A infância, segundo Marguerite Yourcenar

Matthieu Galey ― Há, contudo, um elemento particular na sua infância: foi uma infância sem mãe. Essa falta pesou-lhe?

Marguerite Yourcenar ― Nem um pouco. Nunca, durante a minha infância, me foi mostrado um retrato da minha mãe. Só o vi quando tinha talvez uns trinta e cinco anos. Fui visitar a sua campa pela primeira vez quando já tinha uns cinquenta e cinco. Devo dizer que o meu pai estava sempre rodeado de mulheres. Portanto, devia haver muita gente para me fazer golas de bordado ingês ou para me oferecer bombons.

MG ― É, no entanto, a infância de uma menina solitária.

MY ― Até certo ponto. Ou era-o de forma intermitente, umas vezes solitária, outras rodeada de outras crianças, de pessoas na casa de quem o meu pai passava algumas temporadas. Mas solitária por momentos, apesar de tudo, sim, e penso que o hábito precoce da solidão é um bem infinito. Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. Ensina-nos também a amar mais os seres. Além disso, há um fundo de indiferença na criança que muito raramente é descrito. Não sei se as pessoas se sentem embaraçadas com o sentimento dessa indiferença, mas fico impressionada quando observo as crianças: vivem num mundo muito próprio. Tenho a sensação de que vivia, também eu, no meu mundo. Creio que os escritores, na sua maioria, mesmo os «sérios», que falam da infância, se enganam sempre. Vêem a criança do seu ponto de vista de adultos, ou fazem um esforço enorme para se colocar no lugar do que imaginam ser uma criança. Tudo isto é demasiado sistemático, está demasiado próximo das nossas próprias convenções. Julgo que a criança se orienta na vida de forma muito vaga, com a surpresa do animal jovem que vê ou encontra qualquer coisa pela primeira vez. As pessoas grande que a rodeiam, cuja identidade nem sempre é muito clara – uma dizem-lhe ser, ao que parece, o pai, que se chama «papá» (mas o que é para ela um pai?), outra a mãe, e a terceira a criada, a cozinheira ou o carteiro – são todas «pessoas grandes», que têm uma certa importância mas, ao mesmo tempo, não estão muito ligadas à criança nem à sua vida própria, aliás impenetrável para aquelas pessoas. Ninguém quer ver essas relações. Pretende-se que as crianças detestem os pais ou que os adorem. Na verdade, em nenhuma época eu «adorei» o meu pai, e parece-me que só bem tarde é que o amei verdadeiramente.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos. Conversas com Matthieu Galey, Lisboa, Relógio d’Água, 2011, pp. 23-24.

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