiria dizer que a Averno é constituída por vinte ou mais pessoas essenciais para a feitura dos livros.

TP. Podem tentar descrever o público da Averno?

A. Não fazemos uma ideia precisa de qual seja o público da Averno, embora saibamos que temos leitores entre os vinte e os oitenta anos. Haverá certamente um pouco de tudo nesse público: leitores de poesia tout court, curiosos, coleccionadores de pequenas tiragens, alfarrabistas, etc. Conhecer melhor esse público é, aliás, uma das razões pelas quais gostamos de participar em actividades como as Feiras Laicas.

TP. Pelo volume residual de prosa que editam, podemos definir a Averno como uma editora de poesia?

A. Damos pouca importância a definições. Não é por acaso que a Telhados de Vidro, revista que publicamos desde 2003, se prefere furtar à questão do género; é tão-só uma revista onde se encontram espaçadamente determinadas vozes. Em última análise, olhando para o nosso pequeno catálogo, poderia dizer-se que Margaret Millar é tão poética como José Mateos. Nesse sentido, não é erróneo classificar a Averno como sendo uma editora de poesia. Mas a poesia, gostamos de acreditar, não acontece necessariamente em verso.

TP. Qual é o circuito de distribuição dos vossos livros?

A. Somos nós próprios que fazemos a distribuição, em cerca de vinte livrarias nacionais. A pé, de táxi, de boleia ou via postal.

TP. Qual é a tiragem média dos vossos livros?

A. A nossa tiragem média é de 300 exemplares. Em casos especiais (a Telhados de Vidro ou obras que implicam pagamento de direitos de autor) podemos chegar aos 500 exemplares. Mas nunca mais do que isso.

TP. O que é para a Averno um «sucesso editorial»?

A. O nosso único «sucesso editorial» terá sido Poetas sem Qualidades (2002), por motivos que desconhecemos. A edição esgotou em menos de dois meses. Mas é muito raro chegarmos assim tão rapidamente aos supostos 300 leitores assíduos de poesia que se convencionou haver em Portugal: no nosso catálogo, já com 59 publicações (entre os livros e os vários números da revista), só 12 títulos se encontram esgotados.

TP. Qual é a natureza da relação que mantêm com os vossos autores?

A. Com raríssimas excepções, se é que as há, os nossos autores são (ou tornaram-se) nossos amigos. Bebemos juntos, jantamos regularmente, dançamos a ouvir Squirrel Nut Zippers, cultivamos uma sadia promiscuidade boémia e literária.

TP. Quais eram os vossos modelos de editor quando apareceram?

A. Gostamos, inequivocamente, do editor interventivo, do editor-autor que acompanha vírgula a vírgula cada obra. Nesse aspecto, Vítor Silva Tavares terá sido um dos poucos modelos possíveis a referir. Mas, e já no que diz respeito à dignidade gráfica do livro, são também importantes os exemplos da Afrodite, da Contraponto, da Frenesi, da Fenda, da Hiena ou da Assírio & Alvim.

TP. A Averno parece funcionar para a actual vaga de pequenas editoras de poesia como a referência que, no panorama anterior, era desempenhada pela & etc. Como vêem esse actual panorama editorial e em que editoras das novas se revêem com mais agrado?

A. Não sobrevalorizemos a Averno, que nem dez anos de actividade editorial tem. Não conseguimos, de todo, ver-nos como uma «referência». Quanto a simpatias por pequenas editoras mais recentes, destacaríamos sem qualquer hesitação a Letra Livre, a Língua Morta, a Poesia Incompleta, a Oficina do Cego, a Tea for One.

TP. A Averno apareceu muito associada à afirmação de uma poética específica, a dos chamados «Poetas sem qualidades». Continuam a reivindicar essa poética ou acham que ela não descreve todos os autores que editam?

A. Como já vem sendo hábito entre nós, quase ninguém percebeu nada. Poetas sem Qualidades nunca pretendeu ser uma poética normativa ou um programa de sentido único. Era, sumariamente, um desabafo, pois já não havia (nem há) paciência para certa tardo-poesia fossilizada, seja ela de quem for. Olhando com um pouco de atenção para essa antologia, depressa percebemos que Rui Pires Cabral e Nuno Moura são tão parecidos como Gyia Kancheli e Steve Reich. Mais do que uma poética, inverificável, existirá uma ética comum (de António Barahona a Diogo Vaz Pinto, passando por Ana Paula Inácio ou Jorge Roque, entre tantos outros) que se traduz, em traços largos, por um desapreço pelo espectáculo grotesco em que se transformou o meio literário português.

TP. Como vêem a situação actual do livro de poesia, e mais latamente da literatura, no mercado actual?

A. Tornou-se evidente, nos últimos anos, a posição minoritária da poesia, e a literatura (em geral) foi perdendo terreno quer nas livrarias, quer nas críticas da imprensa. Isso não é uma catástrofe. A poesia dá-se bem em condições adversas, supera-se a si mesma.

TP. Os livros da Averno respeitam um programa tipográfico bastante reconhecível e estrito: formato pequeno, capa em kraft, preto e branco, colaboração com alguns ilustradores, ou seja, sobriedade e uma forma de «classicismo» alternativo. Trata-se de uma opção de gosto ou se tivessem outros meios encarariam fazer livros diferentes?

A. Fazemos os livros como efectivamente gostamos de fazer, privilegiando uma certa sobriedade. Se os meios fossem outros, as opções gráficas manter-se-iam.

TP. Do ponto de vista da tipografia actual, qual é a vossa fronteira? A impressão digital? O uso da cor?

A. Nós usamos cor, de quando em quando, quando nos apaixonamos por uma ideia que a exija. A tipografia digital, para já, não nos alicia muito. Fronteiras, em rigor, são apenas as da conta bancária e as da imaginação.

TP. Como vêem a recuperação da tipografia a chumbo, tal como a pratica entre nós, por exemplo, a Oficina do Cego? Já a ponderaram para os vossos livros?

A. Achamos extremamente salutar a recuperação da tipografia a chumbo, que outros países menos estultos souberam preservar e que em Portugal, quase sem excepção, passou a ser vista como uma velharia inútil. Consideramos, pois, extremamente valioso o surgimento de projectos como a Oficina do Cego ou a 50 Kg. Não é impossível que a Averno venha um dia a fazer uma edição nesses moldes, por exemplo em parceria com elementos da Oficina do Cego. Contudo, o nosso volume de edições, embora modesto se comparado com o de grandes e médias editoras, obriga-nos a recorrer ao offset.

TP. Têm um iPad? E um Kindle? Como vêem o futuro do livro em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?

A. Não temos nem iPad nem Kindle. Pelo menos na área da poesia, acreditamos que o livro em papel sobreviverá dignamente – e preciosamente – às revoluções tecnológicas em curso.

TP. Como vêem a situação da crítica de livros na imprensa hoje, e sobretudo que análise fazem da evolução da situação desde há uns dez anos até hoje?

A. É por demais evidente que a crítica de livros na imprensa sofreu uma rarefacção drástica, para não dizer criminosa. Os suplementos ditos literários renderam-se à tirania da imagem e ao lobby, não poucas vezes descarado, de certas grandes editoras que promovem ferozmente os seus produtos pseudo-literários. Essa situação agravou-se, de facto, nos últimos dez anos. Não nos surpreenderia que, a curto prazo, a crítica de livros na imprensa desaparecesse por completo. Mas haverá sempre outros canais, paralelos ou desalinhados, para o livre exercício da crítica.

TP. Podem eleger 5 dos livros que, por alguma razão particular, mais gostaram de editar até hoje?

A. Concedemos a todos os nossos livros um grau idêntico de entrega e de paixão. Seria injusto, portanto, destacarmos cinco livros dos quarenta e quatro que até aqui editámos.

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