Tomás Martins, director da Ateliê Editorial: «A onda do livro digital irá impactar o mercado do livro, mas a forma com que se dará esse impacto é difícil saber»

Com pouco mais de década e meia de vida, a Ateliê Editorial, com sede em S. Paulo, conseguiu uma sólida reputação de editora de catálogo exigente e de factura (e manufactura) cuidada e, não raro, memorável. Muitos são os livros da Ateliê que se tornam «clássicos» instantâneos mal saem das tipografias, tal a sua singularidade de objectos cartonados, a que se acrescenta a grande exigência na selecção de textos e tradutores ou nos trabalhos de composição e revisão de texto. Por todas essas obras, refira-se a emblemática edição do Finnegans Wake, de James Joyce, em cinco volumes traduzidos por Donaldo Schüler sob o título Finnicius Revém, edição ampla e justamente premiada no Brasil e pedra de toque do catálogo da editora fundada por Plinio Martins Filho. Editora centrada nas áreas da literatura, da comunicação, das artes, da arquitectura e das artes do livro, a Ateliê Editorial é uma das editoras mais premiadas do Brasil, o que, se atendermos à sua dimensão – uma dimensão média no mundo editorial brasileiro -, é algo bem revelador da qualidade do seu trabalho e do grau de reconhecimento interpares que sempre suscitou.

Por se tratar de uma editora cujo trabalho comporta toda uma pedagogia implícita do livro e do seu papel numa sociedade esclarecida, achámos que, na sequência das entrevistas que vimos fazendo a vários agentes do mundo do livro, urgia ouvir o responsável actual pela editora, Tomás Martins. Agradecemos a sua colaboração e a disponibilidade prontamente revelada.

TP. Pode descrever-nos o seu percurso profissional? Sempre sonhou ser editor?

TM. Meu percurso profissional foi bastante natural, na verdade. Sendo filho de Plinio Martins, desde novo comecei a me envolver com os trabalhos da editora: aprender a diagramar um livro, fazer capas emendar, revisar textos… Dessa forma, pode-se dizer que cresci dentro do mundo editorial e quando chegou o momento de começar a trabalhar já estava “encaminhado”. Mesmo tendo me formado em arquitetura, sempre trabalhei com design gráfico ou edição de livros.

TP. Pode dar-nos algumas informações sobre a Ateliê Editorial? Qual é o seu orçamento anual? Quantos funcionários trabalham na editora? Quantos livros publica a editora em média por ano?

TM. Somos uma editora de pequeno porte, e nosso orçamento para a produção de livros gira em torno de R$ 360 mil por ano. A editora conta ainda com uma equipe bastante enxuta, de 8 funcionários. Nos últimos anos, mantivemos uma média de 35 novos livros publicados por ano. Se contarmos reimpressões e reedições, essa média sobe para 50 títulos.

TP. Qual a proporção de traduções e de produção própria no catálogo da editora?

TM. Em uma conta bastante aproximada, cerca de 15% de nosso catálogo é composto por traduções. A Ateliê procurou sempre que possível publicar novos autores brasileiros, principalmente de poesia e contos, o que explica a baixa proporção de traduções em nosso catálogo.

Dentre as traduções que já publicamos, figuram autores como James Joyce (Finnegans Wake), François Rabelais (O Terceiro Livro dos Fatos e Ditos Heróicos do Bom Pantagruel), Giovanni Verga (Os Malavoglia), Ludovico Ariosto (Orlando Furioso), St. John-Perse (Amers/Marcas Marinhas), Guillaume Apollinaire (Caligramas), Giuseppe Ungaretti (Daquela Estrela à Outra), François Cheng (Duplo Canto), entre outros.

 

TP. Com que apoios contribui o Estado brasileiro para a edição? A política brasileira do livro parece-lhe consistente?

TM. O Estado brasileiro é o maior comprador de livros do país. Cada esfera de governo possui seus próprios programas, mas a grande maioria deles é voltada à aquisição de livros didáticos e paradidáticos para escolas, não havendo um empenho similar de recursos na formação de bibliotecas e no ensino acadêmico.

Acredito que a política brasileira do livro poderia ser muito melhor se houvesse programas ou projetos que visassem ao aumento do interesse pela leitura no país. No Brasil, não existe uma cultura de leitura na população em geral, seja de baixa ou alta renda, e isso faz com que o mercado editorial do país não seja do tamanho que poderia ser.

TP. A Ateliê tem também bestsellers? O que é para si, como director editorial da Ateliê, um sucesso editorial?

TM. Temos alguns títulos que vendem bastante, principalmente clássicos da literatura brasileira e portuguesa. Não são nada que chegue perto dos números dos mais vendidos do país, mas certamente ajudam a manter a editora.

Para nós, um sucesso editorial é todo livro em que colocamos um empenho especial em termos de conteúdo e cuidado gráfico e tal título tem uma boa aceitação e, se possível, boas vendas. Mas também há títulos que sua própria publicação pode ser, para nós, considerada um sucesso, mesmo que não acabe resultando em boas vendas.

TP. A Ateliê autodefine-se, no seu site, como uma editora da área das Humanidades, Comunicação e Artes, com uma aposta especial na literatura (contemporâneos, clássicos, estudos literários). Como é que uma editora com este perfil sobrevive no mercado brasileiro? Quais são as vossas maiores dificuldades no mercado actual?

TM. Sem dúvida nosso perfil editorial implica que a editora enfrente mais desafios para subsistir do que editoras com outro tipo de catálogo. Procuramos equilibrar nossa produção de livros, mesclando a publicação de obras com maior potencial de vendas que sustentem o lançamento de títulos que sabemos serem relevantes culturalmente, mas que podem não dar resultado comercialmente. Contamos ainda com parcerias de coeditoras, que muitas vezes ajudam a viabilizar projetos com acabamentos mais especiais.

A maior dificuldade que enfrentamos é chegarmos até nossos leitores, pois o número de livrarias no país é relativamente muito baixo. Some-se isso às dimensões continentais do país e chegamos a uma situação em que distribuir os livros para todas as regiões é praticamente impossível. Felizmente, a venda de livros por meio da internet permite que qualquer pessoa possa encontrar nossos livros e comprá-los.

TP. A Ateliê pratica, como referiu, uma política de co-edição com outras editoras, nomeadamente universitárias. Quais as razões desse investimento na co-edição?

TM. A co-edição permite que façamos parcerias com editoras de perfil similar ao nosso e que, juntas, possamos publicar obras cujos custos de produção poderiam ser inviáveis para que uma ou outro produzisse sozinha. Exemplo disso é nossa coleção Clássicos Comentados, editada em parceria com a Editora da Unicamp. Todos os títulos dessa coleção são clássicos – como Divina Comédia, Orlando Furioso ou as Bucólicas, de Virgílio – acompanhados de apresentação, notas, ilustrações, acabamento em capa dura e frequentemente em grande formato. Com uma co-edição, podemos produzir uma tiragem maior e consequentemente diminuir o custo unitário de cada exemplar, levando a um preço de capa acessível a um maior público.

 

TP. Entre outras coisas, a Ateliê distingue-se pelo cuidado na produção dos seus livros, de que são emblemáticos a edição da tradução do Finnegans Wake, em cinco volumes, a colecção de poesia ou a edição de clássicos da literatura universal (mas também brasileiros, como Sertões, de Euclides da Cunha). Pode falar-nos do design e produção destes livros? Quem concebe capas e materiais? O investimento em livros que são também objectos coleccionáveis compensa?

TM. Cada projeto costuma ser diferente do outro, seja pela origem do texto, seja pela possibilidade de uso de determinadas ilustrações etc. O ponto comum é a coordenação de todos esses trabalhos, que sempre é feita internamente. Felizmente, contamos com uma equipe muito competente e uma rede de excelentes colaboradores que trabalha conosco há bastante tempo, o que garante que possamos buscar sempre manter o melhor nível possível em nossas edições, principalmente em projetos mais especiais, como na tradução do Finnegans Wake e na coleção Clássicos Comentados – que conta com obras como Os Sertões, Balada do Velho Marinheiro, Orlando Furioso e Divina Comédia.

O investimento em edições desse porte sempre traz um certo risco, mas vem apresentando bons resultados, algumas vezes surpreendentes até, como a grande aceitação que nossa edição da Divina Comédia (co-editada junto à Editora da Unicamp, bilíngüe e com ilustrações de Botticelli) teve no mercado. Pode-se dizer que há, sim, pessoas interessadas em adquirir edições especiais que tenham também um caráter colecionável.

Também procuramos sempre dar um tratamento especial a nossos livros de poesia, publicando sempre que possível edições com encadernação artesanal em capa dura. Esse cuidado de certo modo tornou-se uma identidade da editora e resulta em um bom reconhecimento por parte do público sobre a qualidade de nossas edições.

 

TP. A Ateliê tem uma impressionante colecção de prémios Jabuti: de poesia, de produção editorial, de tradução, de biografia, de crítica literária, de psicologia e psicanálise, de ciências humanas, etc. Que importância atribui a isso, como editor?

TM. Todos os prêmios que recebemos são para nós um reconhecimento do trabalho de buscar publicar sempre obras de conteúdo relevante com o melhor tratamento gráfico possível. Indicam também que temos a felicidade de contar com excelentes autores e um grupo de funcionários muito competente, que nos ajuda a manter o nível de qualidade de todos os livros que publicamos.

TP. Livros como os da Ateliê, de realização tipográfica exigente, sugerem que as artes tipográficas no Brasil aguentam a comparação com as de países de grande tradição editorial e tipográfica. É assim ou a editora luta com dificuldades para encontrar tipografias que façam exactamente o que pretende?

TM. Nos últimos anos as artes gráficas no Brasil apresentaram um salto de qualidade significativo, com muitas editoras publicando edições bem produzidas e mesmo com projetos gráficos e acabamentos bastante diferenciados. Logicamente, nem todas as gráficas conseguem manter um nível tipográfico aceitável para esses casos.

Com o passar do tempo, e um trabalho constante de controle de qualidade e diálogo da parte de nossa produtora gráfica, contamos atualmente com fornecedores capazes de produzir nossos livros da maneira que queremos. Mesmo aqueles cujo acabamento é praticamente artesanal, como nossas edições de poesia encadernadas em papelão serigrafado, são produzidos com um nível de qualidade sempre bastante satisfatório.

TP. A Ateliê não apenas produz livros graficamente marcantes como ainda edita livros sobre o livro, nomeadamente a colecção «Artes do Livro», que inclui, além de livros de autores brasileiros (desde logo, Plínio Martins Filho), estrangeiros tão relevantes como Jan Tschichold. A editora parece preocupar-se em produzir uma espécie de auto-consciência entre profissionais e usuários do livro. É isso? De que outros modos se manifesta a vossa actuação pública nesse domínio das artes gráficas e da tipografia?

TM. Sim, de fato nós procuramos publicar livros que tragam ao profissional conteúdo que o faça pensar a arte de fazer o livro e tragam fundamentação teórica para sua prática. Exemplo disso é a tradução do trabalho de Gérard Genette, Paratextos Editoriais.

A atuação pública mais marcante na área do “fazer o livro” é a atuação de Plinio Martins Filho, editor e fundador da Ateliê Editorial, como professor universitário do curso de editoração da Universidade de São Paulo.

 

TP. O mundo da edição no Brasil deu um salto qualitativo notório na última década. Porém, o preço dos livros não parece ter baixado, pelo contrário. Quais são, em seu entender, os aspectos mais positivos deste salto qualitativo do livro no Brasil? E os menos positivos?

TM. O aspecto mais importante é sem dúvida a melhor qualidade do livro que chega ao leitor, seja em seu aspecto gráfico (papéis de melhor qualidade, acabamentos diferenciados), seja em termos de qualidade de conteúdo (novas traduções diretas da língua original da obra, por exemplo).

O livro ainda é um produto muito caro para boa parte da população brasileira, mas isso não tem como razão exclusiva o salto qualitativo. Sem dúvida, os custos para se produzir obras mais bem-acabadas são maiores e subiram bastante nos últimos anos, mas muitos outros fatores pesam também, como a falta de hábito de leitura da população brasileira como um todo e o pequeno número de livrarias no país quando consideramos sua população e suas dimensões. Tais fatores levam as editoras a rodarem tiragens menores e consequentemente aumentarem o custo unitário do livro e seu preço de venda.

TP. Como vê a situação da crítica de livros na imprensa no Brasil? Que análise faz da evolução da situação nas últimas décadas?

TM. A impressão que se tem é de que o espaço para o livro na imprensa brasileira diminuiu bastante. Resenhas mais extensas são raras nas publicações de grande circulação e frequentemente focam exclusivamente lançamentos, temas polêmicos e “furos”. Nesse sentido, a presença do livro na imprensa costuma ter um tratamente mais jornalístico do que crítico de fato, que estimule o questionamento ou seja culturalmente mais relevante. Há exceções nessa situação – sem dúvida –, do mesmo modo que há periódicos dedicados exclusivamente à essa crítica mais consistente, como o jornal Rascunho e novas revistas de literatura que estão surgindo.

TP. O que acha do acordo ortográfico?

TM. Acho algo sem muito sentido de ser e terrivelmente mal implementado. O português falado no Brasil, em Portugal ou em Angola sempre teve e sempre terá suas particularidades locais, como em qualquer língua comum a mais de um país. Tais diferenças sempre se refletiram na língua escrita e nunca foram uma barreira de comunicação entre os países, então qual o motivo para que se fizesse uma unificação ortográfica? Não será por decreto que as diferenças locais deixarão de existir.

É difícil imaginar qual razão justificou sua criação e é incrível que ele tenha sido formulado de maneira tão obscura e aprovado com tantas inconsistências. Para a maioria das pessoas, principalmente as envolvidas com o mundo dos livros, foi apenas algo que trouxe muito trabalho, confusão e tornou edições inteiras “obsoletas” e muitas vezes invendáveis da noite para o dia.

TP. Tem um iPad? E um Kindle? Como vê o futuro do livro em papel num mundo tomado de assalto pela revolução digital e pelo download pirata?

TM. De fato, tenho um Nook, leitor digital da rede norte-americana Barnes & Noble. Acho que a onda do livro digital irá impactar o mercado do livro, mas a forma com que se dará esse impacto é difícil saber. É evidente que o livro em papel continuará existindo, pois ele apresenta vantagens e possibilidades de apresentação do conteúdo que dificilmente algum leitor digital poderá reproduzir. Possivelmente certos conteúdos migrarão do impresso para o digital, como obras didáticas – pela possibilidade de mesclar conteúdos como texto, imagem e vídeo em uma mídia só – e talvez parte da literatura de ficção, dada a maior facilidade de autores novos estrearem no mundo digital do que no impresso.

A questão da pirataria será inevitável, mas mesmo antes do livro digital as fotocópias existiam, principalmente no mundo acadêmico. A pirataria digital certamente terá um impacto maior nas obras de maior procura – os best-sellers – e não acredito que será algo que de fato possa ser definitivamente debelado. Cabe às editoras pensarem em novos modelos de negócios que permitam a convivência com a pirataria. Os mercados da música e do cinema, apesar de várias diferenças com o mercado do livro, convivem há alguns anos com tal situação e encontraram meios de se adaptarem. Fato é que o livro em papel sempre existirá. A questão, a meu ver, é se as editoras como são hoje continuarão existindo.

TP. Pode eleger alguns dos livros que mais gosto lhe deu editar até hoje? Ou, noutra perspectiva, aqueles que foram mais importantes para a afirmação da Ateliê Editorial?

TM. A Divina Comédia foi um dos principais livros que já publicamos e um dos que mais me deu gosto de fazer. Tenho também um carinho especial por nossa edição da Balada do Velho Marinheiro, cujo projeto fiz pessoalmente e julgo ser um dos que melhor consegui conciliar todos os elementos do livro – capa, guardas, frontispício, texto, aberturas e ilustrações.

 

Diversos títulos foram fundamentais para a construção da identidade da editora. Dentre eles, acredito que os mais importantes tenham sido nossa tradução do Finnegans Wake; a publicação das memórias completas de Pedro Nava; as obras de poesia concreta Poesia Pois É Poesia, de Décio Pignatari e de Viva Vaia, de Augusto de Campos; a publicação do primeiro dicionário grego-português; além dos livros das nossas coleções Artes do Livro e Clássicos Comentados. Nossas edições de poesia encadernadas artesanalmente também contribuíram muito para formar a identidade da editora como um verdadeiro Ateliê Editorial.

 

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