Ser fiel ao acontecimento, por Sousa Dias

O acontecimento acontece sempre, com efeito, no contexto de certas condições efectivas que, uma vez dado esse acontecer, serão vistas como as condições de possibilidade do próprio acontecer. Mas o acontecimento como tal nunca decorre, ou só decorre por uma parte (a sua parte ‘reactiva’, histórico-contextual, definível por aquilo contra o que reage ou acontece) dessas condições que ele excede na sua parte ‘activa’ ou auto-afirmativa e que, explicando-o ou co-possibilitando-o num olhar retrospectivo, nada explicam. As condições contextuais objectivas em que se dá o acontecimento são ao mesmo tempo as suas condições de possibilidade (visto o acontecimento por referência a posteriori a elas) e as suas condições de impossibilidade (vistas estas a priori por referência ao acontecimento). Elas são as condições de impossibilidade do acontecimento, as condições negativas da vinda do acontecimento que, mesmo depois de ter vindo, e como dizia Jean-Luc Marion atrás citado, permanece impossível, inexplicável, ‘sem razão’. Em linguagem metafísica, ‘ontológica’, um acontecimento deve ser possível segundo o ser sem todavia se lhe reduzir (excedência, incompossibilidade, não-relação). Deve ser um ‘efeito’ do ser, mas um efeito que não decorre do ser como da sua causa, que pelo contrário, ao efectuar-se, ao acontecer, retroage sobre o ser de maneira a determiná-lo, por essa retroacção, como causa. O acontecimento inscreve-se no ser, na ordem positiva do ser, mas é só por essa inscrição ou efectuação, pela sua vinda impossível e incondicionada, que ele determina o ser como sua causa, como condição da sua possibilidade. Ao irromper ou interromper, ao romper a série ‘cosmológica’ do ser, o acontecimento cria a sua própria possibilidade como possibilidade dada no ser. O que abre para o tema, de raiz estóica na história da filosofia, e conceptualizada de forma admirável na filosofia moderna por Deleuze e de novo por Badiou, daquilo a que se poderia chamar a ‘fidelidade ao acontecimento’ (por exemplo ao acontecimento-Marx, à cesura teórico-política de que Marx é o nome próprio). Ser fiel ao acontecimento, ser fiel ao que nos acontece, mesmo ao mais pessoal ou privado do que nos acontece, um amor, uma amizade, um encontro para sempre marcante com um livro ou um filme, algo ou alguém…, é justamente recusar a reinscrição, ou absorção, do acontecimento na ordem (ontológica, histórica, pessoal) do ser, é afirmar o acontecimento como excedência absoluta das condições do ser, do real e do possível, como im-possível extra-ser. É viver o acontecimento como uma ‘graça’, como qualquer coisa de absolutamente único, irredutível pela sua singularidade à ordem causativa do ser, acontecimento-efeito que produz as suas causas, que as explica, lhes dá sentido como causas, em vez do inverso.

Sousa Dias, Grandeza de Marx. Por uma política do impossível, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 111-112.