A vida material, segundo Marguerite Yourcenar

Matthieu Galey ― Como é que você vivia? Não tinha preocupações materiais?

Marguerite Yourcenar ― Não, nenhumas. Contei tudo isso em Arquivos do Norte. Era um capítulo um pouco embaraçoso, é sempre embaraçoso falar de dinheiro. O meu pai não me tinha deixado nada. Devo explicar que a fortuna legada pela minha mãe tinha sido mal gerida, não pelo meu pai mas por outros. Por isso, com aquilo que me restava, pensei simplesmente: gastemos. Depois há-de se ver. A questão material não se colocava. Gastava livremente, às vezes tinha mais dinheiro, outras vezes menos. E felicito-me por isso. Considero que foi uma sorte ter tido essa liberdade absoluta durante uns tempos. Podia ter corrido mal, se durasse muito mais tempo, porque se torna uma facilidade, mas, como a guerra a interrompeu, foi bom, foi uma experiência que ficou feita, de uma vez por todas.

É um privilégio, mas que se pode obter sem grandes fortunas. Vejo-o frequentemente no seio do que chamamos o povo. Querer assegurar o futuro é um ponto de vista burguês. Na verdade, não asseguramos absolutamente nada, não fazemos ideia do que será o futuro. Vi há pouco tempo o caso de uma família modesta, que corria o risco de perder tudo por causa de uma série de hipotecas e de dívidas, cujos juros não podia pagar. Bom, fiquei impressionada ao ver até que ponto aquele homem e aquela mulher, o pai e a mãe, estavam dispostos a fazer o que quer que fosse, dizendo: «Torno-me empregada de um restaurante; vou trabalhar como jardineiro, ou como pintor da construção, se não conseguir ser jardineiro. E, se não pudermos ficar aqui, vamos para outro lado.» É uma forma de liberdade. Admirava-os, eram livres.

MG ― E o trabalho, também é uma forma de liberdade?

MY ― Sim, quando se consegue aceitá-lo com essa simplicidade. O que eu considero uma forma de servidão é o infeliz, quer ganhe cento e cinquenta mil dólares como director ou dez mil como empregado, que treme com a ideia de deixar a fábrica, mesmo que esteja envenenada pela poluição, ou que produza objectos perigosos ou estupidamente inúteis, porque tem pânico de perder os seus benefícios e a sua reforma. Isso é escravatura, pois este homem não ousa protestar, aconteça o que acontecer. Já nem pode protestar por razões impessoais, políticas ou sociais, é escravo de uma «situação».

Pela minha parte, na escolha entre segurança e liberdade optei sempre pela liberdade. Além disso, é muito forte em mim o horror da posse, o horror da aquisição, da avidez, do sentimento de que o êxito consiste na acumulação de dinheiro.

Marguerite Yourcenar, De Olhos Abertos. Conversas com Matthieu Galey, Lisboa, Relógio d’Água, 2011, pp. 81-82.

Anúncios