Sessão 7 de «Páginas Tantas»: Bernardo Carvalho

Bernardo Carvalho é o convidado da sessão 7 de «Páginas Tantas», iniciativa conjunta do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e do Teatro Académico de Gil Vicente. A sessão terá lugar hoje, 2 de Julho, pelas 18h 30m, no foyer do TAGV. O painel será constituído por Ana Maria Machado e Osvaldo Manuel Silvestre.

Bernardo Carvalho nasceu em Lisboa em 1973.
Aos 5 anos, começou a subir à prateleira do pai para ler todos os livros de banda desenhada que encontrava.
Aos 10, atropelou uma velhota na sua bicicleta amarela e os remorsos e a culpa nunca mais o largaram.
Aos 17, os testes psicotécnicos indicaram “92% ar livre”.
Aos 19, entrou para o Curso de Design de Comunicação da Faculdade de Belas Artes de Lisboa, mas a certa altura resolveu sair (os testes psicotécnicos tinham razão).
Por essa altura fez o Curso de Desenho na Sociedade de Belas Artes.
Aos 22 anos entregava empadas em cafés numa carrinha, mas foi despedido por justa causa (“esmagamento e furto de empadas” constava no processo).
Foi assim que começou a sua carreira de desenhador.
Em 1999, fundou o Planeta Tangerina.
Desde então ganhou vários prémios:
Menção Honrosa no “Best Book Design From All Over the World” da Leipzig Foundation; “Melhor Livro Editado” no CJ Picture Book Festival da Coreia; Titan Awards; Prémio Nacional de Ilustração 2010; “Melhor Livro” Banco del Libro (Venezuela); Nomeação para a Lista de Honra do IBBY.

Anúncios

Livros a apresentar na sessão 7 de «Páginas Tantas»

Ficção

● Iris Murdoch, Sob a Rede (trad. Maria de Lourdes Guimarães), Lisboa, Relógio D`Água, 2011. ISBN 9789896412418.

● Fernando Pessoa, O Mendigo e outros contos, Lisboa, Assírio & Alvim, 2012. ISBN 978-972-0-79304-1

● Fernando Pessoa, Contos Completos, Lisboa, Antígona, 2012. ISBN 978-972-608-223-1

Poesia

● Giovanni Testori, Três Prantos (Miguel Serras Pereira), Lisboa, Assírio & Alvim, 2012. ISBN 978-972-37-1622-1.

● Jorge Sousa Braga, O Novíssimo Testamento e outros poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2012. ISBN 978-972-0-79303-4

Ensaio

● Hans Magnus Enzensberger, O Afável Monstro de Bruxelas (trad. Júlia Ferreira e José Cláudio), Lisboa, Relógio d’Água Editores, 2012. ISBN 978-989-641-292-0.

● Jacques Rancière, A Noite dos Proletários. Arquivos do sonho operário, Lisboa, Antígona, 2012. ISBN 978-972-608-220-0

Literatura infantil

● Manuel António Pina, O Têpluquê e outras histórias, ilustrações de Bárbara Assis Pacheco, Lisboa, Assírio & Alvim, 2012. ISBN 978-972-0-78661-6

«Aniversário», José Ángel Valente

Não compreenderás
para que é que voltei.
Talvez, aí deitada,
não compreendas
nada do que vive.
Voltei, apesar de tudo,
para falar-te outra vez.
(Está molhada
e limpa a colina.)
Ainda te vejo
com o rosto de sempre
e os cabelos, em seu reino
de fumo, algo encanecidos.
Não tenho olhos
para mais. Não és
talvez assim e é isso a morte.

Voltei para te falar.
Estou aqui. Não compreendes
nada. Esqueci-te
tanto e consegui
esquecer-te tão pouco.
Estou alegre: às vezes
não me recordo de ti
(também isso é a morte?).
Não sei se me compreendes,
nem sequer
se estás aqui ou deslizas
por um ar que nunca
pesou sobre a minha boca.

(A colina, apesar de tudo,
está quieta debaixo do céu
tal como dantes.)
Mas ouve-me se puderes.
Num dia como o de hoje
caiu a neve,
arrebatadora. Eu cumpro,
inutilmente, o rito. Mas não importa;
não podes compreender-me.
Tudo foi cortado.

Poema incluído em A modo de esperanza (1954). Tradução de OMS.

Bernardo Carvalho na sessão nº 7 de «Páginas Tantas»

Recordamos que a sétima sessão de Páginas Tantas, a ter lugar no próximo dia 2 de Julho, no TAGV, pelas 18h 30m, terá como convidado o ilustrador, e fundador da editora Planeta Tangerina, Bernardo Carvalho (reproduzimos acima um auto-retrato do autor). Acompanhando a sessão, algumas ilustrações de Bernardo Carvalho serão expostas no foyer do teatro.

A cegueira da escrita. Sobre a cena da escrita em Carlos de Oliveira

Nenhum heroísmo, nenhuma retórica, um mínimo de corpo: eis uma descrição possível da cena da escrita em Carlos de Oliveira. A cena, esclareça-se, é nocturna, oficinal e despojada de qualquer tipo de transcendência, nem que apenas a fornecida por essa forma moderna, ou burguesa, de transcendência a que damos o nome de Literatura. O autor escreve à «luz eléctrica», que aqui não é um dos nomes (ou o nome) do ansioso Eros moderno, fabril e febril, de Álvaro de Campos, mas tão-só o foco e o casulo de uma prática simultaneamente criativa e mecânica, corporal e espectral, intensa e mortificante. Leia-se, de uma das escassas descrições dessa cena:

O trabalho oficinal é o fulcro sobre que tudo gira. Mesa, papel, caneta, luz eléctrica. E horas sobre horas de paciência, consciência profissional. Para mim esse trabalho consiste quase sempre em alcançar um texto muito despojado e deduzido de si mesmo, o que me obriga por vezes a transformá-lo numa meditação sobre o seu próprio desenvolvimento e destino. (Carlos de Oliveira, O Aprendiz de Feiticeiro, Lisboa, Sá da Costa, 19793, pp. 205-206.)

Notemos o perfil moderno deste autor «sem biografia», como quase todos os grandes modernos, a começar pelo escriturário Pessoa: «trabalho oficinal», «consciência profissional», «horas de paciência», despojamento e, finalmente, auto-consciência da obra de arte. Esta descrição surge potenciada em verso no extraordinário «Soneto Fiel», de Sobre o lado esquerdo (1968), de que transcrevo os últimos sete versos: «A solidão coalhada sobre a mesa. // As sílabas de cedro, de papel, / A espuma vegetal, o selo de água, / Caindo-me nas mãos desde o início. // O abat-jour, o seu luar fiel, / Insinuando sem amor nem mágoa / A noite que cercou o meu ofício». Resumindo abruptamente, dir-se-ia que estes versos, como as breves e escassas descrições da cena da escrita em Carlos de Oliveira, nos sugerem o escritor como um «escriturário da literatura», essa versão tardo-oitocentista rastreável já no Flaubert de Bouvard et Pécuchet, segundo a qual a dicotomia feliz entre o burocrata e o criador está condenada a fracassar sob a luz crua (a luz eléctrica…) das realidades do «ofício». Por outras palavras, o poeta é um oficiante — notem-se as conotações sacras, e genesíacas, do verso «Caindo-me nas mãos desde o início» — ungido pela epifania… da burocracia, cujo outro nome, ou pseudónimo, seria «literatura». Esta consistiria provavelmente numa vasta corporação de funcionários solitários, assinalados, na escuridão da «fábrica», pelo seu abat-jour fiel. O nome desta fábrica, como já foi sugerido, pode ser literatura ou, mais radicalmente, linguagem.

Continuar a ler

Sessão 6 de «Páginas Tantas»: Álvaro Domingues

Álvaro Domingues é o convidado da sessão 6 de «Páginas Tantas», iniciativa conjunta do Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e do Teatro Académico de Gil Vicente. A sessão terá lugar hoje, 4 de Junho, pelas 18h 30m, no foyer do TAGV. O painel será constituído por Osvaldo Manuel Silvestre e Ricardo Namora.

Álvaro Domingues nasceu em Melgaço, em 1959. Licenciou-se em Geografia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, instituição na qual se doutorou em Geografia Humana em 1994. As suas áreas de interesse particular têm sido a Geografia Urbana, o Urbanismo, a Paisagem, os Territórios e as Políticas Urbanas e Culturais. É Professor Associado da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) e investigador do Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (CEAU-FAUP). Foi Professor Convidado da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade de Granada e leccionou já na pós-graduação do Departamento de Arquitectura da Universidade de Coimbra. Recebeu o Prémio Caixa Geral de Depósitos e Associação Portuguesa de Desenvolvimento Regional pelo melhor trabalho nacional sobre desenvolvimento regional, publicado durante os anos 1994-1996.

Com A Rua da Estrada (Dafne, 2010) e Vida no Campo (2011) iniciou a publicação de uma tetralogia sobre o Portugal contemporâneo, centrada nas noções de «paisagem transgénica» e «desruralização», que vem tendo grande impacto público.