Cantar em inglês ou cantar em português, segundo João Aguardela

Paula Guerra ― Os projectos novos que surgem não têm essa especificidade, essa identidade. Falta essa referência.

João Aguardela ― Pois, não têm, e nem sequer os posso culpar por isso, porque nem sequer têm referências para a ter. Por exemplo, se eu tivesse agora vinte anos e fosse um consumidor cultural normal, de ir aos bares do costume, os bares que estão abertos em Lisboa, ver um filme, ir ao cinema ver os filmes que estão em cartaz, ver a televisão que temos e ouvir a rádio que temos, obviamente que tinha pouquíssimas referências do que é que podia ser a música portuguesa. Eu penso que é isso que se passa. Por um lado, ninguém tem vontade de viver outras experiências. E por outro lado, o que se passa é que as pessoas não têm pura e simplesmente referências para fazer outra coisa. E, nesse sentido, acho que é o típico fenómeno de aculturação. Tens uma cultura dominante, que é a cultura anglo-americana, e que nos esmagou, ao longo destes últimos anos que têm vindo a decorrer. Por exemplo, existe uma discussão muito interessante à volta de cantar em inglês ou cantar em português. Acho que é uma discussão interessante. Começo já por dizer que para mim é igual, é indiferente. Nem sequer acho que o problema esteja aí. Mas é um exemplo engraçado. Um dos argumentos utilizados para os músicos portugueses cantarem em inglês é a liberdade de expressão. Tens gente, que escreve nos jornais há muitos anos, que defende essa posição. A música portuguesa tem de ser como a música lá de fora, e quando os músicos portugueses decidem cantar em inglês, é uma questão de liberdade de expressão, é uma expressão de liberdade artística. Mas isso é falso. Seria uma questão artística se esses mesmos músicos tivessem liberdade de escolha. O problema é que já não têm. Portanto, aí, o argumento cai por terra. Se eu conhecesse as raízes da música portuguesa, e depois decidisse ir fazer trash metal cantado em inglês, sim senhor, foi uma escolha minha. Agora, se eu toda a minha vida só conheci aquela realidade, que neste exemplo é o trash metal, não tenho grandes hipóteses de exercer uma escolha realmente livre. E é isso que eu penso que se passa hoje em dia.

Ricardo Alexandre, João Aguardela. Esta Vida de Marinheiro, Vila do Conde, Quidnovi, 2011, pp. 171-172.

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