Notas sobre Luís Quintais (II)

É difícil resistir a citar aqui alguns versos de um poema de Angst, «Uma inocência», em que, a partir de uma imagem central de aves devorando lixo em sacos de plástico negro, Quintais resume tudo isto em modo cáustico:

O que faz a poesia?
Remir por certo tipo de palavras

certo tipo de coisas certo tipo
de asas flap flap flap certo tipo
de razões desesperadas.

A poesia faz «certo tipo de» coisas: note-se a linguagem antifundacional, que se abstém de dar nomes a «coisas» e «razões», recuando ante a vastidão de tais «coisas» e «razões» e, ao mesmo tempo, não contribuindo com mais uma acha para a fogueira desmesurada de versões mais ou menos legiferadoras da Poesia no concerto das linguagens e modos de fazer mundos.

Contudo, nada disto implica a infantilidade de «pessimismos» pois a esperança permanece e Quintais introdu-la num dos seus notáveis poemas em prosa – o autor é hoje talvez o nosso maior cultor desse género moderno – intitulado «Um animal com penas»:

O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente, isso sim, isso seria um das formas da esperança reconhecível.
(…)
A esperança é uma hipótese que anotámos no caderno mais próximo, esse que está em cima da mesa aguardando uma visita do acaso.

Assim como não é possível viver sem a inquietação de quem contempla as nuvens que correm no céu, também não é possível fazê-lo sem esperança. Esta, contudo, não é, em Quintais, uma virtude teologal, já que o autor se inscreve, em sentido forte, no devir secular do desencantamento do mundo: a esperança é meramente uma hipótese que aguarda uma visita do acaso. Mas é sobretudo, e é por aqui que se contrabandeia um certo reencantamento, uma imagem que eu diria entusiástica: um «animal com penas». A imagem é logo em seguida descrita como «obtusa», já que a ela se deveria opor «a eternidade a germinar lentamente», uma forma mais reconhecível de esperança. Seria contudo preciso acreditar o bastante na eternidade, ou mais modestamente no futuro, para que essa imagem da esperança pudesse deveras germinar em nós. A imagem da esperança como «um animal com penas» não é realmente argumentada ou desenvolvida, embora o poema, em segmento que não transcrevi, se demore na descrição de uma situação de não-esperança. A imagem funciona pois por irrupção e contraste, como um pavão improvável, cujo canto estrídulo nos fizesse acreditar nessa hipótese que o poema encena com todas as reservas – aquele pavão, talvez não exactamente o mesmo mas aparentado, que reencontramos no poema «A inútil poesia», de Duelo, em que à «inumana beleza de um pavão / que abre a sua cauda / na noite iluminada» é cometida também a preservação da esperança.

Tudo isto, esta minha tentativa de descrição ou tradução do poema, mostra o que é o poema em prosa nas mãos de Quintais: uma máquina muito minuciosa de produção de deflagrações, microanálises e interrogações. Ou, para usar palavras suas, um «líquido teatro do pensamento».

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