Meditações tempestivas do Sr. Kraus (II)

Pontualidade

Há hábitos que jamais se abandonam. O bom político até à inauguração de um relógio chega atrasado.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Kraus, Lisboa, Caminho, 2005, p. 34.

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Meditações tempestivas do Sr. Kraus (I)

Depois das eleições

Depois de qualquer eleição a sensação dos políticos – quer tenham perdido quer tenham ganho – é a de que o povo mais profundo acaba de entrar todo num comboio, dirigindo-se, compactamente, para uma terra distante. Esse povo voltará apenas, no mesmo comboio, nas semanas que antecedem a eleição seguinte.

Esse intervalo temporal é indispensável para que o político tenha tempo para transformar, delicadamente, o ódio ou a indiferença em nova paixão genuína.

Gonçalo M. Tavares, O Senhor Kraus, Lisboa, Caminho, 2005, p. 64.

«O Kazukuta» (excerto), Ondjaki

Um dia era de tarde e vi o tio Joaquim dar banho ao Kazukuta. Um banho de demorar. Fiquei espantado: o tio Joaquim que ficava até tarde a ler na sala, o tio Joaquim que nos puxava as orelhas, o tio Joaquim silencioso, como é que ele podia ficar meia hora a dar banho ao Kazukuta?

Lembro o Kazukuta a adorar aquele banho, deve ser porque era um banho sincero, deve ser porque o tio punha devagarinho frases ao Kazukuta, e ele depois ia adormecer. Kazukuta: lembro bem os teus olhos doces a brilhar tipo um mar de sonho só porque o tio Joaquim – o tio Joaquim silencioso – veio te dar banho de mangueira e te falou palavras tranquilas num kimbundu assim com cheiros da infância dele.

E demorou. Nós já estávamos quase a parar a nossa brincadeira. Porque afinal a água caía nos pêlos do Kazukuta, e os pêlos ficavam assim coladinhos ao corpo, e virados para baixo como se já fossem muito pesados, e a água acabou, não tinha mais, e mesmo sem fechar a torneira o tio Joaquim, com a mangueira ainda a pingar as últimas gotas dela, e no regresso do Kazukuta à casota, depois daquele abano tipo chuvisco de nós rirmos, o tio Joaquim deu a notícia que tinha demorado aquele tempo todo para falar:

– Meninos, a tia Maria morreu.

Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:

– Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?

O tio largou a mangueira, veio nos fazer festinhas.

– Sim, podem.

Vi um sorriso pequenino na boca do tio Joaquim. Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com com inveja de vir brincar connosco.

O tio Joaquim era muito calado e sorria devagrinho como se nunca soubesse nada das horas e das pressas dos outros adultos. O tio Joaquim gostava muito de dar banho ao Kazukuta.

Odnjaki, «O Kazukuta», in Os da minha rua, Lisboa, Leya, BIS, 2010. 3ª ed., pp. 22-23.

«Setenta anos» (um excerto), por António Barahona

Que Deus nos dê a fé,
a certeza e o equilíbrio, Amin.
Que Deus nos dê alma pra rezar
cinco vezes por dia, Amin.
Que Deus nos dê força na vêrga, Amin.
Que Deus nos dê uma morte serena
sem mêdo do inferno, nem ânsia do paraíso,
mas apenas com vontade de fechar os olhos
e d’escutar Ya-Sin, Amin.

O Som do Sôpro, Lisboa, Poesia Incompleta, 2011, pp. 45-46.

Ser fiel ao acontecimento, por Sousa Dias

O acontecimento acontece sempre, com efeito, no contexto de certas condições efectivas que, uma vez dado esse acontecer, serão vistas como as condições de possibilidade do próprio acontecer. Mas o acontecimento como tal nunca decorre, ou só decorre por uma parte (a sua parte ‘reactiva’, histórico-contextual, definível por aquilo contra o que reage ou acontece) dessas condições que ele excede na sua parte ‘activa’ ou auto-afirmativa e que, explicando-o ou co-possibilitando-o num olhar retrospectivo, nada explicam. As condições contextuais objectivas em que se dá o acontecimento são ao mesmo tempo as suas condições de possibilidade (visto o acontecimento por referência a posteriori a elas) e as suas condições de impossibilidade (vistas estas a priori por referência ao acontecimento). Elas são as condições de impossibilidade do acontecimento, as condições negativas da vinda do acontecimento que, mesmo depois de ter vindo, e como dizia Jean-Luc Marion atrás citado, permanece impossível, inexplicável, ‘sem razão’. Em linguagem metafísica, ‘ontológica’, um acontecimento deve ser possível segundo o ser sem todavia se lhe reduzir (excedência, incompossibilidade, não-relação). Deve ser um ‘efeito’ do ser, mas um efeito que não decorre do ser como da sua causa, que pelo contrário, ao efectuar-se, ao acontecer, retroage sobre o ser de maneira a determiná-lo, por essa retroacção, como causa. O acontecimento inscreve-se no ser, na ordem positiva do ser, mas é só por essa inscrição ou efectuação, pela sua vinda impossível e incondicionada, que ele determina o ser como sua causa, como condição da sua possibilidade. Ao irromper ou interromper, ao romper a série ‘cosmológica’ do ser, o acontecimento cria a sua própria possibilidade como possibilidade dada no ser. O que abre para o tema, de raiz estóica na história da filosofia, e conceptualizada de forma admirável na filosofia moderna por Deleuze e de novo por Badiou, daquilo a que se poderia chamar a ‘fidelidade ao acontecimento’ (por exemplo ao acontecimento-Marx, à cesura teórico-política de que Marx é o nome próprio). Ser fiel ao acontecimento, ser fiel ao que nos acontece, mesmo ao mais pessoal ou privado do que nos acontece, um amor, uma amizade, um encontro para sempre marcante com um livro ou um filme, algo ou alguém…, é justamente recusar a reinscrição, ou absorção, do acontecimento na ordem (ontológica, histórica, pessoal) do ser, é afirmar o acontecimento como excedência absoluta das condições do ser, do real e do possível, como im-possível extra-ser. É viver o acontecimento como uma ‘graça’, como qualquer coisa de absolutamente único, irredutível pela sua singularidade à ordem causativa do ser, acontecimento-efeito que produz as suas causas, que as explica, lhes dá sentido como causas, em vez do inverso.

Sousa Dias, Grandeza de Marx. Por uma política do impossível, Lisboa, Assírio & Alvim, 2011, pp. 111-112.