«Mais um dia de vida»: Ryszard Kapuscinski em versão de cinema de animação

A estreia está prevista para o Outono de 2014, mas pela amostra – um breve teaser – promete ser um caso sério. Falamos da adaptação, por Raúl de la Fuente, do romance homónimo do famoso repórter polaco, com acção situada em Angola durante o período de guerra civil, com invasão sul-africana, que coincide com a independência em 1975. Com financiamento repartido por Espanha e Polónia, e recorrendo a imagens de animação mas também a imagens «reais», o filme será previsivelmente um dos acontecimentos de 2014. O teaser, e informação complementar, aqui.

Tabu (I)

Em primeiro lugar: o que é a História? Em segundo lugar: o que é o colonialismo? Em terceiro lugar: o que é a memória? E, na aparência, o pressuposto estável (a tartaruga sobre a qual se apoia o elefante) que permite perguntas e talvez respostas: o cinema enquanto coisa revisitável in totto, desde os primórdios até ao nosso reencantamento fetichista, em formato 1:1,33, a preto e branco e com muito grão.

Uma primeira hipótese de resposta poderia ser: a História é o trabalho de dessincronização de imagem e som; o colonialismo é o Monte Tabu; a memória é um crocodilo de olho «vítreo e glauco», como se aprende na retórica da literatura colonial; e o cinema, por fim, uma coisa rotunda como um elefante, apoiada na ilusão de uma carapaça vetusta.

Podemos começar por aqui. Num dos seus últimos livros, Laura Mulvey nota que, ao contrário do que era o foco do seu trabalho nos anos 70, quando via a vanguarda fílmica como o «oponente binário» do cinema de Hollywood – e da forma como este «construía» a estrela feminina como seu espectáculo último –, a situação contemporânea tinha-a feito perceber que «as estéticas do cinema possuem uma coerência maior ao longo do seu corpo histórico face às tecnologias dos novos média e das novas formas de ver filmes que elas geraram» (p. 7). É essa «coerência de ordem superior» que Tabu nos dá a ver, precisamente por a sua ser, de modo muito deliberado, uma situação pós-histórica ou, se se preferir outra terminologia, entre-imagens. Estou a tentar sugerir que Tabu se poderia renomear, em título ou subtítulo, História(s) do Cinema; e que, nesse sentido, o filme é um dos últimos avatares do rastro godardiano no cinema contemporâneo (Murnau seria aqui o nome para um engodo). Porque não se trata apenas de «citações», ainda que elas abundem. Trata-se sim de relançar o discurso da ontologia da imagem fílmica, que podemos indexar a Bazin, aos Cahiers e à Nouvelle Vague, aqui de novo indexada ao Godard da pergunta e resposta de Le petit soldat (1960): «O que é o cinema?» «A verdade 24 vezes por segundo». Este discurso, que faz do cinema uma ilha, ou um bloco isolado na longa duração de um trabalho em torno da opticidade (os brinquedos ópticos como variante da grande tradição dos brinquedos filosóficos), que hoje se prolonga no 3D ou nos videojogos, ressurge no filme de Miguel Gomes, desde logo naquela posição muito hegeliana segundo a qual a verdade de um fenómeno se vê melhor a partir do seu fim.

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Um acontecimento: «Notícias da Antiguidade Ideológica», nas Sessões do Carvão


A história é conhecida e integra uma História Alternativa do Cinema: a dos grandes projectos irrealizados. Por 1927, Sergei Eisenstein concebeu o projecto de filmar O Capital, de Marx, a partir da estrutura do Ulisses de Joyce. Nunca levado a cabo, o projecto viria enfim a ser realizado, em 2008, por Alexander Kluge, dando origem a uma obra de 9 horas e meia, com uma estrutura caleidoscópica que tanto recorda o Ulisses como o Livro das Passagens ou o Livro do Desassossego.

A obra será projectada, na íntegra, com entrada livre, no edifício da Casa das Caldeiras, da Universidade de Coimbra, em três sessões, a partir do próximo dia 11 de Abril. Nesse mesmo dia, antecedendo a «maratona» marxiana, projectar-se-á Filme Socialismo, de Jean-Luc Godard. Como aperitivo, propomos a apresentação que o grande escritor argentino Alan Pauls faz do filme, numa sessão de paixão cineclubística (e marxista) em Buenos Aires.

«Fury», by João Botelho


Tem já algum tempo mas vale sempre a pena ver: a fúria justiceira de João Botelho contra o bota-abaixo sistemático em relação ao cinema português (continua aqui). Quase sempre vindo de gente que ou não conhece os filmes que cá se fazem, ou acha que há apenas uma forma de os fazer: a que os Multiplexes impõem, entre as pipocas e a Coca-Cola, com o resultado desastroso que se sabe para o próprio cinema americano.

Recordamos que na próxima segunda-feira, pelas 18.30 h, João Botelho será o convidado da sessão 3 do «Páginas Tantas».

Capas desenhadas por João Botelho em exposição no TAGV

Um das capas de João Botelho, aliás João B., para as edições A Regra do Jogo, corria o ano de 1976. Este livro e muitos outros, d’A Regra do Jogo, da Afrontamento, da Centelha, dos Livros Cotovia ou da Cinemateca Portuguesa, serão objecto da exposição que, no TAGV, acompanhará a sessão do «Páginas Tantas» com João Botelho, no próximo dia 12 de Março.