Notas sobre Luís Quintais (IV)

Não surpreende, pois, que num poeta da imagem e da «ficção suprema» da poesia uma palavra recorrente seja «beleza», palavra rara na actual geração de poetas, na sua maioria possuída por um afã dessublimador, aliás muito epocal e em todas as artes. É possível encontrar poemas e títulos como «[Se desconfias da beleza]» (Lamento, 1999), «A demonstração da beleza» (Duelo, 2004) ou, já no primeiro livro, A Imprecisa Melancolia (1995), «Da dificuldade da beleza». Deste poema, extraio alguns versos significativos:

Penso em Ungaretti nas trincheiras
recordando os seus rios: o Isonzo, o Nilo, etc.
Há uma fuga nesta indiferença.
São nobres os exemplos
e exemplar a responsabilidade do alheamento.

Vejo um campo devastado dentro de mim,
a Torre da Canção erguendo-se sobre as ruínas da tranquilidade
que me cerca.

A beleza é difícil.

A dificuldade de erguer a Torre da Canção que Quintais vai buscar a Leonard Cohen é antes de mais ética ou ético-política – podíamos dizer que é adorniana – e, nesse sentido, atravessa a sua poesia toda. Ungaretti opera por uma espécie de combate terapêutico, recordando os seus rios para se evadir das trincheiras, reivindicando a indiferença e o alheamento ante a barbárie; o sujeito do poema de Quintais parece confrontar-se com uma outra devastação, de tipo interior, que não lhe permite alheamento, e erguer sobre ela a sua precária Torre da Canção, de duvidoso valor terapêutico. A beleza é sem garantia, individual ou social, e, tal como a memória, parece condenada ao desgaste irreversível. Num poema também do seu primeiro livro, «A simetria de uma manhã de Março», o poeta refere uma tela de Harue Koga, pintor japonês, recortada de uma página de uma revista Time, já antiga. E nota:

Perdi a folha bem dobrada no fundo dos bolsos
da memória. Que nada se salve

deste pequeno nada! Que a imagem se esboroe
antes de ser tocada. Só no poema deixo inscrita
a simetria de uma manhã de Março.

O que fica no poema não é a imagem mas a simetria da manhã de Março: um pequeno nada temporal destinado a não coincidir com nenhuma imagem; uma brevíssima fenomenologia de que o poema se converte em índice. A beleza não só é difícil como é mortal – e bem escassos parecem ser os recursos da poesia para lutar contra isso: umas palavras a negro numa página branca destinada ao tom pardacento das coisas fanadas. A beleza, a tentação, ou melhor, a pulsão da beleza, que é uma espécie de imperativo pré-moderno em Quintais, cristaliza-se em certos momentos mágicos, muitas vezes em torno da experiência da paternidade (Quintais é um dos grandes exploradores dessa experiência na nossa poesia). Escolho o poema em prosa «Istambul», sobre um desenho do seu filho Tomás:

Figuras afilam-se, enchem páginas de jornal e são peixes e são gatos e são polvos e são homens e são leões. Na inaparência das linhas escuta-se o rumor familiar de um rosto, o jogo de faz-de-conta que alguém iludiu sob o nome de poesia. Círculos bloqueiam o volátil fundo. Anéis sublinham a escrita. As metamorfoses suspendem-se por momentos. No olhar de um peixe está uma palavra: ‘Istambul’.

A infância é aqui um estado mimético que devém um estado gramatical, por exemplo na repetição de «são» na primeira frase. «Inaparência das linhas», «jogo de faz-de-conta», metamorfoses e poesia tornam-se nomes e tropos para infância (há aqui algo daquele infantil como resumo de saber que encontramos, por exemplo, no desenho infantil e nas suas funções narrativas em Finisterra. Paisagem e Povoamento, de Carlos de Oliveira, e cujo ascendente judaico-cristão é evidentemente o apólogo bíblico do «Menino entre os Doutores»). E é então, no culminar deste devir infantil, que no olhar de um peixe aparece uma palavra encantada, «Istambul», que não refere nem indica um local civilizacional preciso mas antes remete para uma cartografia da imaginação. «Istambul» é uma versão da «Pasárgada» de Manuel Bandeira, uma pura magia verbal, um encantamento reificado na gramática das civilizações – um «orientalismo» e uma indiferença absoluta ao orientalismo enquanto categoria de uma hermenêutica da suspeita – que é, ao mesmo tempo, um detonador dessa liberdade livre que é a poesia enquanto recontratualização de associações verbais, imagéticas e imaginativas. Não interessa muito, pois, supor que a palavra estaria impressa no jornal objecto dos desenhos da criança, mesmo debaixo do olho do peixe. Trata-se antes de um acaso objectivo que sobrepõe uma dimensão temporal e uma dimensão mítica, lançando-nos, de súbito e mesmo no final do texto, num universo de Xerazade. A beleza é, pois, sem condições nem restrições em ocorrência infantil – e daí a sua raridade, nestes termos tão desobrigados.