Estilhaços da memória

A abertura do romance contém todo um programa narrativo:

Nada. A não ser, de tempos a tempos, um arrepio das árvores e cada folha uma boca, numa linguagem sem relação com as outras. Ao princípio faziam cerimónia, hesitavam, pediam desculpa. E, a seguir, palavras que se destinavam a ela e de que ela se negava a entender o sentido.

– Há quantos anos me atormentam vocês? Não tenho satisfações a dar-vos! Larguem-me! – isto em criança, em África, e depois em Lisboa. (11)

São estas as palavras que ouvimos ao longo do romance, torrenciais, sofridas, desconexas. Assim são as vozes que perseguem Cristina, internada numa Clínica psiquiátrica em Portugal.

Regressara de Angola em criança, mas as árvores que se agitam no interior de si (87, 110, passim) e “as bocas das folhas que não se calarão nunca” (99) juntam-se ao coro de vozes que nem sempre entende e identifica. Vozes que a perturbam e lhe ditam a história que escreve, e que nós lemos. São histórias que conta, no dizer da mãe, convencida de que ela era os outros ou a imitá-los somente (161).

Cristina testemunhara a barbárie da Comissão das lágrimas, o tribunal que sumária e arbitrariamente julgou e massacrou  suspeitos e culpados da rebelião angolana de 27 de Maio de 77. E mesmo que a fragilidade da doença comprometa a verdade dos estilhaços da memória que a invadem, as vozes desta memória descobrem silêncios e, nos sobressaltos da dor, denunciam o envolvimento do pai negro nos horrores da tortura, das catanadas, dos enforcamentos e das valas, indiferente a súplicas, incompreensões, enganos.

Dir-se-ia que a memória desta mulher de 40 anos, progressivamente mais nítida, à medida que o romance avança, e que também ele se clarifica, é o recetáculo de todos os dramas: os familiares, da mãe que se desdobra em animadora da boîte do Sr. Figueiredo, o verdadeiro pai de Cristina; do pai  registado, padre, pecador,  criminoso e posteriormente perseguido e morto, e de tantos outros que se vão acumulando e confundindo.

Difícil é mesmo não sucumbir a esta poesia da dor, do suplício de pensar, do desencontro e da crueldade. Tudo isto plasmado numa escrita difícil, entrecortada, de palavras e sintaxes também elas torturadas e  tão desalinhadas quanto as memórias, os traumas, as figuras que se atropelam num contínuo de fantasmas a circular entre Angola e Lisboa, a guerra e o espaço privado da casa que oprime.

António Lobo Antunes, Comissão das Lágrimas, Lisboa, Dom Quixote, 2011. ISBN: 9789722047951.

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