Paulo Franchetti: o Brasil, Portugal e o Acordo Ortográfico

Paulo Franchetti deu-nos há dias uma longa entrevista, na sua condição de director da Editora da Unicamp, na qual se pronunciava, entre muitas outras coisas, sobre o acordo ortográfico. As suas palavras tiveram grande eco nas duas margens do Atlântico. Franchetti acaba de prestar um depoimento a uma página contra o acordo ortográfico no Facebook. O depoimento clarifica a sua posição nalguns pontos, razão pela qual o reproduzimos aqui, a título de Post Scriptum à entrevista de há dias.

Tenho visto na imprensa portuguesa que muita gente em Portugal ataca o Acordo Ortográfico por acreditar que seja uma manobra imperialista do Brasil para penetrar no mercado português do livro. Quanta ingenuidade! O AO é de fato imperialista, mas por outro motivo. Não é o mercado português do livro que importa ao Brasil. Ele é muito pequeno e saturado e tem pouca ou nenhuma perspectiva de crescimento. Já o do Brasil é imenso, crescente e ainda não atendido. A prova é que não são as editoras brasileiras que se estão estabelecendo em Portugal; são as portuguesas que vêm sofregamente instalar-se aqui. O verdadeiro objetivo do AO parece sempre ter sido um só: o mercado interno brasileiro de livros didáticos e paradidáticos. Portugal entrou no AO como mero argumento: a história da unificação da língua escrita (que o AO na verdade não promove) como passo para a inclusão do português como língua oficial da ONU, as proclamações pouco substanciais que resultaram das tantas reuniões jantantes da lusofonia – tudo isso era cortina de fumaça. O que importava mesmo, desde o princípio, era fazer uma reforma ortográfica no Brasil, para uso e abuso interno. Tanto que o AO foi aprovado e implementado a poder de lei no Brasil, unilateralmente. Desde a implementação, o governo brasileiro não compra um só exemplar de livro que não esteja de acordo com a nova ortografia: esse é o x da questão. O resto é discurso para inglês ver. Tanto que, neste momento, não vejo ninguém preocupado, aqui, com a adesão ou renúncia de Lisboa ao AO. O objetivo já foi atingido – a um custo social enorme para a sociedade brasileira, nunca é demais repetir. Os países africanos dão mostra de terem percebido o engodo. Eles, que poderiam ser um benefício adicional ao AO, do ponto de vista brasileiro. Tomara que se mantenham firmes e não adiram. Agora falta cumprir-se Portugal.

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