Notas sobre Luís Quintais (III)

É talvez altura de definir Quintais como um poeta da imagem. Os seus poemas quase sempre se estruturam em torno de uma imagem central, de natureza vária mas de uma qualidade de imaginação rara e, muitas vezes, surpreendente. Exemplifico com um poema de Umbria (1999), «Cedros dos Himalaias»:

São vários os conceitos que me movem.
Um gesto abstracto desfila na imaginação:
sobre o azul, os cedros dos Himalaias.

É este o jardim de tarde que procuro.
Um lugar de intensa luz que cegue rotinas,
repetidos esquemas de pensamento.

A mesma luz até à renovada frase.
Transportem-se cedros dos Himalaias
pela imaginação adentro,

e a imensa realidade tornar-se-á
desabitável, desabituável,
repleta de conceitos que nos movam.

Todo o poema deriva dos versos 2 e 3: «Um gesto abstracto desfila na imaginação: / sobre o azul, os cedros dos Himalaias». Face a esta imagem, este «lugar de intensa luz», as rotinas e os esquemas repetidos cegam. Habitada a imaginação pelos «cedros dos Himalaias» a realidade torna-se «desabitável, desabituável». Não é preciso mais para percebermos a lógica de uma poética centrada no poder irradiante da imagem, tal como em Wallace Stevens. Mas gostava de notar o declarado carácter conceptual e abstracto da proposta imagética: «São vários os conceitos que me movem. / Um gesto abstracto desfila na imaginação». No fim do poema, consumada a deflagração da imagem na nossa percepção, o conceito regressa em forma populosa: a realidade torna-se então «repleta de conceitos que nos movam». Não parece haver aqui conflito entre o carácter necessariamente concreto da imagem e o gesto abstracto da sua motivação e composição: os cedros dos Himalaias são a beleza imotivada e plena. Um poema produzido por essa imagem, composto em função dela e para ela, é a poesia como arte sem justificação. Como «ficção suprema», enfim.

Mas não tem de ser assim. O poema «Duelo», do livro homónimo, é ainda explicitamente imagético, mas o seu impacto é agora de teor ético-moral:

Isto gravita na minha lembrança:
Onegin estilhaça o cérebro do amigo
a uma distância de incertos passos:

assisto ao seu remorso
e invejo esse remorso.

Quintais é exímio nestas encenações em que ao primeiro verso é cometida a função de dispor a cena e nos preparar para a imagem que estruturará o poema. Neste caso, «Isto gravita na minha lembrança» – e, depois, a cena do duelo. Quanto ao comentário à cena – «assisto ao seu remorso / e invejo esse remorso» -, dir-se-ia que produz uma internalização drástica do duelo na consciência ético-moral do sujeito: assistir não é o mesmo que invejar (a inveja não se infere necessariamente do assistir), e invejar contém em si a possibilidade de renunciar a simplesmente assistir. No limite, aquele que assiste poderia transformar-se naquele que mata, desde que acedesse ao remorso. Mas o poeta, enquanto assistente ou espectador do espectáculo do mundo, um espectador provocante e provocador, é antes uma criatura extra-moral, como aliás todos os artistas e toda a arte. Por outras palavras, o remorso não está, não deve estar, ao seu alcance, pois é nesse momento que a poesia se transforma em pregação – e o poeta em assassino da poesia.

Num poema central na sua obra, Quintais aborda explicitamente a questão da imagem e aquilo que nela se joga nos seus poemas. Trata-se de «Voz, vento, ferrugem», de Duelo:

Eu sou aquele que longamente
observa e escuta.
Procuro uma imagem,
um resíduo da experiência.
Procuro um exemplo.
Uma figuração da luz.
Uma voz mistura-se
com o rumor das acácias.
Um sinal de trânsito esplende
a rubra ruína. –

Voz, vento, ferrugem.

O início do poema parece recuperar alguma da dicção romântica do Poeta maiusculado. Percebemos depois que não se trata de propor legislação, reconhecida ou não, à humanidade mas sim de procurar longamente imagens, que podem ser resíduos de experiência, exemplos, figurações da luz, vozes, sinais de trânsito sobre ruínas. Deste catálogo não exaustivo, conseguido por observação e escuta, o poeta retira uma lição de «Voz, vento, ferrugem». É como se esta lição em forma de verso final fosse alegoria de todas as imagens da sua poesia, ou como se todas elas fossem indexáveis a estes três paradigmas da decepção e da perda. Como se todas as imagens da poesia de Quintais respondessem a um verso de Duelo: «Tudo o que descrevo é percepção do nada». Ou, ainda antes da imagem, a palavra que a produz fosse esforço condenado ao erro: «Que a palavra te redima do erro. Que a palavra seja o erro». (Lamento) E poderíamos então acrescentar: Voz, vento, ferrugem, erro.