Adriano Scandolara: mais um louco por Joyce

Como é traduzir James Joyce?

Difícil, mas divertido (divertícil, pra ser um joyceano pedante). Digo, não sei o restante da obra de Joyce (imagino que o Ulisses, por exemplo, seja mais difícil e trabalhoso do que divertido), mas o Finnegans Wake é algo tão lúdico que a tradução, para mim, vira menos um ato de erudição e adequação a formas, normas ou outros tipos de expectativas, quanto me parece um ato de associação, algo livre, de conceitos, ideias, imagens e sons. O FW mesmo parece que encoraja isso… aí, na hora de traduzir, eu acabei me orientando menos pelo tanto de sentidos a serem enfiados no texto do que pelo ritmo. É óbvio que eles são importantes também – vide as referências bíblicas nos parágrafos segundo e quinto, ou as referências bélicas no quarto, que não devem ser descartadas pelo tradutor – mas eu não me recrimino de perder alguma referência mais obscura se for para deixar o texto com uma sonoridade melhor. Joyce, apesar de romancista, acredito que se aproxima muito da poesia, no FW, e o resultado é um texto que soa especialmente bonito quando lido, e seria uma pena perder isso na tradução.

Chama-se Adriano Scandolara e venceu há alguns meses o Concurso de Tradução Bloomsday, em boa hora criado pela Ateliê Editorial, a editora paulista que publicou, em cinco volumes, a tradução do Finnegans Wake para português, por Donaldo Schüler, uma obra que é além do mais uma preciosidade tipográfica. O concurso consistia em traduzir o trecho inicial do capítulo I da obra. Vale a pena ler toda a entrevista com o jovem premiado. E ler, já agora, a sua tradução. Porque Blooomsday é quando um homem quiser…

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