Paulo Varela Gomes sobre a arquitectura pós-moderna

Jorge Figueira ― Depois houve as Amoreiras e o Tomás Taveira. Há dois artigos sobre as Amoreiras em 1987 e, em 1989, já passado algum tempo, sobre o BNU. «O efeito Amoreiras» é escrito só por ti, e o que te pergunto é: tinhas alguma expectativa que aquela via fosse possível?

Paulo Varela Gomes ― Não, nisso enganei-me redondamente. Isto é, quando sinto culpa – e de vez em quando sinto culpa de coisas que escrevi -, essa é certamente a culpa maior que sinto. Porque sei que tive alguma influência, embora não muita, e que essa influência foi perniciosa. Embora ela se tivesse exercido mesmo que eu não existisse.

Naturalmente, teria havido outra pessoa qualquer a fazer o mesmo. Mas a cópia de pequenas Amoreiras, ou de pequenas coisinhas das Amoreiras por todo o país, é dos aspectos mais trágicos que aconteceram na paisagem construída. Não é portuguesa, é mundial, como toda a gente sabe, e às vezes em escala absolutamente catastrófica, como é o caso da Índia ou de certos países do Terceiro Mundo.

É uma absoluta catástrofe o que aconteceu à arquitectura a partir dos anos oitenta. São quilómetros e quilómetros quadrados de edifícios horríveis… E vai passar à história da arquitectura mundial como um dos piores períodos. Mesmo que se ache mal a arquitectura do século XIX, aquilo era arquitectura, no sentido em que não vinha só de fora para dentro, vinha de dentro para fora… Isto não; são horríveis edifícios de habitação ou de escritórios, sem qualquer interesse, quase todos, muito mal feitos, com umas placas de decoração em cima. E no entanto tenho alguma culpa directa na divulgação disso em Portugal, porque disse bem, nomeadamente, nessa história do ‘efeito Amoreiras’. Em nome de quê? Em nome da popularidade da arquitectura, acho eu. Em nome do facto de que se democratizava o que era da classe alta, e que a paisagem ficaria mais divertida, mais animada. Que a arquitectura deixava de ser uma coisa de elite.

Jorge Figueira, Reescrever o Pós-Moderno, Porto, Dafne Editora, 2011, p. 170.