Na sala de aula: Joaquim Manuel Magalhães (II)

Passo agora a transcrever o poema da sala de aula, inicialmente editado em Segredos, Sebes, Aluviões, tal como Joaquim Manuel Magalhães o recupera em Um Toldo Vermelho (Relógio d’Água, 2010, p. 154), obra na qual inclui o que considera recuperável da sua produção poética:

Num acanhado apontamento
pergunta a tabuada.

A reza de números, a regente
indaga de seguida
numa página coçada
gramática.

O arroubo, o ilógico
elemento decorado,
um pronome pessoal que laço
a um colega miudinho,
ígneo arrojo.

Não vale a pena fingir que se pode ler este poema sem a leitura contrastiva que a sua história solicita. É certo que se o leitor agora chegado à poesia de JMM ler Um Toldo Vermelho como a Obra, dispensará provavelmente tudo aquilo que, lá para trás, faz antes desta obra uma súmula. Nesta versão, a Obra não seria mais do que um privilégio do amnésico. Contudo, o problema maior da súmula da Obra a que o autor deu o nome, também ele «em versão curta» e por isso falsamente amnésica, Um Toldo Vermelho (título que recupera e ao mesmo tempo corta Uma luz com um toldo vermelho, livro de 1990), reside no envio para a memória que cada poema sobrevivente à poda produzida pelo autor põe, como que necessariamente, em marcha.

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Na sala de aula: Joaquim Manuel Magalhães (I)

O poema, encimado pelo número 41 (o livro, no total, tem 51 poemas), integra o volume Segredos, Sebes, Aluviões, que Joaquim Manuel Magalhães publicou na colecção Forma, da Editorial Presença, em 1985. Ou integrava, já que é um dos muitos poemas profundamente refundidos na versão, aparentemente final, da obra poética do autor editada na Relógio d’Água em 2010 com o título Um Toldo Vermelho, versão essa na qual o volume de 1985 perde o plural, intitulando-se agora Segredo, Sebe, Aluvião. Em todo o caso o poema publicado no livro de 1985 persiste, sendo a questão filológica, em rigor, improcedente para os fins que aqui se perseguem. Deixo para depois uma breve análise da versão de 2010 e passo à transcrição do poema:

Sentava-me num banco corrido,
o livro fechado nos joelhos.
A D. Lídia vinha com um xaile
e perguntava-me a tabuada.
A água das regas corria numa vala.

Depois da reza dos números,
voltava-se para um outro aluno
e ensinava-lhe gramática.
Eu ouvia e o êxtase
cerrava-se numa tosca cantilena
daqueles sons mal decorados.

Teriam sido os pronomes pessoais
ditos pelo rapazinho que esqueci
o meu primeiro poema?

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Na sala de aula

Na sala de aula (1985) é o título de um pequeno livro de Antonio Candido, mestre e decano dos estudos literários brasileiros. De intenção assumidamente didáctica, o livrinho, despretensiosamente subintitulado «Caderno de análise literária», é um manual de análise de poemas sem um real equivalente em Portugal, o que só se pode lamentar.

«Na sala de aula» será o título de uma rubrica na qual se explorará, num corpus alargado de textos extraídos das literaturas de língua portuguesa, a representação da cena primitiva do encontro com o texto literário na sala de aula, esse local tão amado como mal amado, tão desmitificado como resistente à desmitificação. Estará em pauta uma certa arqueologia do ensino da literatura, sem contudo se aspirar à produção de uma narrativa de fundação ou legitimação. Os exemplos serão apresentados sem curar da sua cronologia (tanto mais que o corpus se encontra ainda em formação) ou do seu lugar numa  das muitas histórias que a partir deles se poderiam contar. Confiar-se-á antes no poder iluminador da justaposição descontínua de episódios de uma história cuja longa duração será revisitada no seu momento moderno. Sem nostalgia mas também sem renunciar ao poder formativo do encontro com o texto literário, nesse local tão incompreendido mas onde, por um raro privilégio, o mundo se interrompe para que, por intermédio da voz de um outro (poeta, ficcionista, dramaturgo), a nossa voz se afine e afirme: a sala de aula.