Carlos de Oliveira no Museu do Neo-Realismo

[Texto lido no passado dia 11 de Fevereiro de 2012 no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira, aquando da cerimónia de assinatura do contrato de doação do espólio de Carlos de Oliveira ao museu]

É-me muito difícil dispensar uma nota pessoal no dia de hoje, atendendo ao motivo que aqui nos traz. Porque há, desde logo, uma pessoa que hoje aqui não pode estar, uma pessoa que contudo, para todos os que nalgum ponto do seu interesse pela obra de Carlos de Oliveira se cruzaram alguma vez com ela, está e estará sempre connosco quando falamos de Carlos de Oliveira: Ângela de Oliveira, renomeada como Gelnaa ou Anne Gall no interior dessa mesma obra e personagem maior dela, ou melhor, da sua própria edificação. Várias das pessoas que aqui estão hoje, e seguramente que muitas outras, sabem que para Ângela a questão do destino a dar ao espólio de Carlos de Oliveira foi uma obsessão alimentada desde o dia seguinte ao dia 1 de Julho de 1981. Ou melhor: uma missão a que se votou sem desfalecimentos, apesar das dificuldades que o mundo ergue, hoje e sempre, no caminho de quem busca preservar a memória daqueles que desejaram confundir o seu destino com o das palavras da tribo.

Nesta longa caminhada, Ângela pôde beneficiar da fortuna de contar a seu lado com duas sobrinhas que fizeram dessa missão um encargo também seu: Paula e Margarida Oliveira, hoje aqui presentes, e de cujo empenho desejo dar testemunho público. Para quem, como eu, se veio a relacionar com a família de Carlos de Oliveira a partir de uma prática de leitura crítica da obra, o amor, o carinho, o entusiasmo com que Paula e Margarida Oliveira sempre se referiram e referem à memória do tio, foram-me garantindo que, cedo ou tarde, o espólio do escritor seria entregue a uma instituição de confiança. Nem Ângela nem Paula ou Margarida admitiriam uma solução que não essa. O tempo longo que a solução levou a ser encontrada não se fica em nada a dever ao desinvestimento que estes processos desgastantes por vezes desencadeiam em quem neles se mete; pelo contrário, revela apenas a intransigência de Ângela, Paula e Margarida ante situações que não oferecessem as garantias desejadas.

Com o espólio de Carlos de Oliveira, cujo acto de formalização da doação se realiza neste dia 11 de Fevereiro de 2012, o Museu do Neo-Realismo, a vários títulos uma instituição exemplar, poderá enfim realizar em plenitude o programa que o seu director, David Santos, tem vindo a desenvolver com rara clarividência: antes de mais, resgatar, por meio de uma actuação museológica inteligente, o neo-realismo do olvido a que o devir da literatura e das artes o vêm votando, estabelecendo formas de diálogo entre o neo-realismo e as artes contemporâneas; e, em simultâneo, pensar o neo-realismo como um foco de tensões não-resolvidas e, por isso, abertas ao devir e à nossa capacidade de o lermos sem excessivos preconceitos (porque, francamente, leituras sem preconceitos só conheço a de Deus).

Em meu entender, ambos estes propósitos seriam de realização mais difícil sem a doação do espólio de Carlos de Oliveira ao museu. Acima de tudo, porque nenhuma outra obra do nosso neo-realismo questiona a sua própria temporalidade como esta. A mais de um título, a obra de Carlos de Oliveira distingue-se das de outros seus companheiros de geração por não estar refém do seu contexto e por, pelo contrário, gerar continuamente, no seu próprio devir histórico, ou melhor, no seu revisionismo insaciável, o seu próprio contexto, de dentro para fora, no que se afigura uma reflexão poderosa sobre a própria, e porventura informulável, noção de «contemporâneo». Há uma opacidade específica da obra de Carlos de Oliveira, que se traduz na resistência em defini-lo como neo-realista sem mais, um ponto que aliás suscita uma eterna, porventura inevitável, mas cansativa polémica crítica. Porque essa resistência é a resistência que Carlos de Oliveira inscreve na obra, não ao neo-realismo tout court, mas antes à ideia de transparência ou legibilidade do Agora. Como lembra o filósofo Ernst Bloch, «O agora move-se e desloca-se através de cada dia, sempre. Ele ressoa, na sua brevidade, em tudo o que acontece, e bate à porta. Mas nem todo o presente se abre para ele. Os impulsos realmente existentes, as energias sociais mais vivas, não ressoam de maneira fresca e vital em todo o presente. Nem todo o tempo se abre ao agora» [The Utopian Function of Art and Literature, MIT, 1988, p. 215]. A forma como Carlos de Oliveira gere este problema é estranhamente paradoxal e foi lida, mesmo no campo marxista, como anacrónica: recordemos sobretudo o quadro «oitocentista» («camiliano», segundo alguns) dos romances; mas recordemos ainda a tendência acrónica da poesia tardia, sobretudo na pulsão alegórica com que encena a longa duração do tempo natural e das revoluções do orbe celeste. Finalmente, recordemos a sua recusa em alterar as coordenadas espaciais e temporais do seu mundo, tal como as obras iniciais as fixaram para sempre, ao mesmo tempo que se lança numa longa e integral revisitação da própria obra. Há nitidamente um problema de tempo «fora dos eixos» em Carlos de Oliveira: um problema de cronologia interna, que a reescrita complica e adensa em camadas (que são contextos) não inteiramente sobreponíveis, um problema de legibilidade daquela «ponta do tempo histórico» que o marxismo acredita poder ler, ou ouvir, no Agora que bate à porta, um problema enfim que ganhamos em ler positivamente como um esforço para substituir a dialéctica marxista do típico, com a sua promessa de futuro, por um presente constelado, espesso e opaco. Um presente que interroga a sua temporalidade múltipla, de geometria e fundura variáveis, um presente que tanto se abre ao agora como prefere aguardar a sua próxima visita, e que, por isso, pode ser de algum modo ainda o nosso presente, isto é, pode ser nosso contemporâneo.

É esta modalidade de resistência da obra de Carlos de Oliveira, ou as inferências dela, que se manifesta nas reticências colocadas por vários dos seus leitores mais empenhados à doação do espólio ao Museu do Neo-Realismo. Não comungo de tais reticências, pois entendo que o neo-realismo é o pano de fundo – ou a tela cinematográfica – no qual a obra de Oliveira se projecta, embora não seja nem o seu único contexto nem o seu único tempo, como a evolução da obra, na sua estratégia de caranguejo e na teia de aranha obsessiva que foi tecendo, sem sair muito do mesmo sítio mas sem deixar de profundamente deslocar a própria noção de sítio, deixa perceber. Creio que Carlos de Oliveira nos permite revisitar o neo-realismo a partir de uma série de diálogos historicamente suspensos ou cancelados pelo movimento e pela sua crítica: com a arte moderna de teor mais experimental ou conceptual (abono-me a este respeito no caso maior do livro Micropaisagem, e sobretudo num poema como o dedicado a Malcolm Lowry, que parece vir tanto da poesia transmental russa como do Oulipo); com a arte política revisitada pelas modernas «críticas da representação», por exemplo no grande poema sobre a «Descrição da guerra em Guernica»; enfim, com o romance enquanto dispositivo cognitivo contaminado por outros dispositivos tipicamente modernos, com destaque para a Ciência – as ciências da natureza (da mineralogia mais micro até à astrofísica interrogando o cosmos), a genética, a psicologia das profundidades, e ainda a física e a química, sobretudo em Finisterra -, mas sem esquecer a filosofia da História e do Direito.

Inversamente, o neo-realismo, tal como o vejo hoje, permite lançar alguma luz sobre alguns dos aspectos mais opacos da obra de Oliveira, de que destacaria o difícil mas decisivo lugar da criança na sua obra e no seu imaginário poético e político (faço notar que o neo-realismo foi também uma literatura infantil, desde Soeiro Pereira Gomes, e depois, de forma mais codificada, enquanto «género», com Sidónio Muralha ou Redol, numa fase curiosamente tardia do movimento) ou a sua resistência a um imaginário, e a uma imaginação, de teor produtivista, produtivismo sempre presente nos subterrâneos da imaginação utópica da sua geração. Não sei se podemos dizer que Carlos de Oliveira e o Neo-Realismo se iluminam mutuamente: é mais provável que troquem entre si formas específicas de opacidade. Mas uma vez que a opacidade do Neo-Realismo hoje é a da sua excessiva legibilidade histórica, creio que se a obra de Carlos de Oliveira, ou aquilo que resultar do estudo do seu espólio, contribuir para tornar o neo-realismo um pouco mais ilegível, isso será um serviço que o neo-realismo só lhe poderá agradecer.

O Museu do Neo-Realismo contrai hoje uma dívida com a obra de Carlos de Oliveira que exigirá uma amortização longa. Em trabalho de catalogação, já começado, e de exposição, a realizar em seguida, em divulgação criteriosa e exigente, em criação de condições de estudo sistemático do espólio, já que, a uma primeira vista, ele é mais rico do que se poderia supor e permitirá que a obra do autor seja objecto de uma edição crítica integral. Além de que, para dar apenas um exemplo, o facto de Carlos de Oliveira coleccionar provas tipográficas de outros escritores seus contemporâneos, faz com que a edição da própria obra desses autores dependa a partir de agora da confrontação com os dactiloscritos que o espólio integra. E que vão de Gastão Cruz ou Fiama Hasse Pais Brandão a Herberto Helder ou Aquilino Ribeiro, entre vários outros. Desse ponto de vista, creio que o pior que poderia acontecer ao estudo e edição do espólio seria a sua atomização em publicações dispersas e sem um fio condutor.

Pelo contrato de doação do espólio, e seguindo uma cláusula comum a outros contratos de doação, o Museu do Neo-Realismo ficou obrigado à realização de uma exposição e catálogo sobre a obra do escritor, o que seguramente realizará com a proficiência usual. Gostava de informar que, pela sua parte, o Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, unidade de I&D da FCT, proporá em breve ao Museu a celebração de um protocolo para a constituição de uma equipa de investigadores cuja tarefa consistirá sobretudo na edição crítica da obra de Carlos de Oliveira e no estudo sistemático dos materiais que integram o espólio. Se me permitem a nota pessoal, que é também institucional, creio que assim procederemos ao regresso simbólico de Carlos de Oliveira à cidade que foi um dos focos históricos do movimento neo-realista. Não apenas a cidade, mas também a universidade, que frequentou juntamente com outros colegas de geração, em tempos e contextos que não convém de todo idealizar. Permitam-me pois que recorde, para terminar, a última estrofe da «Elegia de Coimbra»: «Aos que virão depois de mim / caiba em sorte outra herança: / o oiro depositado / nas margens da lembrança».

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