Murmúrios da Índia

De Almeida Faria, O Murmúrio do Mundo. Subtítulo A Índia revisitada, com desenhos de Bárbara Assis Pacheco, e prefácio de Eduardo Lourenço, é a mais recente edição da Tinta da China (fevereiro de 2012).

Perante este livro é impossível não lembrar Uma viagem à Índia. Melancolia contemporânea (um itinerário), de Gonçalo M. Tavares, editado há pouco mais de um ano (Outubro de 2011), com o mesmo prefaciador. Ambas viagens literárias, a mesma meta, sobretudo o mesmo mito. Em tudo o mais, diferentes.

O Murmúrio do Mundo regista olhares e reflexões do viajante que em 2006 se deslocou a Goa e a Cochim com uma breve passagem por Mumbai. Fá-lo numa sequência de quatro capítulos, considerando apartadamente Partida, Regresso e os dois destinos.

A curiosidade de um leitor de livros de viagens contemporâneas rapidamente é defraudada por um exercício de elegante preito aos vestígios de um passado português, patrimonial, arquitetónico, histórico, no conteúdo, literário, na forma.

Que o relato de viagem revela o viajante já o sabemos e, neste aspeto, os trechos contrapontísticos do passado não distam dos do presente. Se os primeiros se focavam na diferença, Almeida Faria regista a permanência. O outro Outro apenas se esboça: no aeroporto e do lado de fora do táxi, exorbitante, colorido, ruidoso e a fazer desejar mais. Quando emerge é, porém, fulgurante: a negada mendespintice da horda súbita de pedintes (29), ou “As latitudes quentes, húmidas, onde tudo floresce depressa e depresse apodrece” (106).

Carregado de “um outro modo de olhar”, o autor afigura-se romanticamente enfeitiçado pelo murmúrio daquele espaço físico, das vozes literárias que o escreveram e que neste palimpsesto se perpetuam, e da voz do pintor flamengo do século XVII, exuberante metalepse ficcional a perturbar a “expedição curiosa” (39) do viajante, qual possível avatar de fantásticos monstros marinhos pretéritos, a desafiar a racionalidade contemporânea, quiçá a marcar territorialmente o exotismo.

Saris, deuses, igrejas, azulejos, fauna e flora, gentes da terra animam as aguarelas que se intercalam nos capítulos centrais.

Em Notas finais, a identificação dos autores dos textos citados – de António Ferreiras a Luís Quintais, de Hegel a Bergman – neste murmúrio do mundo que é também a voz da biblioteca e a sua memória.

Almeida Faria, O Murmúrio do Mundo, ilustração de Bárbara Assis Pacheco, Lisboa, Tinta da China, 2012. ISBN 9789896711115.

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