Paulo Franchetti, sobre a «Poesia Incompleta»

Lembro-me perfeitamente da livraria Poesia Incompleta, de Lisboa. Lá estive uma única vez. Quando tentei voltar, o proprietário, ao que me disseram encantado com o Rio de Janeiro, prolongara as férias e deixara apenas um recado na porta, anunciando a data improvável do retorno ao trabalho.

Mas quando a visitamos, minha mulher e eu, o navio ainda não encalhara. Ia em boa toada, aparentemente.

Sentamo-nos num sofá muito baixo, que nos deixava a impressão de olhar justo por cima dos joelhos, meio à direita da cadeira do proprietário. Changuito se chamava ele ali, no desempenho brilhante da difícil arte de conciliar ar blasé e receptividade calorosa.

À sua frente, como se até ali se estendesse o palco, destacado de nós, a plateia que os mirava de rasante por sobre as rótulas, sentavam-se alguns poetas, em constante entra e sai. Não guardei os nomes, mas lembro-me de que pareciam de fato poetas: algo enigmáticos, falando quase por cifras de outros poetas. Mal, evidentemente, mas não tanto. Um deles, permaneceu todo o tempo exercitando a arte do silêncio significativo. Meditava ou apenas se esforçava por não se interessar pelos demais. Havia outro, mais torturado, mas que ficou pouco tempo.

Como não lhes conhecia a obra, era um espectador isento, interessado sobretudo naquela espécie de teatro Nô, em que as hierarquias e emoções se indiciavam por um piscar de olhos ou um mover de dedo mínimo.

Já o Changuito nada tinha de mistério e por isso aquecia a sala, com o seu cobertor sobre as pernas, funcionando como contraponto ou contracanto ao silêncio misterioso dos que, por vezes, se erguiam e percorriam distraidamente as estantes.

A alma do lugar se posicionava numa parte que um computador e um telefone mostravam ser o escritório e dali irradiava a energia que parecia a ponto de exaurir-se na não conversa dos alinhados do outro lado.

O resto, como se imagina, eram estantes, apinhadas, extravasando. Banheiro, chão, banquinhos: em tudo se derramava a profusão de folhas encadernadas, capas e formas coloridas. Em vários estágios de organização ou desorganização, nelas havia, para o bom procurador, inimagináveis coisas. Changuito as conhecia bastante bem, como seria de esperar. Mas não totalmente, de modo que restava sempre, ao curioso, alguma surpresa a compartilhar com ele.

Mais biblioteca, talvez, que livraria. Mais palco e lugar de encontro e celebração, porventura, do que biblioteca.

Leio agora a notícia de que fechará as portas. Suspeito que Changuito terminará por se estabelecer no Brasil. Tomara que aqui consiga espaço, tempo e livros para montar uma nova casa de poesia.

Enquanto não o faz, minha impressão é que alguma coisa importante e única está ausente. Só uma vez, como disse, lá estive. Mas era bom, dava uma boa sensação saber que um dia, se calhasse, poderia fazer-lhe outra visita.