André Tavares, da Dafne Editora: «Seremos sempre uma ‘editora de vão de escada’, da nossa escada que é uma escada desenhada por arquitectos»

Com aparição pública datada de 2004, a Dafne Editora é o exemplo de como a opção por uma área de especialização – a arquitectura – pode funcionar como imagem de marca e alavanca de um projecto editorial exigente e em desenvolvimento sustentável. De facto, sem nunca abandonar a sua área de referência (o site apresenta, por baixo do nome da editora, a indicação «Livros de Arquitectura»), a Dafne vem constituindo um catálogo relevante, sabendo alargá-lo para áreas limítrofes – o urbanismo, o design, a museologia, a estética – sem nunca perder o pé ou se lançar em expansões suicidas, num momento em que o mercado se alimenta de produtos «hiper-rotativos» e, por isso, de uma desoladora banalidade. Resistindo às solicitações do fácil e do estridente, a Dafne pratica ainda uma linha gráfica cuja sobriedade, na qual se pode talvez ler o legado da «Escola do Porto», tem um valor que no contexto actual é não só pedagógico como, convenhamos, terapêutico.

Razões mais do que convincentes para, na sequência das entrevistas que vimos fazendo a agentes do mundo do livro, ouvirmos André Tavares, o responsável principal pela editora. Agradecemos a sua disponibilidade.

TP. A Dafne define-se como «editora de arquitectura» mas a verdade é que o seu catálogo se tem vindo a alargar para a Museologia e Estética. Pode definir o projecto editorial da Dafne? Qual é de facto o vosso público-alvo?

AT. Nós não temos como objectivo atingir ninguém, nem imaginamos o leitor como um alvo a abater. Começámos com uma colecção de História da Arquitectura e fomos entendendo que era fundamental abrir o leque de temas para que os livros pudessem chegar a mais leitores. O nosso primeiro livro da colecção Equações foi um texto de artes plásticas, do António Olaio sobre o Marcel Duchamp. Naquela altura escrevemos que queríamos encontrar relações entre a arquitectura e universos paralelos, relações que são constantes e intermináveis. Mas naturalmente acabámos por nos centrar naquilo que sabemos e conhecemos melhor, que são os assuntos da arquitectura.

O ‘livro dos museus’ do João Brigola ou a colecção Imago foram oportunidades que apareceram ao longo do caminho e que nos pareceram muito oportunas, quer pelas condições que tínhamos para editar, no caso de uma parceria com o CHAIA da Universidade de Évora, ou pela hipótese de fazer chegar os livros da Dafne a um público que em geral é completamente surdo em matérias que fujam do mainstream. Creio que ambas as edições correram bem, e esperamos que haja outras hipóteses para acompanhar os nossos livros de arquitectura com outros livros que partilhem afinidades com eles.

 

TP. A escolha da arquitectura como centro do trabalho editorial da Dafne é uma questão de formação profissional?

AT. É. A Dafne foi uma invenção do meu pai, que também é arquitecto e que queria publicar as suas Sebentas de História. Não somos editores nem é um mundo que nos entusiasme particularmente. Só que adoramos livros. E em 2003, quando ele percebeu que não era simples encontrar uma editora para publicar o plano editorial que tinha em mente, resolver avançar por própria conta e risco.

Isto explica o interesse disciplinar da editora que nunca teve como ambição atingir as metas comerciais que a maior parte das editoras impõe aos seus livros. Ou seja, somos arquitectos e é a cultura arquitectónica que nos interessa.

Naturalmente, à medida que o tempo vai passando, vamos ficando mais familiarizados com o mundo editorial e aquilo que no início era uma paixão de leitor passou a ser uma relação mais complexa com o mundo do livro. Mas, pela nossa formação, não é uma relação mercenária. O que nos interessa são de facto os livros, a sua forma física e o seu potencial como instrumentos de cultura, tal como a arquitectura também tem como destino a construção de formas físicas que são instrumentos de cultura.

TP. Quantos livros edita em média por ano a Dafne?

AT. À excepção dos Opúsculos, que editámos 26 em 4 anos, já publicámos 39 livros em 8 anos. O que dá uma média de quase 8 livros. Creio que o ideal seria publicarmos 4 ou 5 livros por ano. Mas, no nosso contexto, é muito difícil estabelecer um plano editorial seguro, excepto para a colecção das Sebentas que, para além de ser a base da nossa editora, tem publicado regularmente 2 livros por ano.

TP. A Dafne recorre a patrocínios de empresas para as suas edições? De que modo é que a crise afecta esse apoio, que para certos livros, mais pesados do ponto de vista do investimento, se pode revelar indispensável?

AT. Não conseguimos recorrer tanto a patrocínios quanto gostaríamos. É óbvio que os nossos livros não são comercialmente viáveis. As editoras de arquitectura que publicam este género de livros na Holanda, em Inglaterra ou nos Estados Unidos têm formas de financiamento através de instituições que entendem que o investimento na cultura é uma mais valia com retornos noutras áreas. Infelizmente cá esses apoios escasseiam e, no campo da arquitectura, estão muito voltados para as monografias de autor e livros que promovem directamente materiais, obras, soluções de projecto.

Por isso, como nunca fomos muito habilidosos em recorrer a esses apoios, a crise não nos afecta particularmente. O nosso maior apoio são os leitores. Por exemplo, para o livro do Álvaro Domingues que vamos agora publicar em Março, com 320 páginas todas a cores, pedimos aos leitores para nos adquirirem directamente e antecipadamente os livros. Estávamos com muito receio, porque precisávamos de 500 subscritores e o processo exige obviamente uma grande confiança. E ficámos muito felizes por saber que temos essa confiança, que há um público que aprecia e quer ler os livros que publicamos. E que é esse público que tem força como colectivo para legitimar as nossas edições e não uma marca de sanitas ou uma Secretaria de Estado de um Estado falido.

TP. Quais são os maiores problemas de uma editora com o perfil e dimensão da Dafne no mercado actual, sobretudo na distribuição e circuito de venda?

AT. O maior problema é a incompetência.

Mas prefiro falar do que nos permite e faz continuar a publicar. Felizmente trabalhamos com muitas pessoas empenhadas e competentes, a começar pelos leitores. Temos estabelecido relações de trabalho excelentes com designers excelentes – com o João Leão dos Gráficos de Futuro, com o Manuel Granja e a Susana Lourenço Marques, com os R2, o João Faria e o João Guedes da Drop, com o João Bicker da FBA, o Andrew Howard e Pedro Nora, com o André Macedo e outras pessoas que colaboram nos ateliers de design com quem trabalhamos. É através deles, com eles, que vamos aprendendo a construir livros como quem constrói edifícios. E são eles quem nos dá confiança para trabalhar com autores com quem também aprendemos muito.

Há uma falta de hábito tremenda para editar textos e transformá-los em livro e, em geral, esse processo de relação com os autores é muito enriquecedor. Para nós e imagino que também para os autores. E essa relação prolonga-se na selecção e tratamento dos conteúdos, com os fotógrafos, com arquivistas, com bibliotecários.

Ou seja, o processo de construção de um livro transforma-se num trabalho colectivo muito gratificante. Há um outro momento chave que é a impressão, onde também se aprende muito. Mas é muito difícil porque as tipografias não podem ter o género de independência que nós temos e estão sujeitas a um meio editorial que é auto-destrutivo. Felizmente temos tido muita sorte na relação com a Norprint e os livros têm ganho com isso.

E há também algumas (poucas) livrarias que são muito carinhosas com os livros, também aprendemos com eles e através dos livreiros conseguimos criar uma boa relação com os leitores.

Mas depois há uma dose de incompetência generalizada que envolve este cenário. A maior parte das livrarias, sobretudo com a autofagia editorial que tem grassado nos últimos tempos, tem primado pela ineficácia na criação de vínculos na cadeia entre autor e leitor. Há livreiros que não conhecem os livros, que dizem que estão esgotados apenas porque não os conhecem, que recebem o dinheiro dos leitores e não pagam a parte devida aos editores, etc.

Há também uma incompetência (ou ausência) assustadora nas instituições que deveriam apoiar a edição e os editores, e nem me refiro à ausência de apoios financeiros. Embora aqui o impacto seja menor, na medida em que essas ausências e incompetência apenas limitem a nossa actividade, em vez de a promover. Por exemplo, tentámos, sem sucesso, oferecer livros à Rede Nacional de Bibliotecas. Imagino que muitos leitores pudessem ter beneficiado dessa oferta, mas não conseguimos ter resposta da DGLB.

TP. Existe um circuito de venda específico da arquitectura (Faculdades, associações de arquitectos)? O facto de o mundo da arquitectura, como é visível logo nos estudantes universitários, ter em geral um nível socio-económico acima da média, ajuda à sobrevivência de uma editora como a Dafne?

AT. Sim, há um conjunto de livrarias onde se encontram os livros de arquitectura e, é sobretudo nessas livrarias que se encontram os nossos leitores mais fiéis. Quanto ao nível sócio-económico dos estudantes de arquitectura, confesso que não sei se é acima da média, ou abaixo da média. Mas sei três coisas. Que a crise está a afectar profundamente a arquitectura e os arquitectos. Que há muitos arquitectos sem trabalho e no desemprego. Que a maioria dos jovens arquitectos recém-licenciados, e em geral os melhores, estão a emigrar.

Esse cenário sente-se naturalmente no número de exemplares vendidos, tanto mais que, apesar de imaginarmos que isso seria possível, não são os estudantes quem compra os nossos livros. Os estudantes, em geral, preferem fotocópias ou copiar-colar directamente a partir de páginas internet. E creio que os professores também preferem que eles assim o façam. Há um nível de iliteracia muito grande nas universidades, onde os nossos livros encontrariam um público natural.

Mas há um universo próprio para os livros de arquitectura. Sempre houve, desde a invenção da imprensa. E é nesse universo que nos queremos inscrever. Apesar de trazer vantagens de especificidade (os livros são tolerados por serem ‘específicos’) também traz muitas desvantagens. A principal é que esse universo, em Portugal, tem muito poucos leitores. E é muito difícil conceber livros que sejam economicamente viáveis a pensar exclusivamente nesse universo.

 

TP. O que é para si um «sucesso editorial»? Qual foi o livro mais vendido da Dafne?

AT. Creio que uma pergunta não tem nada a ver com outra. O livro mais vendido da Dafne foi A Rua da Estrada, do Álvaro Domingues, já com mais de 2.000 exemplares vendidos. E esse livro foi um sucesso, mas o sucesso do livro não tem que ver exclusivamente com as suas vendas.

Um exemplo foi o livro que fizemos sobre a Casa de Caminha do Sergio Fernandez, Só nós e Santa Tecla. Havia e há uma casa pela qual existe uma estima muito particular entre alguns arquitectos, por várias razões. Creio que ao recolher um conjunto de textos, de fotografias, de materiais de arquivo, que depois publicámos sob a forma de uma pequena monografia, conseguimos fixar uma visão muito particular, sobre uma obra muito particular e que faz parte da nossa cultura arquitectónica. O livro ainda não se pagou, mas é um dos nossos maiores sucessos, acarinhado por muitos leitores que se identificaram com o livro e com a cultura arquitectónica que lhe está subjacente. Assim, com o livro, aquela forma de pensar o mundo ganhou mais um espaço e mais uma forma de circulação. Isso é um «sucesso editorial».

TP. A Dafne será sempre uma editora «temática», com um trabalho reconhecível numa área (arquitectura, design, artes) ou admite a sua expansão para áreas mais generalistas? Vê-se a editar romance ou literatura infantil, à maneira do que aconteceu com uma editora inicialmente apenas de artes, e tão singular, como a brasileira Cosac Naify?

AT. Adoraria editar um romance ou um livro infantil. Aliás, já chegámos a equacionar a segunda hipótese. Mas será sempre uma «editora de vão de escada», da nossa escada que é uma escada desenhada por arquitectos. A Cosac Naify é um gigante editorial numa cidade gigante.

Nós gostávamos de crescer ao ponto de o trabalho que temos desenvolvido poder conquistar alguma independência, de podermos viver desse trabalho e continuar a editar o que acreditamos que vale a pena ser editado. Isso não é fácil, mas seguramente não passa por entrar concorrencialmente num campeonato que tem outros objectivos e outras ambições claramente diferentes das nossas.

TP. Quando começou a editar, quais eram os seus modelos de editora eleitos, cá dentro ou lá fora?

AT. Creio que no início havia dois ou três modelos fundamentais.

Um foi a experiência editorial da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto entre 1995 e 2005, liderada com grande sucesso pelo arquitecto Manuel Mendes (e que infelizmente tem vindo a ser paulatinamente destruída pelos seus vários sucessores). O rigor gráfico, a selecção criteriosa dos conteúdos, o carinho pelo livro como objecto e a rede de contactos ao nível do design, da impressão e da possível distribuição decorreram dessa experiência.

O segundo modelo imagino que foram as edições da Gustavo Gili nos anos 70. Lembro-me delas na biblioteca do meu pai como sendo um pilar fundamental da cultura arquitectónica que existia naquela casa. Creio que, em grande parte, foram essas edições, a sua regularidade e acessibilidade cá em Portugal, que permitiram o sucesso da arquitectura portuguesa nos anos 80, inscrita com grande solidez num plano de debate e de cultura arquitectónica internacional.

O terceiro modelo foram, surpreendentemente, os livros da Taschen e as colecções de Domingo nos jornais de grande tiragem. Livros económicos e sem grandes pretensões mas simultaneamente muito estáveis e de grande acessibilidade. Se não era possível usar as ilustrações envernizadas e estaladiças que essas edições ainda promovem, era contudo possível fazer textos com uma qualidade invejável que não existiam de maneira óbvia nessas colecções.

É verdade que há editoras que nos deixam com grande inveja. Lembro-me precisamente dos extraordinários livros da Fenda, ou da regularidade e persistência da &etc. Mas ao pensarmos os nossos livros e a nossa posição creio que sempre nos regemos pela ‘medida do possível’, mais do que por um modelo a emular. Ou seja, os nossos livros são em grande parte os livros possíveis no nosso contexto.

TP. Os livros da Dafne seguem um «programa» gráfico muito reconhecível. Trata-se de um aspecto importante para si? Quem é o responsável por esse trabalho, na editora?

Esse aspecto foi desde o início muito importante. Primeiro, porque foram os designers que já referi quem nos ensinou a construir livros, depois porque acreditámos desde o início que era fundamental criar essa estrutura para disciplinar a nossa própria ambição. Ou seja, perante conteúdos extraordinários, temos logo a ambição de fazer um livro extraordinário. Aliás, essa talvez fosse a estratégia mais adequada. Mas se assim fosse, creio que dificilmente teríamos livros, porque as dificuldades a cada ponto seriam inultrapassáveis. O facto de fazermos os livros, aparentemente, uns iguais aos outros, ajuda-nos a ultrapassar inúmeros obstáculos. Por exemplo, o facto de termos um formato único simplifica-nos a logística da distribuição. A segunda questão tem a ver com o modelo de colecção que também já referi. Os livros, em vez de se perderem na amálgama das prateleiras, começam a construir uma família, a estabelecer relações entre eles, etc.

Essa unidade gráfica tem sido essencial para, com poucos livros cada ano, conseguirmos ser conhecidos nas livrarias e criar uma chancela editorial com presença. Começámos agora outra colecção, Fora de série, porque em determinado momento sentimos que aquele formato não era o mais eficaz para outros conteúdos que também queríamos publicar.

Eu tenho mais ou menos feito o papel de ‘mau da fita’ nesse controle editorial, porque os designers com que trabalhamos são autores com um trabalho próprio também ele muito forte e identificável. Mas como são pessoas inteligentes creio que o resultado tem sido muito enriquecedor. É incrível, por entre os vários títulos das Equações de Arquitectura, que parecem ter saído todos da mesma forma, se podem reconhecer as idiossincrasias de sete designers diferentes (na tipografia que escolhem, nos entrelinhamentos, nos alinhamentos de imagens, na posição dos cabeçalhos e números de página, etc.).

TP. Das editoras surgidas em Portugal depois da Dafne, há alguma que siga com particular interesse?

AT. Depois da Dafne? A pergunta pressupõe uma ideia de modelo que a Dafne nunca teve, nem me parece que venha a ter. As condicionantes e o contexto com que trabalhamos são tão específicos que não me parece que seja modelo para ninguém.

Há algumas editoras portuguesas que sigo com interesse e curiosidade editorial, mas também não me parece que possam servir de modelo ou que tenham pontos de comparação com o trabalho que nós fazemos. Não nos quero por de parte do mundo editorial português, de maneira nenhuma, mas confesso que sigo com mais interesse o percurso de editoras estrangeiras, talvez por ser um leitor compulsivo de arquitectura e preferir ler romances na língua original. Creio que por cá a Tinta-da-China, a Planeta Tangerina, ou a Ahab são alguns bons exemplos de como construir uma bela família de livros, em que os livros não valem apenas pelo seu conteúdo mas também pelo universo em que se filiam, universo esse que respeita o livro como uma coisa valiosa, com características físicas muito próprias.

TP. Tem um iPad? E um Kindle? Como vê o futuro do livro em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?

AT. O que é que o futuro do livro de papel tem que ver com o facto de eu ter ou não ter um iPad ou um Kindle? E o que é que ambas estas coisas têm que ver com a ‘revolução digital’? E sobretudo, o que é que a pirataria tem a ver com qualquer uma destas coisas? Vamos por partes.

Em primeiro lugar, a questão ‘digital’. Há um mundo de possibilidades tecnológicas que se tem vindo a abrir e que oferecem excelentes soluções de comunicação e publicação de conteúdos. Em boa verdade, no campo do livro, a maior parte da produção de conteúdos para esses suportes parece emular as práticas editoriais e formais que decorrem de outras tecnologias, nomeadamente a imprensa. Isso tem algumas vantagens, por exemplo, imaginem-se as toneladas de papel que não se poupam, e o seu respectivo espaço em bibliotecas, quando se podem transformar as actas de um congresso em PDF’s facilmente acessíveis através de bases de dados partilhadas. Ou, como tem sido evidente, a possibilidade de construir enciclopédias e dicionários de actualização constante. Para o campo da arquitectura a publicação digital oferece e sugere muitas soluções de representação que estão completamente fora de hipótese no formato impresso. A integração de vídeo é talvez a mais óbvia, mas o que parece ser mais relevante são as possibilidades de articulação de conteúdos numa rede mais complexa e mais directa do que a sequência de paginação de um livro. Mas o que é óbvio é que está em causa uma tecnologia de produção distinta, com agentes diferentes, que apela a outros saberes, que envolve outros actores. Ou seja, se há pontos de ligação entre os dois mundos, chamemos por comodidade o ‘mundo de papel’ e o ‘mundo digital’, há mais pontos que os separam do que aqueles que os unem. Enquanto o ‘mundo digital tentar emular o mundo de papel, pouca diferença fará. Será eventualmente mais proveitoso economicamente, um ou outro lado, nunca se sabe. O que aguardo com expectativa é o momento em que o ‘mundo digital’ consiga fornecer formas de representação que, de facto, constituam uma novidade e ofereçam novas possibilidades de construir conhecimento.

Quanto à questão da pirataria, só por ignorância se pode desvalorizar ou ignorar a importância fundamental da pirataria no mundo editorial. A pirataria não tem nada a ver com uma ascensão do ‘mundo digital’ sobre o ‘mundo de papel’ e, em ambos os cenários, é uma prática que sempre existiu, uma prática que amplia e expande o campo de acção e circulação dos conteúdos editoriais e que é francamente positiva.

Basta pensar que a grande circulação gerada pela pirataria tende a valorizar as peças originais, sobretudo quando o valor material e as qualidades específicas de uma edição original são sensíveis, ao tacto, ao olhar. Se estamos a falar de livros a presença da pirataria é tão velha quanto o próprio livro, não tem nada a ver com a ascensão do mundo digital.

O que creio estar a comprometer o futuro económico do livro de papel é o desmantelamento de um sistema de relações estável entre autor e leitor. A gestão digital da logística, que traz vantagens incalculáveis na gestão de lojas e na circulação de livros, tem sido aproveitada da pior maneira, desqualificando o livreiro e, assim, aniquilando uma figura cujo conhecimento – do livro e do leitor –foi essencial desde a generalização da imprensa. E não é o comércio online que o está a aniquilar; um bom livreiro sabe gerir esse conhecimento e o tirar melhor partido das ferramentas que estão à sua disposição. O que o está a aniquilar o livreiro é a barbárie e tirania do livro concebido como um objecto exclusivamente económico. Para esse objecto o conhecimento do livreiro é relativamente indiferente. Se o mercado editorial se concentra nessa frente (como parece ter concentrado), pode parecer que não vai aniquilar directamente o livro como objecto, mas corre o risco de aniquilar uma figura fundamental para a existência do livro. Mas, mais uma vez, não é o ‘mundo digital’ que está a provocar isso, é a ambição especulativa.

Perante isto, cabe perguntar quem é o pirata bom e o pirata mau? Creio que o pirata bom é quem copia, divulga, conhece, faz conhecer e usa o conhecimento que os autores comunicam sob a forma de livros, mesmo que não pague directamente ao autor e a quem trabalhou nos conteúdos aquilo que seria suposto pagar. E creio que o pirata mau é aquele que julga que basta pagar 1 para, especulando à custa de um mercado protegido de forma autoritária, conseguir ganhar 2, sem ter em conta qual o verdadeiro valor intelectual e cultural da mercadoria que está a negociar.

TP. Pode eleger os 5 títulos que lhe deu mais gosto editar? Ou, se preferir, aqueles que, de uma forma ou de outra, foram decisivos para a afirmação da Dafne?

AT. Creio que não, que não consigo eleger uns em detrimento de outros. Com cada livro aprendi coisas muito diferentes e cada um me deu uma alegria muito especial quando finalmente consegui pegar no objecto impresso. Sejam livros que tenha editado na Dafne sejam livros que tenha editado noutros contextos.

Para a Dafne, houve livros decisivos, mas isso não tem a ver com o prazer que deram na edição. Os primeiros livros de cada colecção são sempre decisivos, porque estabelecem um padrão de referência. As primeiras Sebentas foram absolutamente determinantes. A Rua da Estrada deu à Dafne uma outra presença no nosso contexto. O livro que agora publicámos sobre o Eduardo Souto de Moura está a ter uma repercussão internacional que abre algumas expectativas sobre o futuro da Dafne. Enfim, cada livro é uma aventura inesquecível e, como objecto, guarda as marcas dessa aventura e consegue oferecer aos leitores hipóteses para outras histórias e caminhos. É esse prazer que nos faz continuar.

 

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