«A arte de profanar: A poesia submersa de Roberto Piva», por Renan Alves de Souza

Publicado originalmente em 1963, com o trabalho fotográfico de Wesley Duke Lee, Paranóia, de Roberto Piva (1937 – 2010), na altura de sua publicação, foi recebido com resistência, frieza e indiferença pela crítica. Apenas na antologia 26 poetas de Hoje, de Heloísa Buarque de Holanda, o poeta teve alguma repercussão, ao apresentar a poesia marginal como novidade. Piva reagiu violentamente contra o que seria o objecto da poesia concreta, a modernização brasileira, mantendo-se em “seu mundo delirante” e assumindo a sina de poeta maldito, individualista e com espírito anárquico. O escatológico, o pornográfico, o grotesco, o sublime, e o maravilhoso são temas recorrentes que permeiam a sua poesia, e que reforçam a comparação com Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, ao evocar o mal e a “destruição de tudo que é frágil”. O próprio poeta assume a impiedade em versos como “eu não sou piedoso, eu nunca poderei ser piedoso” e a todo tempo manifesta sua agressividade contra tudo e contra todos sob a luz de uma figura errante e solitária e ao mesmo tempo o mais frágil e desamparado dos seres: “no exílio onde padeço angústia os muros invadem minha memória”.

Paranóia é um livro sobre São Paulo, mas sobretudo é um livro sobre o próprio poeta e sua relação com a metrópole, até então em construção, e com a modernidade. A figura lírica do eu andarilho, que fala consigo mesmo, ou com ninguém, erra pelos labirintos de ruas, avenidas, galerias e vielas, sonhando, reflectindo, exteriorizando, mantendo a tradição de poeta intinerante, que remonta à figura do Flâneur de Baudelaire. A cidade de sucata, dominada pela ciência ordinária, os horizontes de cimento, fedores de naftalina, estátuas de fortes dentaduras, hordas de psicopatas liberadas pela explosão demográfica, o espectáculo de vidas desordenadas acentuam a posição do poeta como aquele que está “na cidade e não da cidade” (Alcir Pécora). A poesia de Piva é caracterizada pela sistematização descontrolada em torno de imagens violentas e anticonvencionais, o poeta que colecciona “os anais da desordem” (Benjamin). Walter Benjamin em seu ensaio sobre Baudelaire diz que o indivíduo para sobreviver a modernidade precisa ter formação heróica. Baudelaire era considerado um herói para Benjamin na medida em que conseguia enxergar beleza, numa era extremamente utilitarista e capitalista, no que foi deixado de lado pela sociedade. “Os poetas encontram na rua o lixo da sociedade e a partir dele fazem sua crítica heróica” (Benjamin). Mesmo tratando das coisas mais baixas, Piva se vê obrigado a manter a elevação do discurso, como se estivesse “possuído pelo deus do instante” (Davi Arriguci Jr), e não pudesse abrir mão da catarse momentânea. Sua poesia, por sua vez, pede uma voz que a efectue, como se só assim ela encontrasse seu efeito catártico em sua máxima potência.

A descrição das grandes cidades não pertence a ninguém se não a aqueles que a atravessam, como que ausentes, perdidos em pensamentos ou preocupações. Paranóia mostra como a relação do poeta com a grande São Paulo, permeada de fetiche e devaneio e também pelo conflito de emoções opostas, mostra um sujeito dilacerado e fragmentado, dono de uma vida experimental: “eu só acredito em poeta experimental que tenha vida experimental”. Uma espécie fusão entre a relação estabelecida por Dickens e sua Londres pós industrial oitocentista, em que o escritor imprimia seus sentimentos, suas angústias, seus sonhos na cidade enquanto vagueava depois de duras horas de trabalho, e o fascínio exprimido pelo “plano-piloto” da poesia concreta que sustentada no “pilotis” da industrialização paulista e na construção de Brasília, estava aberta a ventos futuros.

Coimbra, 10 de Março de 2012.

Renan Alves de Souza é brasileiro e encontra-se a concluir a licenciatura em Português/Inglês na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Reproduz-se aqui o texto com que apresentou a obra de estreia de Roberto Piva na sessão 3 do programa «Páginas Tantas».