Sousa Dias sobre ecologia e multiculturalismo no neocapitalismo global

A ecologia é a nova ideologia em ascenso do capitalismo. A próxima mutação previsível do capitalismo, ainda incipiente mas já em marcha, é a sua transformação nos países pós-industriais em capitalismo verde, ‘amigo do ambiente’. A coisa já começou, através de um novo tipo de marketing visando a nossa ‘sensibilização’. Garantem-nos que se comprarmos o produto x ou o produto y estamos a contribuir para a protecção da Natureza, para a preservação ambiental. Emergência, contra a catástrofe natural (provocada pelo capitalismo), de um neocapitalismo verde, de rosto ecológico, de um ecocapitalismo, tanto quanto de um, correlativo, biocapitalismo, de uma ‘bio-economia’ como capitalismo de rosto humano. Isto é: de um capitalismo revalorizador das actividades de lazer, das actividades relacionais e ‘espirituais’, dos aspectos ‘não económicos’ da vida: o capitalismo, de novo e sempre, como salvação para o capitalismo, para o desastre capitalista, como a ‘ruptura’ histórica necessária, a alternativa a si mesmo, como única saída possível ou único ‘exterior’ do próprio capitalismo. O ‘ambiente’ e as ‘relações sociais’ ou ‘conviviais’ como os centros da economia política (portanto, das políticas económicas) do futuro, uma ‘nova economia’, eco- e bio-, como gestão (lucrativa) da crise planetária e social por auto-reconversão repossibilitadora do sistema provocador da crise. Em suma, um capitalismo ‘responsável’ e, em igual medida, ‘ético’. Mas que, como observa Zizek, deixa intactas, e assim justifica ‘espiritualmente’, as relações capitalistas de produção [1]. E com efeito o paradoxo do novo capitalismo ecológico em ascensão é que, sob o pretexto de querer salvar a Terra, o que ele quer é salvar-se a si nos seus fundamentos enquanto relação necessária e não contingentemente desastrosa com o planeta [2]. Longe de precarizar o capitalismo, como muitos pensam, a catástrofe ambiental abre pelo contrário novas possibilidades ao capitalismo, possibilidades de investimento ‘terapêutico’ tanto maiores e tanto mais lucrativas quanto mais ideologicamente legitimadas pela ecologia, pelo discurso ecologista da ‘salvação do planeta’. Por fim, e tratado como uma nótula de pé de página, o multiculturalismo, a questão das modernas sociedades ‘multiculturais’. Para referir que o multiculturalismo, a cultura multiétnica, não é uma bandeira ética ou social revolucionária. Ao Capital interessam, dentro de certos limites, as imigrações massivas que forcem os trabalhadores ‘nacionais’ a aceitar, por efeito da concorrência dos emigrados, salários mais baixos. O multiculturalismo, tal como no pós-guerra a emancipação feminina, é uma bandeira, sim, mas do capitalismo. É o neocapitalismo global que é profundamente multiculturalista, como o capitalismo pós-1945, por necessidade de mão-de-obra, era profundamente ‘feminista’. A tolerância multiculturalista é mais uma máscara ‘civilizacional’, nestes tempos neoliberais, com que o Capital prossegue a sua barbárie.

[1] SLAVOJ ZIZEK, Après la tragédie, la farce!, p. 58.
[2] COMITÉ INVISIBLE, L’insurrection qui vient, pp. 66-67. 

Sousa Dias, Grandeza de Marx. Por uma política do impossível, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 99-101.