Vitória amarga

Não tivesse hoje o virtuosismo má reputação e má imprensa e poderíamos colocar o autor de Antes do Circo no grupo dos autores demasiado sábios do seu ofício. De facto, o mais impressionante nesta recolha é a forma como ela se coloca, aparentemente, no ponto mais tardio de uma certa dialéctica moderna na qual a latência da obra de arte se vai esvaziando em favor de um triunfo do manifesto das formas – e de um triunfo de uma versão da obra, e da Arte, como forma dissimulada, ou contrabandeada, sob temas tendencialmente desprovidos de qualidades ou nulos o bastante para percebermos que se trata de dissimulação e contrabando. Para esta leitura, a epígrafe de Carlyle sob a qual o autor desejou colocar o livro – «Could anything like a story be made?» – parece ratificar os extremos a que a modernidade conduziu a aporia que descobriu, ou melhor: radicalizou, entre «contar» e «história», na medida em que aprendemos, com essa velha senhora, que só há contar e que toda a história é essencialmente, para não dizer «apenas», história do contar, sendo essa a verdadeira epopeia da literatura moderna, votada necessariamente à derrota ou à amarga vitória com que palavras fazem mundo (e eis respondida a pergunta de Carlyle).

Jerônimo Teixeira (JT), porém, não é o alto moderno que o parágrafo anterior parece sugerir, já que se o seu moderno é Drummond (e Drummond, a quem dedicou um trabalho académico, é bem o paradigma de um moderno inclusivo e não-dogmático, e aliás em recuo progressivo em relação àquela dialéctica alto-moderna), a verdade é que antes e depois do brasileiro encontramos nele as grandes sombras de Poe e Borges, suficientes para que o perfil desta história mude um tanto. Os dois extraordinários contos que abrem este volume – «Onde a sombra bebe café» e «Unheimlich» – são ambos borgesianos sem moderação nem receio e o segundo tenta mesmo distrair-nos do grande argentino com o isco de uma série de referências explícitas ao universo ficcional de Poe, sem contudo o conseguir (e aliás seria possível argumentar que este Poe é uma criatura de Borges, como aliás Kafka – ou Carlyle). Os dois contos contribuem ainda para a significativa teoria de epígrafes do volume, com Yeats no primeiro e Borges no segundo, a que se seguem Joyce no terceiro e um envio para Sérgio Sant’Anna (um autor maior e representativo de algumas heranças daquela situação que diagnostiquei a abrir) no quarto, a que se seguirá mais à frente Conrad – antes de terminar, algo ironicamente, com Gregório de Matos. Estas epígrafes dizem-nos muito sobre a situação estética de JT, já que o situam naquela posição revisionista do moderno, e destes modernos (acrescentemos Joyce, episódica mas decisivamente convocado), sem a qual Borges é impensável. O fascinante, nesta recolha que demonstra uma vez mais o alto nível da tradição do conto no Brasil, sem paralelo em Portugal (ter um avô chamado Machado de Assis explica muita coisa…), reside justamente na forma como JT explora toda a latitude entre o conto que é supostamente apenas um «ensaio» falhado para contar o que não se pode contar («Unheimlich»), já que o momento decisivo da história que não há ou não pode haver é o encontro com o inominável – e faltam-me as palavras para verbalizar o espanto face a esta esmagadora demonstração de domínio da difícil arte do conto pós-borgesiano – e algumas histórias demasiado banais, próximas de formas do realismo brasileiro pós-Rubem Fonseca («St. Mejoroni», «Gigolo ivre», «Reduzir a pó os testículos»), mas todas elas mais ou menos infectadas pelo vírus da literatura enquanto má consciência ante usos confiados da linguagem (muito típicos, aliás, dessa tradição local activada por Rubem Fonseca).

Em termos aristotélicos, diríamos que em JT o narrador resiste a delegar a palavra nas personagens, optando por contar em vez de mostrar: estamos sempre afastados da cena primordial, o narrador prefere dizer-nos o que outrem disse e o texto ganha uma espessura refractada por uma série de parêntesis em que o narrador comenta e nos afasta da cena comentada, numa estratégia que em tempos mais históricos diríamos algo brechtiana. Os textos de JT procedem por uma montagem meticulosa e virtuosa, embora o caso mais espectacular – «Deus em Porto Alegre», em que JT entretece no seu texto, de forma insuperavelmente motivada, uma série de citações de Deus, i.e., João Gilberto – me seduza menos do que «Melodrama», em que os comentários do narrador vão subindo de patamar até, por exemplo, se referir à languidez da personagem feminina como sendo «uma languidez, não obstante os mais longos e aborrecidos travessões parentéticos, muito charmosa» (p. 87). A proliferação do comentário do narrador, sempre suspeitoso em relação a formas de proximidade com a história, faz com que esta se reduza «a tutano e medula, para não cansar o leitor, que já adivinha o acontecido» (p. 91). Todas as histórias são, depreendemos, a mesma história banal, todas elas existem para o nosso tédio, só o comentário, só o parêntesis, vale dizer: só a escrita enquanto refracção duplamente irreparável do evento, as ressalva. Faz assim sentido que certas personagens de JT sejam movidas pelo ressentimento (penso nas de «St. Mejoroni» e de «Pedacinho do Céu»), essa fenomenologia do desencontro entre mundo e representação. No primeiro caso, o ressentimento é compensado pelo fetichismo da mercadoria (nada vale um Fiat usado, diz a personagem); no segundo, por um reencontro, demasiado tardio, com aquele que roubou a amada antes dela ser destruída pela repressão militar e a quem se pergunta «- E Marília? O que houve com Marília, Raul?» Raul responde longamente, mas nada nos é transmitido da sua resposta: uma outra figura do Unheimlich, uma outra manifestação da resistência ao sentido que nenhuma explicação semi-póstuma outorga – se calhar, porque toda a explicação é não só tardia como fora de tempo.

Como também no fulgurante conto que dá título ao volume. Liga-se a luz: «O domador deslocou-a para que incidisse directamente sobre ele» (p. 103). Um animal chifrudo e indescritível emerge da luz: ele, aquele que não tem nome, apenas a marca do itálico como diferença irrepresentável. A personagem pergunta ao domador onde o tinha achado. «Comprei de outro circo, respondeu. Que comprou de outro circo, que comprou de outro, de outro, sempre outro. E antes?, pensei, e antes dos circos?» (p. 104) Como no apólogo indiano citado por Clifford Geertz, debaixo da última tartaruga mora ainda uma outra e outra. Para o domador, como para o perguntador, não há um tempo antes do circo, pelo que não há uma explicação verdadeira e final, ou seja, não histórica, metafísica ou teológica. O mal é parte do nosso circo e dispensa por isso maiúscula. Daí a pergunta final: «Quanto o senhor quer por ele?»

E eis aqui um apólogo final para este volume de Jerônimo Teixeira: não existe ficção antes do circo da literatura, aqui tão admiravelmente restituído na sua pregnância ostensiva. Este livro, todos os livros em que se joga tudo na representação do Unheimlich – que se pode chamar, por exemplo, Capitu –, são a Literatura enquanto circo. Ou Sonho, como Pessoa preferiria.

Jerônimo Teixeira, Antes do Circo, Rio de Janeiro, Record, 2008. [Texto publicado na revista Cult]

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