América ameaçada

Último volume da tetralogia iniciada com Todo o Mundo Indignação e Humilhação, Némesis prolonga os romances anteriores, sublinhando os sentidos de fortuna, injustiça e consequente raiva, que agora pontificam numa história de afinidades várias com Pastoral americana.

Em 1944, em plena Guerra mundial, o judeu Bucky Cantor, diretor do recinto de jogos do seu bairro em Newark, assiste ao maior e mais devastador surto de pólio com consequências mortais entre os seus jovens. A impossibilidade de compreender as causas da epidemia provocam na comunidade uma onda de medo, histeria e de acusações que agudizam o anti-semitismo.

A tensão e o suspense crescentes em torno do destino incólume de Bucky Cantor são pontuados por  gritos de revolta indignada contra o deus judaico, uma indignação que só abranda quando também ele é contagiado e a tragédia se converte em culpa. Convicto de que fora o responsável pela propagação do vírus, expia o mal num isolamento de anos, apenas interrompido aos fins de semana com a ida ao cinema e, registe-se, “um bom jantar português”. Trinta anos depois, o encontro fortuito com um ex-aluno, também deficiente na sequência da epidemia,  confronta-o com o excesso arrogante da sua interpretação, cientificamente pouco provável. Os impropérios destoutro Job ganham assim o contorno grego da ironia trágica que transforma o lutador contra a pólio na maior vítima da doença.

Apesar da previsibilidade de algumas soluções narrativas, o romance exibe páginas de grande penetração psicológica, como quando Buck criança visita o túmulo da mãe, perturbado por não saber o que deveria sentir. Sempre dignos de registo são o talento retratista de Roth e a permanente fidelidade à representação dos ideais americanos, dos conflitos étnicos que o melting pot não dissolve e, neste romance, o repetido espanto histérico perante o inesperado impensável, porventura uma versão remota da obsessão com que a inexpugnável América reage à ameaça terrorista. Muito longe, porém, da escrita da Peste, de Camus, ou da Morte de Ivan Illich, de Tolstoi, com quem tem sido comparado.

Uma nota final sobre a tradução pouco feliz de Francisco Agarez e sobre o ruído causado pelo  uso inexplicável do  tratamento  por vós nos diálogos entre o monitor e os jovens: “Estou a pedir-vos que vos vades embora. Não tendes nada para fazer aqui… Que me dizeis?” (22).  Verdadeiramente desadequado, tanto no português como na coloquialidade americana.

Philip Roth, Némesis, Lisboa, Dom Quixote, 2011. ISBN: 9789722048040.

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